O mundo como conhecemos não vai colapsar devido a um vírus mortal, ou por causa de mordidas infecciosas. Não será a guerra por territórios, por comida ou água, nem muito menos uma intervenção alienígena ou celestial. O mundo vai ruir por meio da própria tecnologia: os celulares.

Assim que a editora Suma de Letras anunciou o lançamento de Celular, uma série de leitores e fãs de Stephen King comemorou, afinal, era o retorno de mais uma obra difícil de encontrar à venda e por um preço acessível; assim como fez com Cujo e A Incendiária, por exemplo, embora estes tenham sido pela coleção Biblioteca Stephen King.

“A sobrevivência é igual ao amor. Os dois são cegos.”

Imagens do filme homônimo, Celular (2016).

Celular, lançado em 2006, e contando com uma adaptação cinematográfica homônima, dez anos depois, dirigida por Tod Williams e estrelada por John Cusack, Isabelle Fuhrman e Samuel L. Jackson; é o típico exemplo de livro do autor que divide os leitores. Se por um lado há quem goste mais do início e de todo o desenvolvimento, extraindo uma experiência bastante positiva, há quem deteste Celular, principalmente devido ao seu final – mas nós já conversaremos sobre isso, já, já.

Nessa obra, King se propõe a contar a sua própria versão de um apocalipse zumbi, porém, agora, o caos terá início por meio da tecnologia: algo de estranho está acontecendo com os celulares, pois quem os utiliza, quem tenta realizar uma ligação ou atende a uma delas, de repente já não é mais a mesma pessoa. É como se as pessoas sofressem algum tipo de reprogramação do cérebro, fazendo-as retornar aos seus instintos mais desumanos, mais bestiais e selvagens.

Clayton Ridell é um artista e está de passagem em Boston. Enquanto aguarda em na fila de uma espécie de foodtruck, a senhora que está a sua frente atende ao celular e, em poucos segundos, já não mais a mesma pessoa, passando a atacar com força assustadora e mordidas as pessoas ao seu redor. Carros são lançados contra as pessoas, atropelam, batem nos canteiros, tombam. Há tumulto no metrô e não tarda para que um enxame de pessoas brote na superfície, umas fugindo, outras sendo atacadas. Nos prédios, homens e mulheres despencam jogadas de muito alto, outras, aparentemente suicidas. A cidade parece sofrer um ataque terrorista aos olhos dos poucos em sã consciência. Entretanto, Clay tem uma grande suspeita, e essa loucura parece ter vindo do que quer que esteja sendo transmitido pelos celulares. O que seria?

“É assim que um homem fica ao decidir que correr o risco de morrer é melhor do que correr o risco de mudar.”

Celular é muito provavelmente o livro mais sangrento de Stephen King. Já em suas primeiras páginas o leitor é surpreendido com a agilidade das cenas e com a fluidez fora do comum da trama, que não dá tempo para que o leitor se recupere e respire. A temática pode lembrar – para aqueles que já leram – os livros de Bachman (o álter ego de King), cuja narrativa se utiliza mais vezes da ação, da violência e do choque, do que da construção das personagens e do cenário. No entanto, em certos momentos da leitura essas similaridades se mesclam, entre a voz de King e a de Bachman, o que encaminha Celular para o meio dos dois caminhos.

Se por um lado temos Clay, um artista e que agora vive com a mente presa na imagem do filho, que até então estava em segurança ao lado da mãe, enquanto, Clay lembrava bem, portava um aparelho celular; por outro temos Tom McCourt, grande figura do livro, representando a âncora da razão em conflito com o emocional. Tom também estava no mesmo local que Clay quando o caos começou, e foi o desespero que acabou unindo as duas personagens. Clay pode ser um tanto quanto inflexível às vezes, principalmente quando o assunto é o seu filho, porém, se não fosse por Tom e posteriormente por Alice Maxwell, a jornada do artista teria sido mais dura e complicada.

As pessoas que usaram um celular passaram a um estado de pura selvageria, e que, em questão de poucos dias, vivenciariam o estranho processo de seleção natural. É como se a humanidade estivesse evoluindo a um estado inteiramente novo, peneirado pela brutalidade humana. Atraídos pelos sons, de hábitos diurnos, privados da capacidade de comunicação verbal, mas dotados de um senso de aprendizado eficiente, eles seriam o fruto do Pulso, o fenômeno que provocou a onda apocalíptica.

King propõe uma importante reflexão aos seus leitores por meio dessa obra, ao personificar a tecnologia celular como o causador de desordem. Com o acolhimento dessa ferramenta, que passa por frequentes atualizações e modernizações, e que caiu no gosto popular, tornando-nos reféns da tecnologia, ao passarmos tanto tempo conectados e dependentes; o que poderia acontecer com a humanidade se algo desse errado e de repente esses pequenos objetos se transformassem em pequenas caixas de terror, de uma selvageria proliferadora, corrompida?

“No fundo, não somos nem um pouco Homo sapiens. Nossa diretriz primária é matar. O que Darwin foi educado demais para dizer, meus amigos, é que dominamos a Terra não porque éramos os mais inteligentes, ou mesmo os mais cruéis, e sim porque sempre fomos os mais loucos, os mais desgraçados homicidas da floresta.”

Imagem do filme, Celular (2016).

Constituindo um de seus livros mais dinâmicos, King peca no aprofundamento do plano de fundo e no de algumas personagens que poderiam ter sido mais bem aproveitadas. Mas é no final que ele de fato encerra de maneira preguiçosa, ponto esse que é volta e meia citado entre os seus leitores, quando tenta reproduzir um clímax à espelho de O Concorrente, por exemplo, ou talvez A Maldição, mascarado por um pouco mais de sentimentalismo. Se Celular fosse um pouco mais longo, poderia ter bebido mais do background de A Dança da Morte, quem sabe?

Ainda assim, é importante dizer que a experiência é válida. Celular é um ensaio brutal sobre a dependência humana de sua própria tecnologia, que em um momento é capaz de trazer a luz para mente, e no segundo seguinte pode regatar o que há de mais cruel em nossos corações.

Só um momento; meu celular está tocando…

Celular Book Cover Celular
Stephen King
Terror
Suma
2018
384

Um dos livros mais sangrentos e horripilantes do mestre do terror. Stephen King captura o leitor desde as primeiras páginas, sem oferecer qualquer chance para que recupere o fôlego antes do final devastador.Em Celular, King leva o medo da tecnologia e do terrorismo digital às últimas consequências. De uma hora para outra, telefones celulares se tornam os responsáveis pelo apocalipse, ao apagar do cérebro de milhões de pessoas qualquer traço de humanidade, deixando no lugar apenas violência e impulsos destrutivos.Aqueles que não possuem um celular, como o artista gráfico Clayton Riddell e seu pequeno grupo de normies ― pessoas que não sofreram o ataque ―, agora lutam por sobrevivência. Enquanto batalha para chegar a um lugar seguro e reencontrar sua família, Riddell se vê cada vez mais rodeado por caos, carnificina e uma horda terrível de humanos que foram reduzidos aos instintos mais básicos... mas que parecem estar começando a evoluir.

Facebook Comments

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

About The Author

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

Related Posts