Passos apressados em direção à porta principal. O som de clique garante que a porta foi trancada. O lápis que há poucos instantes rabiscava no diário escorrega das mãos pequeninas e cai sobre a mesa da cozinha. Dadi corre em silêncio até as crianças, pondo o dedo indicador junto à boca. Não faça barulho. Um sinal rápido apontando para a dispensa, embaixo dos armários. Em poucos segundos três formas se espremem no espaço, fechando pouco antes do estrondo da porta da sala se abrindo, do vidro de uma das janelas estourando e dos passos e vozes violentas irrompendo o interior antes seguro de seu lar. O país realmente se dividiu.

“Quando você divide as pessoas, elas escolhem lados.”

Foto de Dhiego Morais

O Diário de Nisha é mais um lançamento da Caveirinha para o selo Darklove, responsável pela publicação de histórias escritas por autoras excepcionais. Veera Hiranandani, a autora, foi criada nos Estados Unidos, filha de uma norte-americana judia e de um pai oriundo de uma família indiana e hindu. Com um berço cultural tão impressionante, Veera decidiu narrar a história fictícia baseada nas experiências reais de seu pai, tios e seus avós, que viveram um dos momentos mais difíceis de meados do século XX: a partição da Índia. Atravessar a fronteira de Mirpur Khas em busca de segurança, verdadeiramente inspirou a autora a contar a história da família de Nisha.

Nisha é uma garotinha de doze anos que vive com seu pai, um médico, seu irmão Amil, sua avó paterna – a Dadi – e com Kazi, que cozinha e realiza outras tarefas domésticas para a família. É por meio de seu diário que os leitores acompanharão os acontecimentos desenrolados a partir de 14 de julho de 1947 até meados de novembro do mesmo ano. Nisha é doce, de família abastada, e possui um temperamento fácil de lidar. Por ser bastante observadora e curiosa, pouco escapa de seus olhos e da reflexão de sua mente jovem.

Antes de ler O Diário de Nisha, admito conhecer muito pouco a respeito da história da Índia, tampouco ainda sobre a partição do país, que em 17 de agosto de 1947 se dividiu, assim como as populações religiosas de hindus, muçulmanos e sikhs, para formar a Índia, como a conhecemos e o Paquistão. Indubitavelmente um momento de muita dor para milhares de famílias.

Apesar de ser um romance epistolar, O Diário de Nisha possui uma narrativa admiravelmente fluida. Dotado de capítulos curtos, a leitura prossegue sem atravanco e em pouco tempo o leitor percebe que muito já foi lido. É bastante interessante observar pelos olhos de Nisha os momentos que antecederam a divisão da Índia, e como todo esse obstáculo político foi encarado e absorvido pela mente juvenil de nossa protagonista. Uma crise político-social e religiosa é encarada com criticidade pela mente de um adulto. Todavia, a mesma crise pode ser encarada de maneira completamente diferente pelas crianças. Ter consciência de como tudo isso é observado pelos mais jovens muda em muito a nossa visão sobre as razões e justificativas para tamanha cisão social.

Amil é irmão de Nisha e, portanto, divide uma série de cenas no romance. Praticamente ignorado pelo pai, pelos relatos de sua irmã em seu diário percebemos algo além do conflito político da Índia: os conflitos familiares, principalmente de uma família privada da figura materna e que herda um passado cultural diverso. Companheiro de Nisha, a força de ambos é o que os sustenta para encarar a tempestade que se aproxima.

“Não consegui chorar. Eu me sentia como uma folha seca esvoaçando ao vento, sem saber onde pousaria. Só assenti e flutuei para longe dele. Se me despedisse, seria um adeus de verdade, um adeus para sempre.”

Foto de Dhiego Morais

Como leitor, preciso dizer que a história de Veera Hiranandani não desce pela garganta sem dificuldade. É duro observar como a diversidade, como as diferenças podem ser gatilhos inaceitáveis para a sociedade. A crença na superioridade e o fato de não se aceitar que vivam em harmonia povos religiosos distintos é capaz de promover a ruptura de um país inteiro. A fuga, a busca pelo “seu lado”, os surtos de violência contra hindus, muçulmanos e sikhs, a incapacidade de ajudar o próximo; consequências presentes neste livro. Caminhadas em busca de segurança, de um novo lar, enfrentando a sede inclemente e a fome atroz. Não há beleza em um mundo sem esperança e em um povo em desespero.

Seguimos por 4 meses que abarcam muito além de um conflito político. Vivemos sob a pele de Nisha e de sua família um átimo de um instante doloroso e que perdura em consequência até hoje. Importantíssimo, sem dúvidas, para todos os leitores que buscam na literatura o reflexo de seus mundos e de seu próprio coração. Quando a última página se vira, saímos leitores distintos de quando começamos e carregamos conosco fragmentos do que a família de Nisha nos ensinou.

O Diário de Nisha Book Cover O Diário de Nisha
Veera Hiranandani
Drama Ficcional
Darkside Books
2019
Físico
288

Nisha não é de falar muito. Quietinha e reservada, prefere observar as pessoas ao seu redor e anotar os detalhes do cotidiano em seu diário, onde pode ser ela mesma. E ser ela mesma não é nada fácil no epicentro da Partição da Índia, que, após séculos de tensão religiosa, atinge seu ápice criando dois estados independentes do governo britânico: a Índia (maioria hindu) e o Paquistão (maioria muçulmana). Parte hindu e parte muçulmana, Nisha não sabe muito bem a qual lugar pertence, e não entende os desdobramentos políticos deste momento tão crucial da história. Por que hindus e muçulmanos estão brigando tanto entre si? Por que milhares de pessoas precisam abandonar seus lares? E por que tantas acabam morrendo ao atravessar as fronteiras? Com as tensões criadas pela separação, o pai de Nisha decide que é perigoso demais para eles permanecerem no lugar que, agora, se tornou o Paquistão. É neste cenário turbulento que Nisha e sua família ― o irmão Amil, a avó e o pai ― embarcam no primeiro trem, rumo a um novo lar. A DarkSide® Books apresenta O Diário de Nisha, novo lançamento da linha DarkLove que vai arrebatar seu coração com a árdua e arriscada jornada de uma esperançosa menina em busca de um lar. Endereçando cada relato do diário para a finada mãe, ela registra sua vida com ricos detalhes ao longo do ano de 1947 ― os momentos bons em que prepara pratos deliciosos com Kazi, cozinheiro da família, e os ruins em que o mundo se mostra cruel e nada mais parece fazer sentido. Com ternura e esmero, Veera Hiranandani transmite os conflitos internos de Nisha e retrata a dura realidade provocada pela Partição, que movimentou mais de catorze milhões de pessoas pelas fronteiras e matou pelo menos um milhão durante a travessia. O impressionante recorte histórico é inspirado na trajetória de sua própria família, que precisou atravessar a fronteira de Mirpur Khas para Jodhpur exatamente como a pequena Nisha faz neste livro. Seus pais e avós tiveram de recomeçar em um lugar estranho como uma família de refugiados ― história que, tantos anos depois, tristemente ressoa com a realidade de muitas famílias que sofrem com a Guerra da Síria. Vencedor do Newbery Honor Award 2019, Walter Dean Myers Honor Award 2019 e Malka Penn Award para Direitos Humanos em Literatura Infantil em 2018, O Diário de Nisha é a história perfeita para todos os leitores que se emocionaram com a pequena Ada em A Guerra que Salvou a Minha Vida e A Guerra que me Ensinou a Viver, e também com os relatos verdadeiros em Refugiados: A Última Fronteira e O Diário de Myriam. Assim como os livros mais tocantes da linha DarkLove, que publica poderosas vozes femininas contemporâneas, O Diário de Nisha aquece o coração do leitor com uma história tão bela e sensível que é um verdadeiro tesouro. Através da busca de Nisha por identidade, aprendemos a exercer a empatia e a lutar por um futuro mais tolerante e pacífico. E vemos que reconstruir a vida nunca é fácil, mas fica um tantinho melhor se for ao lado das pessoas que mais amamos.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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