Afastado da civilização, ergue-se imponente o Teto do Céu, uma espécie de morro castigado — ou abençoado? — por Deus. Lá, surpreendentemente se localiza um casebre inóspito, conhecido pelos jovens aventureiros. Entretanto, muito próximo, como um grande e reto dedo indicador julgando as decisões celestiais está o mastro de ferro, rasgando o ar enevoado. Raio seguido de raio atinge o mastro, seguidamente incandescente. A eletricidade flui pela região, eriçando os pelos, carregando o medo e abrindo portas que deveriam permanecer fechadas.

Revival é um dos lançamentos pós anos 2010 mais interessantes de Stephen King. Já conhecido pelo seu gosto em trabalhar temas essencialmente humanizados, como o alcoolismo, o vício em drogas, a depressão, a violência doméstica, homicídios, a psicopatia e a opressão a diversos grupos sociais, ora regados a um toque sobrenatural, ora embebidos somente na perversidade humana, dessa vez, o autor resgata o seu fôlego e entrega uma obra poderosa, com inspirações clássicas, um verdadeiro tributo à moda de Stephen King.

“É assim que a gente sabe que está em casa, acho, não importa quão longe se vá ou quanto tempo se passe em outro lugar. Casa é onde querem que você fique mais”.

Photo by François Vaillancourt

O livro é dedicado a diversos autores que o ajudaram a pavimentar o seu caminho como escritor profissional e também — por que não? —, como leitor. Mary Shelley, H. P. Lovecraft, Shirley Jackson, Robert Bloch e Peter Straub, entre outros mais, são citados como referência.

Em Revival, Stephen King leva os seus leitores a uma delicada cidadezinha na Nova Inglaterra, terra essa em que conheceremos Jamie Morton, um garotinho de seis anos, em um sábado de outubro de 1962. Jamie vive em uma família basicamente religiosa, com a mãe; o pai, diácono, mas que trabalha com óleo combustível; sua irmã, Claire; e mais outros irmãos, Terry, Con e Andy. Jamie é o típico garoto perspicaz, atento ao que acontece ao seu redor, com poucos amigos, mas capaz de se divertir sozinho ainda assim.

Diferentemente de suas obras mais robustas, Revival não perde muito tempo e consegue engrenar a história com bastante praticidade. É quando uma sombra inesperada cobre o pequeno Jamie, enquanto se divertia movendo seus exércitos de brinquedo em seu Morro do Bode feito de terra, que o gatilho para a trama estala. A sombra é de Charles Jacobs, o novo ministro da Primeira Igreja Metodista de Harlow — cidadezinha relativamente próxima de um dos ícones de Stephen King, a bela Castle Rock.

Charles é uma das figuras mais interessantes desse romance. Ainda em 1962, ele já chamava a atenção devido a sua jovialidade, enquanto ministro da igreja. A inexperiência era vista com maus olhos pela comunidade, porém, o seu modo de se portar e as relações que conseguia estreitar com bastante facilidade, em parte pelos seus sermões bem conduzidos, dissolviam lentamente esse estereótipo. Além disso, o leitor é conduzido por toda a trama a conhecer as inúmeras facetas e fases de Charles, de um promissor ministro às suas maiores obsessões.

“A curiosidade é uma coisa terrível, mas é humana. Humana demais”.

Fixando-se em Harlow, Charles carrega consigo a sua própria família: uma bela esposa e um filho pequenino. Em busca de reacender a fé local, não tarda para que Jamie Morton e o novo reverendo fiquem mais próximos e compartilhem uma história própria. Aos poucos, a chegada do ministro conduzirá a uma série de eventos capazes de transformar a vida da cidadezinha.

Revival reconstrói em uma narrativa em primeira pessoa, a história de mais de cinquenta anos de um núcleo de personagens interconectados para sempre. Utilizando-se de uma desgraça que não apenas choca, mas parte o coração, King trabalha habilidosamente para tecer os fios de uma trama que é capaz de unir a eletricidade, a ciência, e a religião. É quando Charles é expulso da pacata cidade que o leitor avança pelas décadas, acompanhando o desenrolar das vidas dos grandes protagonistas do livro, cujos reencontros proporcionam o epicentro de verdadeiros terremotos na narrativa.

Ainda que a primeira metade do romance dê a entender uma sutileza em abordar o sobrenatural, a verdade é que Revival é um de seus livros que mais versa nesse tema, já que a partir da última metade para o fim, King navega por mares saborosamente fantásticos, sem muitas restrições após ter construído uma relação estreita entre o público leitor e as personagens, em um verdadeiro tributo aos mestres H. P. Lovecraft e Mary Shelley.

Na medida em que o leitor avança pelas páginas de Revival — o que acontece com espantosa facilidade —, observamos o declínio de Jamie Morton, que nas décadas seguintes ressurge atormentado por uma série de demônios pessoais, em um redemoinho de depravação, heroína e desilusão. Em contrapartida, por termos a narração pela visão de Morton, a figura do reverendo fica oculta e incerta. No entanto, Charles é construído de maneira tão crível, que fica difícil não se prender a ele em seus momentos centrais.

Há certa complexidade, bem como uma aura de mistério em algumas personagens dessa obra, que frequentemente embaçam nossa visão quando tentamos assimila-los durante a leitura, tal qual encontramos nos livros de Shirley Jackson, por exemplo. As personagens coadjuvantes perdem o brilho para Jamie e Charles, no entanto.

“Todo mundo precisa de um passatempo. E todo mundo precisa de um milagre ou dois, só para provar que a vida é mais do que uma longa caminhada do berço à cova”.

Art by Darek Kocurek

Com um final poderoso, Stephen King evoca o medo pela aflição e pelo abominável, conduzindo os seus leitores por uma estrada descampada e iluminada por raios até um final capaz de dividi-los. Existe algo de nebuloso no final desse caminho, regado com primor e que deverá agradar aos fãs de Lovecraft e Mary Shelley, por exemplo, além, claro, daqueles que amaram Joyland. Em tempo: seria interessante imaginar um crossover entre Revival, A Zona Morta e O Cemitério.

Isento de sua prolixidade, Stephen King apresenta uma obra marcante, dotada de personagens cinza e de diálogos poderosos envolvendo questões sociais e espirituais capazes de estimular uma série de reflexões. A facilidade com que o autor modela suas criações, promovendo o vínculo entre aquele que lê e aquilo que é de fato lido assusta. Revival é um verdadeiro ensaio sobre as consequências do vício e do fanatismo, e de nossa capacidade de seguir em frente após as adversidades.

Revival Book Cover Revival
Stephen King
Terror
Suma
2015
376

Em uma cidadezinha na Nova Inglaterra, mais de meio século atrás, uma sombra recai sobre um menino que brinca com seus soldadinhos de plástico no quintal. Jamie Morton olha para o alto e vê a figura impressionante do novo pastor. O reverendo Charles Jacobs, junto com a bela esposa e o filho, chegam para reacender a fé local. Homens e meninos, mulheres e garotas, todos ficam encantados pela família perfeita e os sermões contagiantes. Jamie e o reverendo passam a compartilhar um elo ainda mais forte, baseado em uma obsessão secreta. Até que uma desgraça atinge Jacobs e o faz ser banido da cidade. Décadas depois, Jamie carrega seus próprios demônios. Integrante de uma banda que vive na estrada, ele leva uma vida nômade no mais puro estilo sexo, drogas e rock and roll, fugindo da própria tragédia familiar. Agora, com trinta e poucos anos, viciado em heroína, perdido, desesperado, Jamie reencontra o antigo pastor. O elo que os unia se transforma em um pacto que assustaria até o diabo, com sérias consequências para os dois, e Jamie percebe que reviver pode adquirir vários significados.

Facebook Comments

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

About The Author

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

Related Posts