Aqueles pés se arrastam pela terra, os mesmos pés que sentem os tempos de mudança. Sente-se muito pelo pó da terra e pelas pedras e rochas e sedimentos que a incrustam. Sente-se também o vazio. Tiraram-lhe seu filho. Tiraram-lhe sua filha. Arrancaram um pedaço dela. É assim que a história começa e é assim que o mundo termina. Termina. Acaba-se, pela última vez. Dá pra sentir. Ela é Essun. Você é Essun. Nós somos Essun.

Certas fases de nossas vidas exigem renovação, exigem mudança. Parte disso vem de nossas próprias decisões, enquanto outra depende do que nos é ofertado, isso quando o assunto é literatura, claro. Uma das minhas resoluções para 2018 foi justamente a de me empenhar em ler mais romances que encorpem a minha pluralidade de leituras, de modo a acolher cada vez mais naturalmente aos livros que alimentam a gama da representatividade de nossa sociedade contemporânea, e, dessa forma, me aproveitar do catálogo exemplar da editora Morro Branco, por exemplo, que, assim como a Darkside Books aposta em uma literatura que não deve ficar à sombra das demais.

 

“Lar são as pessoas — diz ela a Asael em um tom suave. Asael pisca.— Lar é o que você leva consigo, não o que deixa para trás”.

A Quinta Estação, da norte-americana N. K. Jemisin é o título que inaugura a premiada trilogia A Terra Partida, vencedor do Hugo Awards na categoria principal, fato que deu a autora a honra de ser a primeira pessoa negra a receber tal prêmio — infelizmente, demorou décadas para que esse reconhecimento acontecesse, considerando-se a quantidade de escritoras igualmente habilidosas desde o nascimento da premiação.

No primeiro volume da trilogia, Jemisin entrega aos seus leitores uma escrita madura e convincente, dotada de um estilo ou escolha narrativa que impressiona na medida em que as páginas avançam e que o leitor se acostuma com o conjunto, já que a autora opta por narrar em segunda e em terceira pessoa, mantendo certa cadência e alternância durante a história. Jemisin escreve de maneira tão fluida que o estranhamento inicial a respeito do tratamento em segunda pessoa do singular desaparece progressivamente. Quando se dá conta, você deixou de se importar com a forma da escrita, enquanto passa a senti-la, a vivê-la e a acompanhá-la. Quanto mais o leitor se deixa levar pela história, quanto mais profunda é a imersão na leitura de A Quinta Estação, mais isso acontece naturalmente. O estranhamento pode ser quase um fato, mas a recompensa é tremenda.

Capa da edição

A história segue a vida de três personagens principais, extremamente vitais para o entendimento da trama:

— Damaya, ou Dama, é uma jovem garota marginalizada pelos próprios pais, já que a pequena possui um dom visto pela sociedade como uma maldição: orogenia, que é a habilidade de manipular a energia termal, cinética e outras formas de energia relacionadas para lidar com eventos sísmicos. Damaya não é desejada e a sua permanência pode significar grandes problemas para a família e para ela mesma, por isso, não tarda para que decidam dá-la a um guardião, figura intrigante, membro de uma sociedade ímpar que tem relação com os orogenes do Império Sanze. Embora muito jovem e inexperiente quanto à realidade de um mundo bastante cruel e preconceituoso, a pequena tem presença e bastante personalidade, o que permite criar facilmente certa empatia.

— Syenite é uma orogene quatro anéis treinada pelo Fulcro — uma ordem paramilitar autoadministrada e autossuficiente, com sede na capital, Yumenes —, a fim de servir ao Império. Syen pode aparentar ser livre, mas é refém de um sistema que vê a orogenia como símbolo de controle, enquanto enxerga nas pessoas que o retêm, grandes simulacros reprodutivos, infelizmente. Syenite é experiente e poderosa, mas também é terrivelmente decidida e impaciente e fria em partes da história. Ainda assim, Jemisin constrói com primazia a personagem, que deve se relacionar na trama com Alabaster, um orogene dez anéis.

— Essun é a personagem privilegiada com a narrativa em segunda pessoa. Mais velha que as demais e igualmente orogene, foi a responsável por me fazer me apaixonar pela obra de Jemisin. O que a autora faz em A Quinta Estação, escolhendo esse tipo de narrativa é se não ímpar, no mínimo bastante inusual. Quando um escritor opta pela terceira pessoa, normalmente o seu desejo é que ver os leitores se colocarem nos lugares de suas personagens e, portanto, criarem o vínculo ali. No entanto, quando Jemisin escolhe a segunda pessoa ela não nos permite a dúvida, ela já nos coloca na pele da personagem e palavra por palavra, frase a frase, página após página você se torna Essun. Isso é fantástico. Esse é o poder da literatura. Então, nós, leitores, vivemos Essun, perdemos um filho brutalmente assassinado por sua natureza orogene pelo próprio pai; perdemos a filha por um sequestro e pouco a pouco perdemos nossa própria identidade. Vivemos a busca de uma mãe que já perdeu muito e que deseja justiça, ciente do mundo nocivo que a rodeia.

“Liberdade significa que nós controlamos o que fazemos agora. Ninguém
mais”.

O cenário é muito interessante, já que Jemisin leva cada um por um mundo partido, em que a própria terra se revira continuamente, gerando uma série de abalos sísmicos, erupções vulcânicas e tsunamis que periodicamente desencadeiam literalmente o fim do mundo conhecido. A isso o povo chama Quinta Estação. Graças a elas, as novas sociedades se desenvolvem sobre as ruínas da antecessora, cultivando um desprezo desmedido por aqueles que não resistiram.

Não somente a trama de A Quinta Estação é diferente e bastante agradável de ler, mas há todo um estudo sociocultural aparente: o preconceito é tratado explicitamente durante o relacionamento entre orogenes e quietos (aqueles sem o dom, a maioria), onde os primeiros normalmente não são bem-vindos, mas comumente exterminados, como se fosse a razão dos tremores; há bastante representatividade, quando Jemisin opta por três mulheres como protagonistas, além de tratar de maneira bem natural os relacionamentos afetivos; e, sobretudo, sobre respeito, que é o que move e interliga todas as histórias no livro.

“Isto é o que você deve se lembrar: o fim de uma história é apenas o
começo de outra. Afinal, isso já aconteceu antes. Pessoas morrem. Velhas ordens passam. Novas sociedades nascem. Quando dizemos ‘o mundo acabou’, geralmente é mentira, porque o planeta está bem. Mas é assim que o mundo acaba. É assim que o mundo acaba. É assim que o mundo acaba. Pela última vez”.

A Quinta Estação se utiliza da literatura fantástica para abordar temas extremamente contemporâneos, sem forçar qualquer questão social, mas construindo sobre elas os pilares de um romance forte, poderoso e admiravelmente marcante. Quando os leitores se permitirem derrubar os muros que os prendem a intolerâncias históricas, aí sim, então, teremos na literatura um ambiente definitivamente igualitário. Afinal, quando se permite viver Essun, você se torna, mesmo que uma parte, para sempre, Essun.

Onde Comprar: Amazon | Saraiva

Essa resenha foi escrita pelo colaborador Dhiego Morais. Para conhecer mais do seu trabalho, siga-o em suas redes sociais: Instagram | Skoob

A Quinta Estação Book Cover A Quinta Estação
Terra Partida #1
N.K.Jemisin
Ficção Científica, Fantasia, Distopia
Editora Morro Branco
2017
560

"Vencedor do Hugo Awards É assim que o mundo termina. Pela última vez. Três coisas terríveis acontecem em um único dia: Essun volta para casa e descobre que seu marido assassinou brutalmente o próprio filho e sequestrou sua filha. Sanze, o poderoso império cujas inovações têm sido o fundamento da civilização por mais de mil anos, colapsa frente à destruição de sua maior cidade pelas mãos de um homem louco e vingativo. E, no coração do único continente, uma grande fenda vermelha foi aberta e expele cinzas capazes de escurecer o céu e apagar o sol por anos. Ou séculos. Mas esta é a Quietude, lugar há muito acostumado à catástrofe, onde os orogenes - aqueles que empunham o poder da terra como uma arma - são mais temidos do que a longa e fria noite. E onde não há compaixão. "Um dos 100 livros mais notáveis do ano" - New York Times “A trilogia ‘A Terra Partida’ é uma conquista triunfante na literatura de fantasia” - The Verge"

Facebook Comments

Keyla Kercya

Apaixonada por fantasia,terror e quadrinhos. Tem uma crush pelo Batman, Nightwing,Bluebird e Harley Quinn. Gótica assumida que ama Unicórnios!