Ela repousa as xícaras de chá em uma travessa simples, mas bem cuidada. Duas belas xícaras. O chá fica pronto logo em seguida; o vapor quente exala trazendo o aroma doce. Com um toque de ansiedade transparecendo nos movimentos das mãos tremidas, a jovem se apronta, desamarrota o vestido, prepara o sorriso e em questão de segundos, parte para a sala, carregando a bebida e a esperança de que tudo ocorra como idealizara um dia antes. Oh, mas pobrezinha. Mal sabe que poucos minutos depois tudo o que conhecia haveria de desmoronar.

Aurora nas Sombras é um quadrinho desenvolvido pelo casal de franceses Marie Pommepuy e Sébastien Cosset. Traduzido por Maria Clara Carneiro e publicado no Brasil pela editora Darkside Books, esse quadrinho é, muito provavelmente, uma das melhores HQs lançadas em 2019, assim como deve se sobressair como uma das melhores leituras dos amantes dessa arte.

Aurora nas sombras – foto por Dhiego Morais

É interessante que assim que o quadrinho foi anunciado, eu não esperava encontrar o que li. Em menos de dez páginas, logo no início, o autor (vamos chamar assim a dupla de roteirista e ilustrador) produz uma reviravolta assombrosa, fragmentando a essência de Alice em uma desconstrução fantástica e totalmente inesperada. Após o primeiro choque, seguem-se outros mais; fato que torna Aurora uma experiência terrivelmente chocante e ao mesmo tempo deliciosamente amarga. Trata-se, em síntese, de um quadrinho prismático, em que cada superfície cristalina lança um caleidoscópio de cores, vistas como emoções e interpretações da trama.

Aurora é nossa protagonista e, já no início da HQ tem os seus planos arruinados pelo desmoronamento daquilo que conhecia como casa. Jovem e nitidamente apaixonada por Hector, Aurora demonstra ser não apenas polida, mas também doce e capaz de promover momentos de empatia e abnegação. Todavia, Aurora tem um desenvolvimento surpreendente na história, contracenando momentos em que se porta ora de maneira inclemente e vingativa, ora de modo abalado e inocente.

Junto de aurora conhecemos outras figuras da pequena comunidade, tais como o galã Hector, uma esnobe princesa, uma bela aventureira solitária, dotada de habilidades de sobrevivência impressionantes, e, claro, a figura de um garotinho, o Plim, cujas ações certamente irão dividir as opiniões dos leitores.

Um dos pontos mais bem conduzidos nessa HQ é justamente a construção das personagens, imbuídas de personalidades variadas e intrigantemente únicas. Na medida em que a leitura avança, as personagens adquirem mais camadas, até que nas páginas finais o núcleo história + personagens se funde e promove um verdadeiro “explodir de cabeças”.

Abordando temas como a traição, assassinato, violência e confiança, tudo dentro de um mesmo espectro da emoção e do psicológico infantil, Aurora nas Sombras é um quadrinho para ser apreciado e devorado. A experiência em ler essa obra agregará sentimentos conflitantes, choque e provavelmente raiva por diversas atitudes; um mix de “eu estou passando mal” + “isso era pra ser uma fábula, mas só tem desgraça!”. Bebam com moderação.

Trecho da HQ – foto por Dhiego Morais

Seria maravilhoso poder abordar a metáfora da experiência e do final da leitura de Aurora, teorizar certos aspectos do cenário e das personagens, mas isso estragaria completamente a sua própria aventura, amigo leitor.

Fica o convite, então, para que Aurora também te acompanhe no seu lar. Leiam. Surpreendam-se. E teorizem.

Aurora nas sombras Book Cover Aurora nas sombras
Fabien Vehlmann Kerascoët
HQ
Darkside Books
Junho 2019
Físico
96

Um grupo de pequenos seres é obrigado a sair do lugar aconchegante onde mora e iniciar uma luta pela sobrevivência em um mundo terrível. Tudo parece dentro dos conformes, certo? Bem, mais ou menos. A casa deles era o cadáver de uma garotinha estirado no meio da floresta, e o lugar para onde eles vão não é nada mais, nada menos que o mundo que conhecemos como nosso. Depois de provocar pesadelos com Floresta dos Medos, de Emily Carroll, e viver uma aventura fantástica com Francis, de Loputyn, a DarkSide® Books convida os leitores a embarcar em uma jornada um tanto quanto sinistra com Aurora nas Sombras. Indicado ao Prêmio Eisner em 2015, o quadrinho, escrito por Fabien Vehlmann e ilustrado pelo casal Marie Pommepuy e Sébastien Cosset (que assina como Kerascoët), conta a história da doce Aurora e seus amigos conforme eles viajam por um mundo estranho. Cercados por perigos e incertezas, eles se veem confrontados por situações extremas que despertam sentimentos como inveja, egoísmo, rancor e ganância. Formar alianças fica cada vez mais difícil, e quando o grupo começa a se desestruturar, Aurora se vê diante de um dilema: até onde ela está disposta a ir para sobreviver? Aurora nas Sombras é a verdadeira definição de um pesadelo açucarado. Não se deixe enganar pelo traço fofo e aquarelado desta graphic novel: ela pode ser atraente aos olhos, mas é perturbadora na mesma medida. Assim como o mundo em que vivemos. Ecoando a aura estranha e nonsense de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, aos olhos de David Lynch, e os dilemas morais de O Senhor das Moscas, de William Golding, Aurora nas Sombras mistura o meigo e o brutal para abordar temas como o desmoronamento da civilização e a morte da inocência. É impossível não admirar os tons pastéis das ilustrações, mesmo que, enquanto faz isso, você esteja refletindo sobre os horrores da vivência humana. Aurora nas Sombras chega para fazer parte do selo DarkSide® Graphic Novel, em uma edição de colecionador caprichada e feita para resistir a qualquer passeio na floresta.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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