O mundo é uma espécie de cubo mágico embaralhado, pois não importa por qual face seja observado, dificilmente se encontrarão duas ou mais idênticas. Cada quadradinho colorido representa um tipo diferente de cultura, um povo único, com seus próprios costumes e sua maneira de levar a vida e de encarar a morte. Os quadradinhos invariavelmente se misturam, se encontram e se desencontram no baile esquisito das voltas e reviravoltas de seus eixos; são, portanto, os fluxos migrantes e o reflexo da globalização, da revolução tecnológica e informática, que nos aproximam e nos chocam corriqueiramente. Em Para toda a eternidade, Caitlin Doughty nos levará por uma volta ao mundo que discutirá como cada cultura lida com a morte e o que ela representa na contemporaneidade, tão multifacetada, para cada sociedade.

Foto por Dhiego Morais.

Para toda a eternidade não é o primeiro livro da autora publicado no Brasil. Há poucos anos, a própria Darkside Books brindou os seus leitores com outra não ficção interessantíssima e intitulada Confissões do Crematório, obra na qual a autora conta sobre diversos momentos de sua vida que culminaram no seu trabalho em um crematório, bem como as mudanças que dali se sucedeu.

Caitlin Doughty é uma especialista no que se refere ao tema morte. Não é surpresa para ninguém como esse assunto é considerado um dos grandes tabus da sociedade contemporânea, principalmente para a brasileira, que ainda lida com certa dificuldade – normalmente embebida em muito pesar, é claro – com um tópico que aflige o coração e aflora os mais dolorosos sentimentos. Infelizmente não somos ensinados a lidar com esse aspecto da vida humana: a perda. Portanto, cada vez que somos obrigados a confrontá-lo, dificilmente saímos vitoriosos.

Em Para toda a eternidade, a autora leva os seus leitores de mãos dadas por uma viagem recheada de aprendizados, a fim de nos apresentar como as diferentes culturas encaram a morte. Caitlin narra tudo de maneira bastante fluida, sob uma ótica de certo modo pessoal, narrando sem floreios as diferenças, os pontos mais interessantes, bem como pontos positivos – aspectos que seriam maravilhosos se fossem repetidos por todos –, além de pontos que no mínimo nos causam estranhamento – talvez certa aversão, vai de cada um.

Por ser um livro da não ficção, é possível que alguns leitores tenham a impressão de que o livro seja desinteressante ou que a narrativa seja truncada, complexa ou a história seja entediante. Devo dizer que isso não ocorre aqui. A autora possui uma escrita deliciosa, sabendo dosar os momentos de informação com comentários bastante descontraídos, muitas vezes engraçados, o que nos aproxima mais do que estamos lendo. É estranho pensar como ela é habilidosa em fazer-nos esquecer do tabu da morte contando justamente sobre tantas óticas culturais sobre esse mesmo tema. É claro que talvez você não se interesse sobre o assunto, mas a chave para ter certeza sobre algo é justamente encarando o desafio. A não ficção funciona da mesma forma que os outros gêneros: encontre algo que lhe chame atenção e então a leitura avançará super bem.

Para toda a eternidade traz o debate sobre como a morte é encarada em diferentes culturas. A viagem se estenderá dos Estados Unidos ao Japão, da Espanha, passando pelo México e enfim pela Bolívia. Cada lugar acompanhado por um guia nativo ou conhecedor dos bravos costumes locais. Os capítulos curtos nos fazem sentir em um verdadeiro mochilão, cujas estadias curtas promovem as mais intensas aventuras.

Foto pot Dhiego Morais

Li o livro em durante alguns dias, sem pressa alguma de acabar. E acredito que essa seja uma boa maneira de se nutrir da leitura, sem, é claro, se desgastar com o tema.

Um ponto bastante positivo nesta edição foi a presença de diversas ilustrações de Landis Blair, que enriquecem a experiência, tornando-a mais leve e, principalmente, mais clara.

Consideravelmente mais interessante e tão necessário quanto Confissões do Crematório, Para toda a eternidade é uma leitura que promete levar os seus leitores por uma viagem única e cheia de sabedoria. A morte é a nossa última parada, o ponto final em que todos um dia ou outro haverão de descer. Até lá, quanto mais pudermos aprender sobre ela, melhor será para cada um.

Para toda a eternidade Book Cover Para toda a eternidade
Caitlin Doughty
Não Ficção
Darkside Books
Junho, 2019
Físico
224

A morte é inevitável. Lembrar que um dia morreremos ainda gera desconforto em muita gente; discutir as possibilidades para a cerimônia de despedida, então, é impensável. Bem, não para Caitlin Doughty, agente funerária, criadora do grupo The Order of the Good Death e escritora publicada pela DarkSide® Books. Alguns leitores já conhecem a escrita divertida e realista de Caitlin, mas, para quem ainda não teve o prazer de ler Confissões do Crematório, a Caveira explica: ainda jovem, Caitlin conseguiu emprego em um crematório na Califórnia e aprendeu muito mais do que imaginava barbeando cadáveres e preparando corpos para a incineração. Em seu primeiro livro, ela compartilha histórias reais do dia a dia de uma casa funerária. Já Para Toda a Eternidade é o fruto de uma jornada global para conhecer o mundo de mãos dadas com a morte. Através das palavras poderosas de Caitlin Doughty e das ilustrações deslumbrantes do artista Landis Blair, vemos como outras culturas lidam com o fim da vida enquanto entendemos a nossa relação com o assunto. Na Indonésia, Caitlin observa enquanto um homem limpa e veste o corpo mumificado de seu avô, que mora na casa da família há dois anos. Em La Paz, ela conhece as ñatitas bolivianas (crânios humanos que fazem a ponte entre os mundos dos vivos e dos mortos). E em Tóquio, ela se depara com a cerimônia do kotsuage, na qual parentes utilizam palitinhos para coletar os ossos de seus entes queridos das cinzas da cremação. Narrando cada ritual de maneira respeitosa ao mesmo tempo em que insere contornos históricos e também pessoais ao texto, Caitlin investiga a história funerária no mundo, apresentando soluções inusitadas, e inicia a discussão: existe jeito certo de se despedir das pessoas que você ama? O que parece um tabu para nós pode ser transformador para quem fica. Acima de tudo, Para Toda a Eternidade é uma lição de empatia, acolhimento e solidariedade. Uma volta ao mundo de uma perspectiva inusitada ― mas enriquecedora na mesma medida. Temos muito a aprender com a morte. O livro chega aos leitores brasileiros pela coleção DarkLove, a linha especial da DarkSide® Books para autoras de vozes poderosas e leitores com corações valentes. Acredite: depois de ler Para Toda a Eternidade, você vai pensar bastante em como quer partir desta para a melhor.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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