Depois de Black Hole, a editora mais caveirosa do país convida os seus leitores a conhecer mais uma faceta de Charles Burns, desta vez em um quadrinho curto, mas dotado de todos os traços característicos do artista que mescla temas contemporâneos importantíssimos com os seus traços icônicos, capazes de promover a reflexão pelo desconforto da mente humana.

1. UM ENSAIO SOBRE A ASSUSTADORA CERTEZA DE CRESCER

Talvez para uma boa parte das pessoas, se nos lembrarmos de nossos momentos quando crianças, sobre nossas certezas e anseios, provavelmente alguns citarão o desejo de crescer rapidamente, de se fazerem adultos depressa, a fim de se ter acesso a todo o universo dos adultos que é privado às crianças. De certo modo, hoje, já adultos, percebemos a ingenuidade desse anseio, pois com grandes poderes vêm grandes responsabilidades (obrigado, tio Ben, pelo aviso!). Entretanto, nosso menino, Tony Delmonto é o eterno Big Baby, uma criança que não se vê ansiosa em crescer. Ainda que aparente ser já “grandinho”, são os traços infantilizados de suas feições, de seus trejeitos e sua ingenuidade nata que conferem a ele o desejo em permanecer distante de qualquer mudança.

Foto por Dhiego Morais

Big Baby é a representação da juventude, um reflexo da infância do próprio Charles Burns, fato que pode ser observado pela incidência de diversas características dessa fase em suas ilustrações, que brincam com a ideia de memória, de fragmentação da inocência e com a ficção de horror.

2. A FICÇÃO DE ENCONTRO COM A REALIDADE DA SOCIEDADE

Big Baby é uma história dividida em cinco arcos: Big Baby (uma história bem curtinha que serve como introdução), Maldição dos Toupeiras (o arco mais longo e que conta com tons de horror e ficção científica), Peste Juvenil (uma história à moda dos filmes de terror e horror de baixo orçamento de décadas atrás, tendo a adolescência em foco), Clube de Sangue (lançado em 1991, tem os tons das séries de terror juvenis da mesma década) e Epílogo (que se trata mais de uma carta do autor com boas informações sobre a obra e algumas artes).

Por não ser uma HQ de história única, mas serial, com arcos fechados, Burns retrata por artifício da ficção científica e de horror características dos anos 80 e 90, uma série de temas contemporâneos, como a violência doméstica, a traição e o assassinato em Maldição dos Toupeiras; e os tabus do sexo em Peste Juvenil.

3. OS TRAÇOS EM PRETO E BRANCO DE BURNS

Como se não bastasse as histórias que mesclam o horror e a realidade nem sempre agradável da vida humana, Big Baby conta com os traços já conhecidos de Charles Burns, que são capazes de promover o desconforto tão bem quanto a ficção de suas tramas. Há algo de assustador em suas ilustrações, em suas personagens que quando observadas com atenção parecem saber muito mais sobre nós mesmos, algo de que não temos acesso. Olhos pequenos que nos sondam profundamente…

Foto por Dhiego Morais

Uma HQ curtinha, mas de fato essencial para os fãs de Burns.

Big Baby Book Cover Big Baby
Charles Burns
HQ
Darkside Books
Físico
112

Do criador do clássico Black Hole, a DarkSide® Books orgulhosamente apresenta outra obra-prima do horror moderno nos quadrinhos do mestre Charles Burns. Big Babyreúne quatro histórias do personagem título, apelido de Tony Delmonte, um fã dos clássicos quadrinhos de terror, revistinhas pulp e filmes B e um típico jovem dos subúrbios norte-americanos dos anos 1980.As quatro histórias – escritas e desenhadas entre 1983 e 1992 e publicadas na revista RAW, de Art Spiegelman (autor de Maus) e Françoise Molly, em jornais semanais de forma serializada e mais tarde em livro pela Kitchen Sink Press – foram reunidas pela primeira vez em livro pela editora norte-americana Fantagraphics em 1999 e, finalmente, chegam ao Brasil. Em “A Maldição dos Toupeiros”, Big Baby e sua curiosidade infantil são o ponto de partida para uma história que envolve um marido desconfiado de sua fiel esposa e homens toupeira que mantêm pessoas em cativeiro em uma prisão subterrânea no quintal do vizinho. “Peste Juvenil” poder ser lido como preâmbulo a Black Hole e seus jovens infectados, em um mundo às voltas com possíveis seres bizarros e alienígenas.“Clube de Sangue” se passa em um acampamento de verão, cenário perfeito e usual para histórias de fantasma e intrigas entre os adolescentes que precisam provar estarem aptos a entrarem para o clube. Como em seus melhores momentos, Burns investiga os dramas, as dores e as delícias do amadurecimento e da aceitação em um dos períodos mais conturbados na vida de qualquer pessoa.A precisão cirúrgica do traço de Burns acrescenta uma frieza sinistra ao seu peculiar senso de humor. Junto à sua ligação afetiva com a cultura do horror em voga nos anos 1950 e 1960, algo constante em sua obra, produz em Big Baby mais uma narrativa brilhante que captura de maneira magistral o desconforto e o medo da adolescência no final do século XX.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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