Eu decidi ler mulheres. 

Parece uma coisa boba, não é?  

Como assim você decidiu ler mais mulheres?  

O que te levou a isso? 

“Que bobagem!” 

Eu sei, aparentemente todos nós achamos que lemos nossas cotas de autoras femininas ao longo da vida. No entanto, você já olhou a sua estante? Viu quantos livros escritos por mulheres você leu? Se não, faça isso e eu vou te contar por que fui levada a tomar essa decisão. 

Nós vivemos em uma sociedade machista. Isso é fato! Sob o domínio do sistema patriarcal que impera desde que o “mundo é mundo”. Nossas escolhas estão atreladas a nossa educação. Como reagiamos ao que nossos pais nos ensinam; mas não só isso, ao mundo a nossa volta também. 

Kindred – Octavia E. Butler

Eu cresci no meio de outros garotos, e por isso eu fui levada a gostar daquilo que era “coisa de menino”. Isso afetou praticamente grande parte das minhas escolhas ao longo da vida. Desde música, jogos, filmes e livros. Lógico, muitas dessas coisas eu mesma quis para mim e as carrego até hoje. Eu sou uma geek, eu amo cultura pop como qualquer pessoa comum que é atraída por esse universo. Só que eu fui massacrada por todas as coisas produzidas por homens, principalmente os livros e com eles foi diferente. 

 Eu amo ler! 

Eu leio desde os 6 anos e isso não é só um hobby, é parte de quem eu sou. Eram os amigos que eu sempre tive quando me sinto só. Eram minha diversão, meu lar. Só que ele começou a não ser mais tão prazeroso para mim, pois uma voz lá no fundo do inconsciente ficava me dizendo que algo precisava ser feito. E eu senti que precisava mudar. 

E mudei

Não foi fácil mudar e nem chegar a essa conclusão. Somos todos os dias abarrotados de livros escritos por homens e que parecem ser infinitamente mais interessantes que os escritos por mulheres. Ao longo da vida me levaram a crer que mulheres só escreviam romances românticos, e que era só isso que as meninas podiam gostar, ler e escrever. Mas é claro que isso é uma grande mentira. 

De uns tempos para cá eu conheci muitas ativistas feministas e muitas mulheres incríveis. A internet ajudou a ampliar meu círculo de amizades e com ela, aprender sobre o que as outras pessoas estavam falando. Eu conheci blogs incríveis de meninas e o grupo de leitura Leia Mulheres e assim tudo foi mudando na minha vida.  

Eu mudei. Passei e passo todos os dias pelo o que chamamos de “desconstrução”. Eu luto todos os dias para extirpar de mim a educação machista que eu recebi. Isso se reflete muito na forma como hoje eu me posiciono e vejo as coisas ao meu redor. Ainda preciso mudar muito, mas cada dia é um dia novo para isso. 

Ao conhecer o leia mulheres e me desconstruir, um dia me peguei pensando sobre o que eu lia. Olhei a minha estante e finalmente a ficha caiu. Praticamente minha estante era composta de 80% de autores masculinos e 20% ou menos de autoras femininas. Mas antes, eu tinha justificativas. 

“Eu leio, não fico atrás de saber quem escreve.” 

“Isso é besteira. Homem ou mulher. O que importa é se escreve bem.” 

Na verdade, não é bem assim. 

Nós somos levados a aceitar que os homens escrevem melhor que mulheres, mesmo personagens femininas. Isso apaga as mulheres do mercado e endossa ainda mais machismo. Existem mais homens no mercado editorial, alguns escrevendo romances e sendo mais reconhecidos que mulheres e isso é muito doido. Homens fazendo o que seria “por direito” algo feito só por mulheres e ainda assim quem ganha reconhecimento em grande escala são eles. É lógico que algo tá muito errado nisso.

Com tudo isso em mente, após o choque da realidade se instalar nos meus pensamentos, eu parei, respirei e comecei minha jornada pessoal para ler mulheres. Graças às Deusas, algumas editoras vêm evoluindo junto com o mundo e adotando políticas onde o trabalho de autoras femininas é diariamente valorizado. 

Foi com essa ajuda, esse trabalho de editoras preocupadas em valorizar e empoderar o pensamento feminino, que eu acabei ganhando mais força para seguir com o meu projeto pessoal. Afinal eu teria mais opções de mulheres escrevendo diversos gêneros para escolher. Foi pequeno no início. Eu ia acrescentando todo mês uma mulher a mais na minha lista de leituras ao ano. Hoje em dia, grande parte das minhas leituras são de autoras mulheres. Acredito que tenha encontrado um equilíbrio que me satisfaz no momento em termos de quantidade, e me dá conforto para ir e vim e saber o que eu gosto ou não. Foi algo muito bom, positivo e transformador. Claro que eu tenho minha lista de autoras favoritas. São as que eu sinto que falam melhor comigo, me entendem e escrevem sobre mim. 

Algumas autoras femininas que admiro

Isso é algo importante, que lendo homens eu não tinha. Identificação. Me ver em alguma das heroínas. Passar pelo o que elas passaram, seus conflitos internos. A verdade, é que alguns homens não entendem da psique feminina e arrisco a dizer, tampouco entendem da masculina. Retratam estereótipos que eu espero daqui alguns anos estejam fadados ao ostracismo. Hoje eu me sinto muito melhor com tudo isso. Como diria a Anitta e a Pablo Vittar : ” livre, leve e solta.”

Foi uma das melhores decisões que eu tomei. 

E espero que se você que chegou até aqui faça isso. Aceite que nem todo mundo tem os mesmos privilégios que você. Que mudar pode até ser difícil e causar certo pânico, mas vale a pena. E aprenda através desse exercício que talvez, só talvez, a quantidade de autores masculinos que você ler não é só por escolhas conscientes, ou por não se importar com o gênero do autor. O buraco nessa questão é muito mais profundo, mas isso é texto para uma próxima vez.

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Keyla Kercya

Apaixonada por fantasia,terror e quadrinhos. Tem uma crush pelo Batman, Nightwing,Bluebird e Harley Quinn. Gótica assumida que ama Unicórnios!