O vento fustiga o pistoleiro impiedosamente. Os seus pés cruzam as areias do deserto de areias brancas e montanhas que perdem a forma devido a sua extenuante distância, em um caminho infernal e solitário que um dia já abrigara a trilha poeirenta de uma rodovia. O mundo não é menos hostil, mas o mundo seguiu em frente. E se esvaziou. Em algum lugar mais à frente, o Homem de Preto continua fugindo, deixando o rastro de odor inconfundível.

“O tempo põe o grisalho na sua barba, o tempo leva o poder de explosão e enquanto isso você está pensando – como um tolo – que ele ainda está do seu lado.”

Imagens da internet. Arte da série A Torre Negra.

Finalmente, trinta livros de Stephen King depois eu finalmente decidi por me aventurar e encarar a saga da Torre Negra, o romance de Roland Deschain. Já há algum tempo eu ouvia sobre a importância da Torre não apenas para os fãs, mas para o próprio autor, que considera a série de sete livros um único e grande volume, capaz de rivalizar em questão de história e imaginação com A Dança da Morte, um dos maiores e mais amados clássicos de King. Entretanto, sempre me vi despreparado para esse enfrentamento, e eu já explico isso.

A saga d’ A Torre Negra nasceu como a maioria dos grandes épicos da segunda metade do século XX: fruto do contato com a literatura de Tolkien. Já na sua juventude, entre 1966 e 1967, época em que King havia lido a coleção de escritos, já havia a semente daquilo que germinaria em sua maior ambição como escritor: produzir, a sua maneira, o romance popular mais comprido da história, um verdadeiro épico da ficção. É claro que a Torre não parou por aí, mas se expandiu e se tornou algo ainda mais poderoso e influente, funcionando como o motor que movimenta todas as demais obras do autor, interligando-as no que ficou conhecido como The Kingverse (O Kingverso).

O Pistoleiro, primeiro volume da série foi lançado originalmente em 1982, com a compilação dos capítulos iniciais já escritos e, assim como ocorreu com A Dança da Morte, em 2003 ele ganhou uma nova edição revisada pelo próprio autor, que incluiu um capítulo a mais e adaptou o volume inicial para se encaixar com mais exatidão ao volume final.

“Quando traidores são considerados heróis (ou heróis traidores, conjecturava ele franzindo as sobrancelhas), os tempos sombrios devem ter chegado.”

Entre o lançamento de O Pistoleiro e a conclusão da saga, pouco mais de 30 anos se passaram, com alguns hiatos bem espaçados que acompanharam a fase mais problemática de Stephen, regada a álcool e drogas. Foi após o atropelamento por uma van Plymouth que quase lhe tirou a vida que King passou a se empenhar mais na finalização d’A Torre Negra, que ainda dependia de mais três volumes para ser concluída. De 2001 a 2003, quando havia melhorado o suficiente, os últimos volumes eram terminados e O Pistoleiro sofria pequenos ajustes.

A complexidade das tramas que giravam em torno da saga e as suas conexões com algumas obras de King, assim como os comentários negativos que cercavam o primeiro volume me mantiveram afastado por quase cinco anos, desde que fui fisgado pelas histórias do mestre. Não digo que para se ler O Pistoleiro você precise ter lido dezenas de outros títulos do autor, ou que você, leitor, deva se afastar do livro por qualquer que seja o motivo, mas saliento: leia um ou outro livro de Stephen antes, por ordem cronológica ou não; procure conhecer a narrativa dele primeiro, se acostume a ela e às personagens, e então encare a viagem de Roland Deschain. Será muito mais proveitoso, te garanto.

O Pistoleiro se trata da história, ou melhor, de uma parte da história de Roland Deschain, o último pistoleiro desde que o mundo seguiu em frente, desde que o mundo se esvaziou e o deserto engoliu tudo. Vagando por um caminho estéril, onde a erva do diabo, doce fábrica de pesadelos ainda ousava crescer, Roland segue obstinado, com um único e irrefreável desejo: alcançar O Homem de Preto, que esguiamente foge dele.

“O Homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás.”

Extraído do filme: A Torre Negra.

O Homem de Preto é uma figura conhecida para alguns leitores mais experientes de Stephen King. Aqui, ele parece exercer certa influência poderosa no Mundo Médio, além de que seja talvez seja o único com a chave para evitar a destruição completa daquelas terras, que já avançam para a decrepitude. A Torre Negra, um símbolo quase místico, é a maior obsessão de Roland, e os caminhos dele e do Homem de Preto indicam a confluência inescapável.

O Pistoleiro é um livro sem começo ou fim. É, sobretudo, uma parte da história verdadeira. Apesar de ser curto (pouco mais de 200 páginas), consegue ser um tanto quanto arrastado e confuso, em parte por uma série de flashbacks que adicionam camada sobre camada na narrativa. Ler O Pistoleiro é ter ciência de que o leitor entregará um bilhete especial ao fiscal do trem e, enquanto se olha para a janela, viajará por um túnel alucinado de cenários e experiências vividas por Roland Deschain, com direito a tiroteio à lá faroeste, criaturas semi-humanas, oráculos, espíritos e magia, dosadas por momentos de violência, humor e drama.

Outras personagens também protagonizarão cenas memoráveis e é válido ressaltá-los: Alice, uma mulher vivendo na cidade insossa de Tull e Jake Chambers, um menino deslocado, perdido e desmemoriado, dono de uma história singular.

O Pistoleiro é não é uma história sobre o início da jornada de Roland, ou sobre o fim do Mundo Médio, mas sim uma história sobre o meio. Um épico distópico inspirado no universo de Tolkien e no poema “Childe Roland à Torre Negra Chegou”, de Robert Browning (1812-1889), onde a ficção fantástica e científica e o terror se encontram em um verdadeiro cenário de faroeste. Uma estrada que segue para escolhas difíceis e para um destino amargo.

O Pistoleiro Book Cover O Pistoleiro
A Torre Negra #1
Stephen King
Fantasia
Suma
224

Em O pistoleiro, o leitor é apresentado a Roland Deschain, último descendente do clã de Gilead, e derradeiro representante de uma linhagem de implacáveis pistoleiros desaparecida desde que o Mundo Médio onde viviam “seguiu adiante”. Para evitar a completa destruição desse mundo já vazio e moribundo, Roland precisa alcançar a Torre Negra, eixo do qual depende todo o tempo e todo o espaço, e sua verdadeira obsessão, sua única razão de viver. O pistoleiro acredita que um misterioso personagem, a quem se refere como o Homem de Preto, conhece e pode revelar segredos capazes de ajudá-lo em sua busca pela Torre Negra, e por isso o persegue sem descanso. Pelo caminho, encontra pessoas que pertencem a seu ka-tet – ou seja, cujo destino está irremediavelmente ligado ao dele. Entre eles estão Alice, uma mulher que Roland encontra na desolada cidade de Tull, e Jake Chambers, um menino que foi transportado para o mundo de Roland depois de morrer em circunstâncias trágicas na Nova York de 1977. Mas a aventura se estenderá para outros lugares muito além do Mundo Médio, levando Roland a realidades que ele jamais sonhara existir. Este é o primeiro livro da série A Torre Negra, uma das obras mais ambiciosas de Stephen King, que mistura com maestria elementos de terror e fantasia épica. Esta edição, inteiramente revista pelo autor, traz também prefácio e introdução inéditos de King.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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