Tal como uma força invisível, completamente impalpável, de certa maneira inexplicável, há alguma coisa que te guia até o pacato vilarejo. Ali, as pessoas aparentemente comuns deixam clara a aversão, a antipatia por sua presença que se arrasta pelos calçamentos de pedras ancestrais. O sino de igreja barroca badala fantasmagoricamente, e por mais estranho que tudo lhe pareça, o sol já se pôs silenciosamente. Há uma pressão angustiante nesse instante e não tem origem específica; vem de todos os cantos, de encontro a você, tal feito uma estaca, tal como um totem pagão. Você não deveria estar ali; todos te olham dessa maneira. Você foi avisado, mas você é somente um pedaço partido de ferro que vai de encontro ao imã gigantesco. Atrás de você. Sim, ela está presente; sempre esteve. Seu corpo secular, seu ar de anciã… seus olhos costurados e boca igualmente selada. Acorrentada, ela se mantém ereta, enquanto seu rosto amaldiçoado se inclina levemente. Malignamente, embora seus olhos estejam pregados, você sabe que ela olha diretamente para ti. Toda cidade tem segredos, mas nenhuma é Black Spring.

Detalhes da edição da DarkSide Books do livro HEX

Hex, obra de terror escrita pelo holandês Thomas Olde Heuvelt é um dos lançamentos mais aguardados de 2018 no Brasil. Publicado originalmente na Holanda e na Bélgica, em pouco tempo fez da estreia do jovem romancista um verdadeiro best-seller elogiado, inclusive, por grandes nomes da indústria do terror, do sci-fi e da fantasia, tais como o mestre Stephen King e George Martin. A ficção macabra já fez tanto sucesso que a própria Warner Bros. está desenvolvendo uma série para a televisão. A aposta da Darkside Books para esse ano figura, sem sombra de dúvidas, como um dos melhores títulos da editora até o momento!

“Aquele lugar os dominava. E mesmo agora, no final da noite do verão tardio, era possível sentir que o lugar em si pertencia a alguma coisa mais antiga.”

Em Hex, o autor nos apresenta o pacato vilarejo de Black Spring, uma cidadezinha discreta, pouco influente, de mais de três séculos de atividade nas terras americanas desde sua fundação, que se mescla à vinda de holandeses para o continente. Thomas nos leva até a família Grant, composta por Steve e Jocelyn, pais de Tyler e Matt Grant. Embora já estejam completamente familiarizados e enraizados ao soturno vilarejo, Steve e Jocelyn não são nativos, mas vieram motivados por pesquisas acadêmicas e por trabalho.

Black Spring poderia se misturar a qualquer história de cidade pequena e esquecida pela sociedade, no entanto, o vilarejo esconde segredos ancestrais, segredos manchados de sangue e de maleficência; de crueldade e ocultismo. Black Spring esconde uma bruxa: Katherine van Wyler, condenada há mais de 300 anos por bruxaria, enforcada e jogada em um dos poços do bosque em que vivia; uma oferta aos animais selvagens.

Katherine van Wyler é uma personagem absolutamente interessante. Tendo vindo, muito provavelmente, em um dos navios da Companhia Ocidental das Índias — uma expedição holandesa que fundaria a Nova Holanda em meados do século XVII, bem próxima da Nova Inglaterra e dos indígenas munsee —, já nos seus trinta anos vivia com um filho e uma filha no interior da floresta, em uma parte conhecida como Abismo do Filósofo. É aqui que entra o conhecimento histórico da época, bastante interessante, pois como era de se imaginar, uma mãe solteira vivendo nos bosques, estritamente afastada da sociedade já era motivo suficiente para levantar a aversão, o medo e certa repugnância pelos puritanos.

“A humanidade já provou inúmeras vezes que tem uma tendência a atravessar barreiras que não deveria. E temos toda a razão para acreditar que se seus olhos se abrirem e ela começar a pronunciar seus feitiços, todos vamos morrer. É por isso que nós a mantemos fora das vistas. Ela não quer ser compreendida — ela não deve ser compreendida. Katherine é uma bomba-relógio paranormal.”

Condenada por bruxaria, Katherine misteriosamente, perversamente retorna dos mortos e passa a assombrar a cidade de Black Spring (ou o que viria a se tornar Black Spring). Diferente de qualquer fantasma incorpóreo, Katherine é uma espécie de bruxa morta-viva, um ser sobrenatural que por choque ou por simplesmente se recusar a permanecer no plano espiritual, quem sabe, ressurge como Lázaro e passa a sussurrar suas maldições e devassidões pelo vilarejo. Ainda que os seus olhos e sua boca tenham sido costurados, e suas mãos acorrentadas, a bruxa continua vagando, sumindo e aparecendo por todos os cantos de Black Spring, aparentemente inconsciente, mas sempre sussurrando para os ouvidos desatentos, sentenciando todos a nunca mais saírem da pequena cidade.

A narrativa de Heuvelt é muito agradável e surpreendentemente inteligente. Ao optar por narrar em terceira pessoa do singular e escolher como plano de fundo a sociedade contemporânea, em pleno século XXI, o autor consegue habilidosamente unir o sobrenatural, tecnologia e história de maneira crível, embebendo sua narrativa do puro licor do terror que definitivamente assusta. Algumas influências na forma de guiar o enredo têm raízes na figura de Stephen King, por exemplo, fator que não desabona Thomas Olde Heuvelt em nada, muito pelo contrário, apenas entrega ao leitor atento um ar de familiaridade bem-vindo.

HEX – Edição da DarkSide Books

Um dos pontos principais de Hex e que elevam ainda mais a qualidade da obra são as personagens. Ao contrário de outras obras de terror que selecionam suas protagonistas e as destacam no meio do elenco, Hex entrega aos leitores um personagem principal muito bem delineado e desenvolvido, multifacetado e pluralizado, com mais de uma voz e mais de uma história, e, claro, singularmente complexo: a própria cidade de Black Spring. Não há como negar que, assim como o Cortiço, de Aluísio Azevedo e a adorável — risos — Derry, de IT, obra-prima de Stephen King, o sombrio vilarejo de Thomas ressalta e toma para si o protagonismo do livro.

A relação entre a família Grant — sobretudo no que se diz a Steve e Tyler — e os cidadãos de Black Spring também é uma questão que merece destaque. Na medida em que as páginas avançam e nos habituamos à narrativa e ao espírito do vilarejo, a tensão que permeia tudo e a todos aumenta, e os olhares suspeitos, os sussurros de condenação, os soluços de medo e toda a crueldade humana e a angústia que aperta os corações se destaca. A maneira como Thomas Olde Heuvelt cadencia e aloca cada ponto conforme a história pede, sem que o ritmo despenque é digno de nota.

“Se houver dor, abrace essa dor; se houver uma chama, não a apague. Deixe-a queimar, mantenha-a viva.”

Hex traz ares frescos à literatura de terror, sem perder originalidade. Resgatando o espírito do medo, não mais do desconhecido, do ‘se acontecer’, mas do ‘quando e do como vai acontecer’, Hex é um ensaio sobre a natureza humana, sobre costumes e história de um povo. Dotado de uma essência que definitivamente assusta, em um misto de tensão e aflição contínua e de um final duplo e alucinante, que trará um gostinho familiar, porém amargo diretamente de O Cemitério, de King, a estreia de Heuvelt é merecedora de todos os elogios que recebe.

Fique de olho no Hexapp e cuidado com a bruxa.

*Livro cedido pela editora em parceria*

Onde Comprar: Amazon | Saraiva

Essa resenha foi escrita pelo colaborador Dhiego Morais. Para conhecer mais do seu trabalho, siga-o em suas redes sociais: Instagram | Skoob

HEX Book Cover HEX
Thomas Olde Hevelt
Terror
DarkSide Books
2018
368

"Um jovem escritor vive em uma pacata cidade da Holanda, cercado por uma densa floresta. Os caminhos que ele precisa percorrer entre as folhas, moinhos e lagos o inspiraram a criar uma história macabra que, com sua originalidade e solidez, conseguiu tocar os corações assombrados dos mestres Stephen King, Joe Hill e George R.R. Martin. O terror holandês chega ao Brasil com Thomas Olde Heuvelt. Toda cidade pequena tem segredos. Mas nenhuma delas é como Black Spring, o pacato vilarejo que esconde uma bruxa de verdade do resto do mundo. Os moradores sabem que não se deve mexer com ela. Assim como aconteceu com as bruxas de Salem, Katherine Van Wyler foi condenada à fogueira. Mas a feiticeira sobreviveu e continua rondando a cidade, mais de trezentos anos depois. Com costuras em seus olhos e correntes nos braços, Katherine aparece nos lugares mais improváveis quando bem entende, sussurrando a morte para quem chega perto o suficiente para ouvir. Assim como a Morte Vermelha, de Edgar Allan Poe, ela enfeitiçou a alma da cidade de forma que escapar não é uma opção: quem se afasta demais tem a mente invadida por pensamentos suicidas, e muitos não retornam para contar a história. Os habitantes de Black Spring controlam os passos da bruxa 24 horas por dia através de um aplicativo de celular desenvolvido especialmente para garantir que a bruxa não seja revelada para os Forasteiros. A vigilância constante aumenta o clima de paranoia na cidade, enquanto um grupo de adolescentes desafia as regras e resolve provocar a bruxa para ver se ela é tão perigosa quanto dizem."

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Keyla Kercya

Apaixonada por fantasia,terror e quadrinhos. Tem uma crush pelo Batman, Nightwing,Bluebird e Harley Quinn. Gótica assumida que ama Unicórnios!