Uma das coisas mais bacanas da literatura é a capacidade dela conversar com o leitor em suas mais variadas formas. Como se não bastasse viajar sem sair do próprio lugar, existe a possibilidade daquela leitura ser tão recompensadora, tão certeira, que atinge feito uma flecha o leitor, o espectador, e de uma maneira inesperada toca a alma. Quando um livro é tão reconfortante a ponto de acalentar o coração, ah, então assim temos certeza de que encontramos algo bastante especial. Uma Dobra no Tempo é singularmente assim: belo, divertido e essencialmente cativante.

É bastante provável que você aí, caro leitor, que está lendo esta resenha já tenha escutado algo sobre esse livro, e isso, claro, muito provavelmente se deve à adaptação cinematográfica, dirigida por Ava DuVerney e com um forte elenco contendo Oprah Winfrey, Reese Witherspoon e Chris Pine. Ou ainda devido ao romance lançado pela Harper Collins. A questão é que agora os leitores podem contar com um complemento fantástico a mais para enriquecer a sua experiência, graças ao lançamento da graphic novel, pela DarkSide Books.

“Não é por não entendermos algo que essa explicação não existe.”

Cena do filme, “Uma Dobra no Tempo”

Em Uma Dobra no Tempo, desembarcamos em uma viagem agradável pelos ventos pela ciência e da fantasia. Meg Murry é uma jovem que faz tudo errado. Bem, não tudo tão errado assim, mas seus esforços normalmente acabam tomando rumos muito complicados, guiados por seu temperamento impaciente, nervoso e frequentemente teimoso, ainda que faça tudo com um coração surpreendentemente puro e amedrontado. Meg vive em meio a uma família excepcional, possuindo mais três irmãos amados e pais cientistas e brilhantes. Embora pareça uma história comum e infantil, a adaptação da obra de L’Engle engana e traz um resgate da juventude, muito apreciado. Meg poderia viver uma vida normal, mas ela sofre diariamente, pois o seu pai desapareceu após ter se metido com algumas pesquisas.

Enquanto Meg, na posição de mais velha entre os irmãos, possa transparecer certa atitude irritante, às vezes duvidosa demais ou até infantil demais, ela, como personagem, é o elo que conecta todas as outras à própria história, e, inevitavelmente, tem seus méritos e suas razões para agir assim. Ainda que não seja a mais inteligente de uma família fantástica, Meg acaba protagonizando parte da obra junto de seu irmão, Charles Wallace, um rapazinho — o caçula — incomparável, e de Calvin, um adolescente um tanto acanhado de início, mas absolutamente necessário ao elenco. Meg é impetuosa, mas também é solidária (e solitária) e temerosa, de certo modo.

“Não há nada a temer a não ser o próprio medo.”

Cena do filme “Uma Dobra no Tempo”

Procurando compreender o desaparecimento do Pai, Meg, Charles e Calvin acabam seguindo os passos embaralhados de três figuras bastante peculiares e no mínimo especiais: Charles Wallace é uma criança diferente das outras, capaz de sentir impressões que na maioria dos casos passam despercebidas dos demais; assim conhecemos a Senhora Quequeé e suas amigas, as Senhoras Quem e Qual. De personalidades únicas, completamente marcantes, as três senhorinhas são dotadas de um conhecimento ímpar, capaz de não apenas indicar, mas também levar ao caminho certo para reencontra o pai das crianças: aqui o leitor encontrará a confluência das duas correntes, a saber, a ciência e a fantasia. Trazendo a quinta dimensão para a discussão, temos a dobra, ferramenta inusitada para a viagem interdimensional!

O universo nunca mais será o mesmo para aqueles que ousarem desbravar essa história. Unindo ficção científica e fantasia, quadrinista e romancista produzem uma obra bastante plural, com toques únicos de autenticidade. Com reflexões sobre a vida e sobre a família, Uma Dobra no Tempo renova o espírito, lavando a alma com humor e amor.

Apesar de não possuir o sabor pessimista de Desventuras em Série, de Lemony Snicket, a graphic novel de Larson consegue imprimir um tom tão humorado quanto, assim como a mesma sensação de obra juvenil para todas as idades.

“As coisas que são visíveis são temporais. As coisas que não são vistas são eternas.”

Sempre de maneira muito lúdica e recheada de um humor delicioso, Hope Larson consegue trazer todo o carisma, diversão e empatia da narrativa de L’Engle, compondo ilustrações simples, porém delicadas, que remetem ao leitor uma chance de reviver experiências nostálgicas, com o resgate da essência da infância, do real significado de lealdade, amizade e família. Ao optar por uma colorização fixa, mantendo variações de tons de azul, branco e preto, Larson traz um ar fresco e objetivo à própria narrativa e caracterização das personagens.Uma Dobra no Tempo entrega uma adaptação do romance original bastante completa, com personagens carismáticos e bem caracterizados. Mesmo dotado de certo maniqueísmo de Bem versus Mal, Hope Larson produz uma série de quadros bem traçados e roteirizados, com uma colorização fria que combina agradavelmente com a história de L’Engle. Aliado ao trabalho editorial da DarkSide, 2018 recebe no catálogo um quadrinho fascinante e fluido, capaz de renovar os ares. Uma ótima recomendação para se ler entre leituras mais densas, proporcionando uma fuga no mínimo aconchegante.

Uma Dobra no Tempo Book Cover Uma Dobra no Tempo
Uma Dobra no Tempo
Hope Larson & Madeleine L'Engle
Fantasia
Darkside Books
22.03.2018
HQ

Há mais de 50 anos, as palavras de Madeleine L’Engle encantam gerações de leitores e inspiram escritores a quebrarem as barreiras terrestres para explorar novos mundos. UMA DOBRA NO TEMPO é aquele tipo de livro que tem lugar cativo na estante e no coração dos leitores, e de vez em quando cai nas mãos de seu dono para que ele possa voltar no tempo. E verdade seja dita: quem se aventurou por suas páginas nunca mais enxergou noites escuras e tempestuosas da mesma maneira.A DarkSide® Books convida os leitores a embarcarem nessa viagem clássica reimaginada pela talentosa ilustradora Hope Larson.Em UMA DOBRA NO TEMPO, o pai de Meg e Charles Wallace, um exímio físico, está desaparecido há dois anos. A aventura começa quando, em uma noite de tempestade, eles recebem a visita de uma senhora peculiar, a sra. Quequeé, que foi tirada de sua rota pelo vento enquanto viajava pelo tempo e espaço utilizando o tesserato.Na companhia de mais duas criaturas sobrenaturais, a sra. Quem e a sra. Qual, e de um garoto chamado Calvin O’Keefe, eles partem pelo universo em busca de qualquer indício do paradeiro do dr. Murry. Mas o que eles descobrem vai muito além disso: todo o universo está sendo atacado pela Escuridão, uma força perigosa que traga a luz das estrelas e dos planetas, um verdadeira luta contra o mal.Roteirista das histórias da Batgirl, da DC Comics, e ganhadora de um Eisner Award, a maior honraria para um quadrinista, Hope Larson realiza um trabalho impecável ao reacender as memórias de quem cresceu na companhia de personagens tão carismáticos, ao mesmo tempo em que apresenta, com carinho e admiração, o universo de Madeleine L’Engle para uma nova geração de viajantes pronta para embarcar nessa jornada.E que jornada! UMA DOBRA NO TEMPO é uma aventura emocionante para todas as idades que discute temas importantes e eternos como coragem, aceitação das diferenças e a importância de acreditar em si mesmo. A jornada de Meg, uma garota comum e ao mesmo tempo extraordinária, nos mostra que existe um poder capaz de vencer qualquer obstáculo: o amor.Com interpretações vívidas que respiram nostalgia, seu traço cuidadoso ganha ainda mais frescor com o tom azulado que permeia as ilustrações, garantindo uma experiência completa. A DarkSide® Graphic Novel ganhou mais um quadrinho preparado com esmero, naquele padrão de qualidade que os darksiders já conhecem ― e que seria aprovado em qualquer lugar do tempo e espaço.Essa belíssima história também ganhou uma adaptação nos cinemas, em um filme da Disney estrelado por Oprah Winfrey, Reese Witherspoon e Mindy Kaling. Seja no cinema, nos livros ou nos quadrinhos, uma coisa é certa: UMA DOBRA NO TEMPO chegou para deixar o leitor querendo dar um jeito de tesserar por aí.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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