Para H. P. Lovecraft, com todos os meus sentimentos conflitantes. Não há definição mais precisa sobre a sensação de se ler A Balada do Black Tom que a dedicatória de Victor Lavalle, uma espécie de tributo e crítica singularmente pessoal, de um autor premiado e representativo, mas que invariavelmente define o coração de muitos leitores do mestre do Horror Cósmico.

“Algumas pessoas sabem de coisas sobre o universo que ninguém deveria saber, e podem fazer coisas que ninguém deveria ser capaz de fazer.”

Foto por @odhiegomorais

Em A Balada do Black Tom, história premiada com o Shirley Jackson Award e British Fantasy Award — além de ser finalista do Locus Award, Nebula Award, Hugo Award, World Fantasy Award e Bram Stoker Award —, Lavalle reconstrói um dos contos mais polêmicos de H. P. Lovecraft, por suas doses excessivas e nauseantes de racismo e xenofobia: O Horror em Red Hook.

Black Tom é na verdade Charles Thomas Tester, um jovem de vinte anos, negro e residente de um apartamento pequeno nas cercanias do Harlem. Em uma luta constante para trazer comida e manter um teto sob sua cabeça e a de seu pai, Otis, um homem já moribundo e que perdera a esposa, Tommy aceita fazer os mais variados trambiques entre o Harlem e Red Hook. Embora o pai tenha tido o dom para a música e o filho se esforce para o mesmo, muitas vezes o estojo do violão, em suas saídas a trabalho permanece vazio. Junto de um terno puído, o estojo é o disfarce ideal para permanecer invisível em meio às pessoas na rua; sua capa de invisibilidade, frente à maldição de sua pele, como sente que o veem.

Em uma de suas incursões, entre sociedades estranhas, Tom deve entregar um livro oculto a uma velha decrépita — talvez uma velha feiticeira —, no Queens. Muito pouco se sabe sobre a velha e sobre o livro desejado, mas o pagamento é bom. Envolto em uma aura de mistério e terror tão conhecidos do horror cósmico de Lovecraft. Victor Lavalle impregna seu livro com as características adoradas pelos fãs do pai dos mitos ancestrais, sem a cadência adjetivada, mas sim dosada de diálogos bastante fluídos.

Em pouco tempo nosso protagonista conhece a figura do excêntrico Robert Suydam, um homem cuja predileção pelo oculto e pelo povo imigrante é tão expressiva quanto sua riqueza. O Universo reservou eventos excepcionais para os dois personagens, tendo Red Hook como palco principal.

O que Victor Lavalle se propõe e efetivamente faz em A Balada do Black Tom é um verdadeiro tiro duplo em Lovecraft. Ao mudar o protagonismo de seu conto original e cedê-lo a Charles Thomas Tester, um negro, o autor americano expurga a natureza de toda a decrepitude, de todos os males que outrora Lovecraft centralizou nos negros e imigrantes de sua época, sem, é claro, isentar a obra do tema do racismo estrutural dos anos 20, no século XX; além de realizar certo tributo ao legado de um dos autores que até hoje influenciam as histórias de terror e horror sobrenatural.

Sem querer se estender em demasia, é válido comentar mais um pouco sobre as portas que Lavalle abre para discussão com essa releitura de um clássico cósmico. Não é de hoje que se sabe sobre a mente racista e preconceituosa de H. P. Lovecraft, o senhor de Providence. Em muitos de seus escritos tudo isso se manifesta claramente, com descrições afrontosas e generalizações entristecedoras. Entretanto, também é notória a importância de sua vasta produção, da qualidade da mesma, oriunda de uma mente criativamente à frente de seu tempo. E é justamente essa dubiedade, esses dois lados de uma mesma moeda que dividem os sentimentos de uma legião de fãs. Tendo vivido em uma época em que todo esse horror era de certa forma naturalizado, há quem releve Lovecraft, ainda que o grande mestre tenha sido contemporâneo de outros grandes escritores que não teciam tantas opiniões vergonhosas. Lavalle só refletiu sobre isso após a infância, e, guiado por esse instinto de reconstrução, gestou A Balada do Black Tom.

“Ninguém jamais se vê como vilão, não é? Mesmo os monstros têm a si próprios em alta conta”.

Foto por @odhiegomorais

Com uma narrativa inteligente, uma trama que enlaça o leitor, personagens instigantes e um final reflexivo e não menos impressionante, A Balada de Black Tom transforma em livro a necessidade dos corações mais divididos do público de Lovecraft, sem manchar seu nome ou retirar sua inquestionável importância para a literatura de horror.

Aos leitores mais curiosos, a editora Morro Branco incluiu no material a tradução do conto original, Horror em Red Hook, para que fique à decisão dos de primeira viagem, a qualidade do trabalho de Victor Lavalle.

A Balada do Black Tom Book Cover A Balada do Black Tom
Victor Lavalle
Fantasia
Editora Morro Branco
24.07.2018
Físico
160

"Um tributo e uma crítica a Lovecraft" - NPR As pessoas se mudam para Nova York em busca de magia e nada vai convencê-las que ela não está lá. Charles Thomas Tester luta para colocar comida na mesa e manter um teto sobre a cabeça de seu pai, aceitando fazer trambiques e trabalhos obscuros do Harlem a Red Hook. Ele sabe bem o tipo de magia que um terno pode proporcionar, a invisibilidade que um estojo de guitarra lhe oferece e a maldição escrita em sua pele, atraindo os olhares atentos de ricas pessoas brancas e seus policiais. Mas quando faz a entrega de um livro oculto a uma feiticeira reclusa no coração do Queens, Tom abre uma porta para um domínio mais profundo de magia – despertando a atenção de seres que deveriam permanecer adormecidos. Uma tempestade que pode engolir o mundo está se formando no Brooklyn. Será que Black Tom irá viver para vê-la se dissipar?

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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