Os dias eram longos em Cold Mountain, mas todos por ali já estavam acostumados a isso. O Bloco E permanecia envolto em uma penumbra etérea, com a sua meia dúzia de celas de metal frio imersas em profundo silêncio. Sensitivamente, existe um leque profano de almas manchadas de sangue, de passados calados, outrora gritantes, jazendo em cada pequeno espaço, feitos de intensos pecados. O Corredor Verde se estende; há certo magnetismo que guia cada um dos moribundos diretamente para a Velha Fagulha. É lá, justamente lá, onde as lágrimas já secaram e o medo derradeiro da morte estende-se feito uma manta, preservando a tribuna para a sentença final. Segunda Etapa.

     Stephen King é notoriamente um dos autores mais prolíficos de suspense e terror da atualidade. Com mais de 50 títulos, que variam de romances a antologias, além de livros de não ficção e adaptações para histórias em quadrinhos (como é o caso de Creepshow), é intrigante tentar assimilar de onde e como surge essa profusão de ideias variadas para a composição de suas obras.

     “O mundo gira, é só isso. Você pode se segurar e girar com ele, ou se levantar para reclamar e ser lançado para fora”.

À Espera de Um Milagre – Stephen King (foto autoral).

     Embora seja alvo constante dos críticos literários (dos quais King costuma brincar com bastante humor), alguns livros do autor conseguem estabelecer a proeza de agradar não apenas o seu público tão fiel, mas também os especialistas. IT: a Coisa, A Dança da Morte e Novembro de 63 são bons exemplos desse caso, além, é claro, de seu último lançamento, Outsider. No entanto, outro livro também adorna essa categoria rara entre o acervo de Stephen King, e esse livro é justamente À Espera de um Milagre, cujo filme homônimo também arrancou uma série de elogios de crítica e público (nomeado ainda em 4 categorias do Oscar e com 8,5 de nota em cerca de um milhão de avaliações no IMDB).

     Diferentemente da maioria de seus romances, em À Espera de um Milagre, Stephen King apresenta aos seus leitores a história de Cold Mountain, uma penitenciária estadual, em um drama belamente escrito, onde a figura da Velha Fagulha, a cadeira elétrica, permanece sombriamente em seu papel coadjuvante, porém, de certa maneira indiretamente onipresente; cujo superintendente atendia pelo nome de Paul Edgecombe.

     O Ano da nossa história é 1932, quando tudo realmente se transforma na penitenciária com a chegada de um novo detento, desta vez, John Coffey, um gigante de quase dois metros. Embora projete uma sombra intimidadora, Coffey acolhe a sua cela e a sua situação com olhos constantemente umedecidos pelo jorro incessante de suas lágrimas. Aparentemente, Coffey parece remoer dentro de si um intenso pesar e tristeza pelo crime que é acusado: o estupro e assassinato de duas gêmeas de nove anos.

     O crime hediondo recai sobre os ombros de Coffey por dois motivos principais: o primeiro, por ter sido flagrado no campo com as gêmeas já violadas, nuas e mortas alinhadas em cada braço, enquanto emitia um grito lamuriento misto de dor, pesar e arrependimento. O segundo, um motivo circunstanciado basicamente por ser negro, em um EUA de 1932, quando a segregação racial mantinha a força, principalmente nos estados do sul.

     A cena em que John Coffey é encontrado pelos policiais e pelo pai das gêmeas transita entre o triste e o intrigante. Coffey parece viver em um estado catatônico, ou talvez em uma bolha que retém suas memórias e parte do seu senso cognitivo. Ainda que essa impressão ressoe, o grandalhão é dotado de uma delicadeza, de uma educação pouco usual no Corredor Verde de Cold Mountain, onde o destino final levava à Velha Fagulha. É como se a sua aura fulgurasse em meio a toda a escuridão sangrenta do Bloco E. E é esse sintoma, a princípio que chama a atenção de Paul Edgecombe.

     “Chefe, estou muito cansado da dor que escuto e que sinto. Estou cansado de andar vagando, sozinho como um pardal na chuva. Sem nunca ter nenhum companheiro para ir junto comigo nem para dizer de onde nós estamos vindo nem pra onde vai nem por quê. Estou cansado das pessoas serem más umas com as outras. Sinto como se tivesse cacos de vidro dentro da cabeça. Estou cansado de todas as vezes que tentei ajudar e não pude. Estou cansado de ficar no escuro. Mais que tudo é a dor. Tem demais. Se eu pudesse acabar com ela, acabava. Mas não posso”.

Coffey – painting by Ray Dillon

     Narrado por meio das lembranças do superintendente, À Espera de um Milagre veleja entre o passado de Paul, quando ainda trabalhava em Cold Mountain e sofria de uma terrível infecção urinária, e o presente, no asilo para idosos de Georgia Pines. Paul Edgecombe ascende com uma personagem dotada de bastante carisma, que rompe com os estereótipos de que todo agente penitenciário é durão e isento de qualquer sentimento. Paul é um homem como qualquer outro homem decente; em suas preocupações em trazer paz e humanidade para os instantes finais dos condenados, o leitor é capaz de vivenciar a realidade daqueles que operam a máquina penitenciária mortal e daqueles que aguardam o suspiro final.

     Como parte de suas obras, aqui também existe uma dose especial do sobrenatural. Entretanto, é válido acrescentar que é um fator de complemento, que não suplanta a intenção real do romance: o drama de John Coffey.

     À Espera de um Milagre possui todo o requinte e a força da escrita do King das décadas de 1970 e 1980, com a ressalva de possuir enxertada toda a maturidade adquirida pelos sucessos anteriores. Afirmando-se como um poderoso drama, o autor resgata uma série de discussões valiosas a respeito de ser e estar apto para decidir quando alguém deve viver ou morrer, bem como de como são conduzidos os julgamentos dos crimes (a competência para garantir se o réu é ou não é efetivamente culpado, tendo o risco de sentenciar outrem indevidamente, por exemplo). As questões de justiça e injustiça, inocência e culpa são pontos retratados também.

     Talvez algumas pessoas enquanto leem este livro se recordem de outra obra do autor, ambientada também em uma prisão: Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank, novela presente na antologia As Quatro Estações. Para aqueles que sentiram um aperto no coração por esse conto, resta À Espera de um Milagre o desfalecimento final. Preparem os lenços.

     Outro caso que pode vir à cabeça de algumas pessoas (e para aquelas que desconhecem fica a recomendação), é o da série televisiva transmitida pela HBO, The Night of, cujo contexto crime-condenação gira em torno da urgência do réu em provar-se inocente, enquanto resgata as últimas memórias.

     “Cada um de nós tem compromisso com a morte, não há exceções, sei disso, mas às vezes, oh meu Deus, o Corredor Verde é muito comprido”.

     Definitivamente, À Espera de um Milagre entra para o rol de melhores obras de Stephen King, não somente por reunir personagens absurdamente marcantes, como Coffey, ou surpreendentemente humanizados, como Sr. Guizos e Delacroix, ou ainda tão acalentadores quanto Edgecombe, situados em um cenário de condições adversas; mas também por ser capaz de estimular o pensamento sobre o nosso compromisso, como seres humanos, com a vida e com seu limite, a morte.

À Espera de Um Milagre
Stephen King
Drama Ficcional
Suma
02/05/2013
Físico
400

Bem-vindos à Penitenciária Cold Mountain, lar de um grupo de assassinos que esperam sua vez de andar pelo corredor da morte rumo à cadeira elétrica. Ambientado nos anos 1930, durante a Depressão da economia americana, em um cenário de desespero, À espera de um milagre traz a história do condenado John Coffrey e sua relação com o guarda penitenciário Paul Edgecombe. Edgecombe já viu muitas coisas bizarras durante a carreira, mas John Coffrey – um gigante com mente de criança – é uma das figuras mais estranhas que já conheceu. Acusado de estuprar e matar brutalmente duas garotas, seria o homem a encarnação do mal? Ou algo completamente diferente? O guarda está prestes a descobrir verdades terríveis e assombrosas que desafiarão todas as suas crenças. Originalmente publicado em seis partes, com o título de O corredor da morte, o romance é agora lançado em volume único À espera de um milagre. Nas telas, o diretor Frank Darabont recriou a história magistral de King, com Tom Hanks interpretando o guarda Edgecombe.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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