As fiandeiras parecem tecer um padrão intrincado, de forma geométrica indefinida, usando como fios o mais nobre deles, chamado destino. É com esse fio intangível que cada uma delas tece sem descanso, costurando uma vida com a outra, sem perguntar, sem analisar, apenas tecendo. Tecendo e tapando buracos no caminho. Apenas uma vez, entre infindáveis vezes, a o tecido das vidas se dobra junto a outro e, como se esperaria, é costurado feito um montinho pelo mesmo fio do destino, compondo-se, então, uma dobra na trama do tempo.

Para os leitores que se deliciaram com A Viajante do Tempo, primeiro volume da ambiciosa série de Diana Gabaldon, e ficaram curiosos pelo rumo da história de Claire e Jamie, posso adiantar que o fio que interligou o destino dessas duas figuras de épocas tão distintas ainda se mantém firme.

“Quem éramos nós para alterar o curso da história, para mudar o curso dos acontecimentos, não para nós mesmos, mas para príncipes e camponeses, para toda a nação escocesa?”

Foto por @odhiegomorais

Em A Libélula no Âmbar, Diana Gabaldon conduz os seus leitores novamente para o século XX, dessa vez para alguns anos no futuro, em 1968, onde encontramos uma Claire mais velha, mais polida e viúva de Frank Randall. Não obstante, Claire se apresenta como mãe de Brianna, uma jovem de personalidade selvagem como o próprio fogo. Em uma viagem às suas origens — se assim podemos dizer —, Claire retorna a Inverness, quando planeja revolver as cinzas de um passado incomum e doloroso, mas que se interliga a muito do que há ali — e do que carrega consigo. O contato com Roger MacKenzie promete trazer revelações dotadas de muita história.

Neste segundo volume, Diana opta por um estilo narrativo interessante e que funciona bem, ao guiar os leitores para o final do próprio livro — ao menos ao final de uma linha temporal —, quando acompanhamos a busca de Claire por respostas, bem como a sua luta interna na decisão de revelar um passado literalmente fantástico, possivelmente incompreensível para a maioria. Num primeiro arco temos Claire em 1968, e, em seguida temos o retorno ao século XVIII, quando mergulhamos nos eventos, estes sim, seguintes ao desfecho do primeiro livro. Por sim, no último arco há o retorno ao presente, quando a história até então é finalmente contada, cruzando-se com o tempo atual, bem como quando mais um caminho é traçado, e passamos a acompanhar mais uma vez cada um dos passos de nossos protagonistas.

Para os leitores que haviam se apaixonado pela Escócia selvagem, de paisagens exuberantes, na sequência da série Outlander, somos levados de navio diretamente para o coração da França, para uma Paris aristocrática, de monumentos fantásticos, de moda deslumbrante, odores e justeza conflitantes. O ar fresco das Terras Altas escocesas é substituído — pelo menos em parte — pelo ar provinciano francês. É bem possível que isso cause certa estranheza ou até desagrade alguns leitores, porventura já cansados da prolixidade que este volume vem a ter. Se até Jamie Fraser se sentiu deslocado na França, saudoso da Escócia, por que você também não pode se sentir assim, não é mesmo?

A Libélula no Âmbar é um livro bastante dividido, seja entre momentos temporais, seja em sua ambientação, que transita entre a Escócia e a França. Entretanto, algo que não se pode negar é a habilidade fora do comum de Diana Gabaldon em produzir verdadeiros quadros realísticos de seus cenários, dotados, claro, de personagens bem compostos, cheios de camadas que lhes atribuem toda a complexidade e desenvolvimento esperados em um romance acima das expectativas. Exímia pesquisadora, as informações históricas e seu conhecimento biológico e medicinal é brilhantemente incorporado em sua narrativa, como poucos autores conseguem fazer sem quebrar o ritmo ou torná-la desnecessária.

Embora não seja tão dinâmico quanto seu predecessor, A Libélula no Âmbar entrega um prato cheio de reviravoltas, intrigas políticas internacionais pelo poder e pela coroa — afinal, Charles Stuart ainda deseja tomar o poder na Escócia e na Inglaterra —, envenenamentos, misticismo confrontos e batalhas, claro, principalmente em solo escocês. Agora, os leitores podem acompanhar de perto Claire e Jamie conspirando para evitar a Revolução de 45, um prenúncio terrível para os clãs. Fica então o questionamento sobre até onde ousaríamos ir, tendo conhecimento do passado e movidos pelo coração, para alterar os rumos da própria história.

“Deixe que eu lhe diga em seu sono o quanto eu a amo. Porque as palavras que lhe digo enquanto está acordada, são sempre as mesmas, não são suficientes. Enquanto você dormir em meus braços, posso dizer-lhe coisas que soariam tolas e loucas, e seus sonhos entenderão a verdade delas. Volte a dormir, mo duine.”

Cena da Season 2 de Outlander

Assim como em A Viajante do Tempo, parte da trama gira em torno do relacionamento entre Claire e Jamie, principalmente após os dolorosos eventos finais do último volume. Diana Gabaldon consegue trabalhar esses conflitos com maestria nas quase mil páginas deste livro. Antes que qualquer pessoa reduza Outlander a apenas mais um livro de amor, um romance de época, é válido alertar que a série escrita por Diana transita em mais de um eixo literário, cruzando a ficção histórica, o romance romântico e a própria fantasia ou ficção científica — em sua base histórica, misticismos e viagens no tempo. Embora haja o foco no relacionamento ímpar de nossos protagonistas, é importante dizer que o que movimenta toda a engrenagem de Outlander é o contexto histórico e as personagens fascinantes.

Mesmo que seja mais lento que o primeiro volume, a autora consegue expandir os horizontes da série nesta sequência, desenvolvendo com mais calma as personagens, enquanto desenrola as demais intrigas que virão a compor as continuações. Ainda que a série televisiva adapte parcialmente o livro, com suas modificações, funciona como um bom complemento para se preparar para o terceiro livro, que promete muitas novidades.

A Libélula no Âmbar Book Cover A Libélula no Âmbar
Outlander #2
Diana Gabaldon
Romance
Saída de Emergência Brasil - Editora Arqueiro
07.09.2014
Físico
944

Claire Randall guardou um segredo por vinte anos. Ao voltar para as majestosas Terras Altas da Escócia, envoltas em brumas e mistério, está disposta a revelar à sua filha Brianna a surpreendente história do seu nascimento. É chegada a hora de contar a verdade sobre um antigo círculo de pedras, sobre um amor que transcende as fronteiras do tempo... e sobre o guerreiro escocês que a levou da segurança do século XX para os perigos do século XVIII.

O legado de sangue e desejo que envolve Brianna finalmente vem à tona quando Claire relembra a sua jornada em uma corte parisiense cheia de intrigas e conflitos, correndo contra o tempo para evitar o destino trágico da revolta dos escoceses. Com tudo o que conhece sobre o futuro, será que ela conseguirá salvar a vida de James Fraser e da criança que carrega no ventre?

Facebook Comments

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

About The Author

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

Related Posts