A luz da sala se encontra apagada e o único brilho do cômodo vem exclusivamente da televisão. Os sons do programa atual, algum reality show de ação se mistura aos ruídos de risadas ora abafadas, ora escandalosas. A família está reunida, afinal, não há nada mais interessante do que se juntar e assistir às mais variadas pessoas desesperadas em se manter vivas para conquistar o grande prêmio. Opa! Som da sirene da polícia passando bem pela sua rua. Tem um cara fugindo em disparada. Dia de sorte. Talvez você ganhe um bônus se denunciar.

O Concorrente é um dos livros que compõem os chamados Livros de Bachman, lançado ainda em 1982 sob o pseudônimo de Richard Bachman. Bachman nasceu da necessidade de King em descobrir até que ponto a influência de seu nome era responsável pela aparente qualidade de suas obras, principalmente em uma década que caminhava para o auge de seus lançamentos. Bachman não teve fruto em uma fantasia, mas era o escape mais confortável para que King pudesse publicar alguns de seus trabalhos iniciais que acreditava que os seus leitores poderiam gostar. Infelizmente, Richard Bachman não deveria ter tido uma carreira tão curta, já que havia surgido para existir até o fim, porém, logo não tardou para que alguns leitores cruzassem as escritas de King e Bachman que, em certas obras, possuem bastante semelhança. Dito e feito. Quando as notícias foram veiculadas, King nutriu sentimentos no mínimo confusos e férteis demais — Bachman, que era casado, foi anunciado morto pelo câncer da revelação, deixando para trás uma viúva cheia de manuscritos ocultos —, que, em seguida dariam nascimento ao romance A Metade Sombria.

“Eles nos dão a GratuiTV para nos manter longe das ruas, para podermos morrer pela respiração sem criar caso”.

Imagem do filme homônimo.

A trama de O Concorrente, de tradução de Vera Ribeiro pela Suma de Letras, gira em torno de quase que exclusivamente um grande personagem principal: Ben Richards. Ben é típico pai de família que atravessa um mar de dificuldades financeiras, enquanto se encontra desempregado. O ano é 2025 e a vida é bastante cruel para aqueles que não têm influência e poder para barganhar. A esposa de Ben é uma mulher com um passado um tanto quanto conturbado e frustrante para Richards, porém, a sua maior preocupação no momento recaí sobre a própria filha, que sofre entre febres elevadas de influenza — sim, em 2025 a gripe é uma doença extremamente preocupante e mortal, ainda mais quando os remédios e tratamento são estritamente caros e controlados pelo governo.

Ben Richards é um homem muito inteligente e sagaz, e, embora deteste e ridicularize os programas e a influência da televisão, se vê obrigado a participar da seleção para a participação de algum dos realities shows da GratuiTV, a poderosa emissora que funciona como ópio futurista da sociedade de 2025, a fim de arrecadar o dinheiro para os remédios de sua filha. E é justamente a esperteza de Richards que chama a atenção da equipe do principal programa de TV: O Foragido.

Esse livro, que possui uma adaptação curiosa, de 1987, protagonizada por Arnold Schwarzenegger e dirigida por Paul Michael Glaser, bebe da fonte da ficção científica e da fantasia, de um ramo da grande árvore da ficção especulativa que conhecemos como distopia. O interessante é que quando citamos a distopia o que vem quase que instantaneamente para a maioria dos jovens é Jogos Vorazes, Divergente e até mesmo o romance do escritor japonês de Battle Royale, Koushun Takami, entretanto, pouco se fala da obra de Bachman nesses casos.

Ao aceitar participar do reality “O Foragido”, Ben deverá apenas procurar se manter vivo pelo máximo de tempo possível; a cada hora em que respira, ele é agraciado com uma determinada quantia em moeda nova, que deverá ir para a esposa caso ele não sobreviva ao programa. Enquanto foge, Ben é seguido por uma equipe especializada de caçadores, homens habilidosos treinados para não apenas capturar os foragidos, sombras da sociedade totalitária, mas também exterminá-los em rede mundial. Além disso, a sociedade, os telespectadores são estimulados a denunciar qualquer avistamento dos participantes do reality; a denúncia rende uma graninha para os dedos-duros.

“— Essa gente — disse Richards — só quer ver alguém sangrar. Quanto mais, melhor”.

Aliada a uma sociedade futurista totalitária, repulsiva, desinteressada de qualquer igualdade social; em um meio nocivo, de ar impuro, em que a casta da mídia televisiva governa folgadamente e de maneira desumana, Bachman traz uma escrita ágil, onde a ação é mais valiosa do que a prolixidade. E este é um ponto artístico bem interessante, que difere da já conhecida escrita de Stephen King, que pode agradar aos mais apressados ou desagradar aos que se apegaram ao trabalho mais manual e lento das obras aclamadas do autor, como IT e A Dança da Morte, por exemplo.

Com capítulos sempre curtos e dotados de títulos que fazem uma contagem regressiva partindo do número 100 — o que, particularmente, imprime certa sensação de urgência durante a leitura —, em alguns momentos O Concorrente não parecia se tratar de uma obra de Stephen King. Aqui, Bachman ganha a sua própria marca, com um texto mais objetivo e experimental, escrito em uma época em que o rapaz mesclava raiva e muita energia para expressar a paixão profunda pela arte e o ofício de escrever.

“É parecido demais com a roleta russa. A vida humana tem uma certa qualidade sagrada”.

Imagem do filme homônimo.

A sátira que Bachman faz em seu livro, ao retratar uma sociedade de espetáculo, feito pão e circo, em que a televisão em uma época futura, mas não muito além é centralizada como vilã chega a assustar, se analisarmos a influência dessa mesma mídia já no século XXI. O problema da alienação é alegorizado fielmente ao lado de um regime que mascara as crueldades para se manter no poder.

Com um final abrupto que foge aos finais já conhecidos de Stephen King, Bachman entrega um romance distópico agradável e bastante ágil para se ler entre outras obras mais complexas. Embora não seja o melhor de seu álter ego, vale a leitura por sua carga reflexiva a respeito do homem e da sociedade. Portanto, sente no sofá, ligue a sua GratuiTV e até aonde Ben Richards é capaz de ir para salvar a vida de sua filha. Derry, talvez?

O Concorrente Book Cover O Concorrente
Stephen King
Distopia
Suma
312

Reality shows, o uso de aviões como armas e até a volta das microssaias... A mente visionária de Stephen King já previa tudo isso e mais um pouco quando escreveu "O Concorrente", no início da década de 1980. Sob o pseudônimo Richard Bachman, o mestre do terror flerta com a ficção científica neste thriller.
No 2025 de Bachman, a TV domina os lares americanos, entorpecentes são vendidos em máquinas automáticas e ar puro é privilégio de poucos. Um mundo onde um jogo chamado matabol é brincadeira de criança e a desgraça alheia é a maior diversão. Na telinha, uma volta à Roma dos gladiadores, com milhões de telespectadores sedentos de sangue levando os índices de audiência às alturas. É nessa arena futurista que desembarca Ben Richards, um desempregado disposto a qualquer sacrifício para salvar a vida da filha. Sua última tentativa é participar do programa O Foragido, disputa da qual ninguém conseguiu sair vivo ainda.
"O Concorrente" inspirou o filme "O Sobrevivente" (The Running Man), estrelado por Arnold Schwarznegger em 1987. Outra curiosidade: King declarou que levou apenas 72 horas para escrever o livro.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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