O farfalhar de um pesado e belo manto é ouvido nos limites de uma rua escurecida. Não há impedimento, não há escapatória, nem muito menos oração. O mundo avançou há muito, a morte natural foi vencida, mas a Ceifa e seus acólitos decidem o momento em que uma vida deve ser interrompida – definitivamente. O ato da coleta não deveria ser inebriante, mas naquele instante era muito mais do que isso: era corrupção. Uma vida extraída sem justiça; o som de um segundo farfalhar, desta vez de um manto proibido, um manto preto. Quem imaginaria que um Ceifador, em sua imponência e honra seria então coletado pela figura de outro, um justiceiro?

Assim como durante a leitura de O Ceifador, primeiro volume da série YA premiada de Neal Shusterman, li A Nuvem como proposta de Leitura Conjunta organizada pelo canal O Navegando, no YouTube. E, como esperado, se provou mais uma leitura agradável e de escrita bastante fluida.

Após um final no mínimo interessante em seu primeiro livro, Shusterman aproveita para trabalhar melhor suas personagens, enquanto desenvolve agilmente sua trama, agora, com um enfoque diferente e ainda mais inteligente.

“Temos que coletar com sabedoria e compaixão, pois esse é o cerne do que fazemos, e nunca devemos desvalorizar o ato de tirar uma vida. É um fardo, não um deleite. Um privilégio, não um passatempo.”

Fonte no link.

Recapitulando a história, terminamos O Ceifador com a descoberta de que o honorável ceifador Faraday se encontrava supreendentemente vivo, tendo orquestrado sua morte a fim de que conseguisse por meio dela a liberdade, conforme os termos da lei da Ceifa, de seus dois aprendizes, Rowan e Citra. Entretanto, tendo Goddard e Curie aceitado treiná-los, respectivamente, a prova final em que os jovens aprendizes deveriam se enfrentar até a morte permaneceu em pé. Citra se consagrou vencedora, sendo, portanto a mais nova ceifadora Anastássia, cujo primeiro ato é “acidentalmente” conceder imunidade de coleta por um ano a Rowan.

Com Goddard morto, a Ceifa, uma das maiores estruturas do poder mundial parece se dividir em duas facções, tidas como a Velha Ordem e a Nova Ordem, basicamente, em que a primeira preza pela justiça, seriedade e compaixão no ato das coletas, enquanto a segunda vê com deleite o ato de extrair uma vida, caçoando dos velhos costumes e pregando a liberdade de coleta, sem restrições, padrões, igualdade ou penas.

A influência que a jovem ceifadora Anastássia tem sobre os ceifadores mais novos, bem como seu estilo de coleta são vistos pelos mais antigos como uma ameaça. Em pouco tempo o perigo cerca as figuras de Anastássia e da Dama da Morte, acelerando ainda mais a trama do segundo volume da série.

Se por um lado senti dificuldade em estreitar laços com as personagens de Shusterman em seu livro inicial, nesta sequência é possível notar um maior cuidado em trabalhar melhor as personagens até então apresentadas, permitindo que o leitor sinta maior empatia pelas figuras centrais, como Anastássia, Rowan e Curie. Todavia, é justamente outra personagem que rouba inúmeras cenas do romance fantástico: a Nuvem, a Nimbo-Cúmulo.

Assim como ocorre em O Ceifador, os capítulos sempre iniciam com algum trecho de diário. A novidade nessa trama se encontra no fato de que grande parte desses trechos pertence à mente nebulosa da Nuvem, o organismo sintético avançado responsável por gerir toda a humanidade. Se por um lado o leitor possa ter se sentido confuso ou frustrado por compreender tão pouco a Nimbo-Cúmulo, agora é possível analisar suas motivações, suas reflexões acerca da espécie humana e sobre sua sabedoria, bem como suas próprias frustrações frente ao que não lhe é permitido interferir.

Outra personagem que é habilidosamente desenvolvida é a figura da Honorável Ceifadora Marie Curie, a Dama da Morte, segunda mentora de Citra (ou Anastássia). Pouco a pouco o leitor imerge na história e na filosofia de Curie.

Considerado um foragido pela Ceifa, Rowan veste outra identidade e começa a trabalhar seguindo seus próprios preceitos, agindo sobre a única entidade que não está sob a jurisdição da Nuvem: a própria Ceifa. E é justamente neste ponto que Shusterman convida os seus leitores a analisar com maior atenção como uma sociedade que venceu a morte natural, a miséria, as doenças e a injustiça pode ainda tolerar o desequilíbrio, a corrupção e a ruptura daqueles que são responsáveis pela instituição da morte final entre os humanos.

Em A Nuvem o leitor também se inteirará sobre as outras camadas da sociedade perfeita, entre elas as dos tonistas e dos infratores. Ao primeiro grupo reside os resquícios da fé, os traços de uma diversidade de religiões da Era da Mortalidade, fundidas sob a máscara da Grande Ressonância. Já os infratores são o espelho de todas as incongruências, da criminalidade e da irresponsabilidade de um passado em que a morte não era regida pela Ceifa e em que o governo não era investido pela artificialidade da Nimbo-Cúmulo.

“Em um mundo em que todos recebiam tudo de que precisavam, nem todos tinham aquilo que queriam.”

Fonte no link.

Se por um lado há um notável desenvolvimento da trama e das personagens neste livro, ainda senti certa dificuldade de me conectar com a história, que demora um pouquinho para realmente crescer. Embora seja um livro bom, só me peguei realmente ligado aos últimos 25%, quando tudo dá um salto enorme, com a mudança de cenário e a apresentação da estrutura de poder da Ceifa. A partir daí é quase impossível largar a história, que se encerra de maneira fenomenal e surpreendente, com cenas dignas de serem vistas nas telas de cinema.

A Nuvem se prova como uma sequência ainda melhor, com diálogos mais bem trabalhados, personagens melhor conduzidos e com a abertura de uma trama que promete chocar seus leitores.

Seria a imortalidade o maior dos perigos para a humanidade?

A Nuvem Book Cover A Nuvem
Scythe #2
Neal Shusterman
Ficção
Seguinte
25.05.2018
496

No segundo volume da série Scythe, a Ceifa está mais corrompida do que nunca, e cabe a Citra e Rowan descobrir como impedir que os ceifadores que não seguem os mandamentos da instituição acabem com o futuro da humanidade.

 

Em um mundo perfeito em que a humanidade venceu a morte, tudo é regulado pela incorruptível Nimbo-Cúmulo, uma evolução da nuvem de dados. Mas a perfeição não se aplica aos ceifadores, os humanos responsáveis por controlar o crescimento populacional. Quem é morto por eles não pode ser revivido, e seus critérios para matar parecem cada vez mais imorais. Até a chegada do ceifador Lúcifer, que promete eliminar todos os que não seguem os mandamentos da Ceifa. E como a Nimbo-Cúmulo não pode interferir nas questões dos ceifadores, resta a ela observar.
Enquanto isso, Citra e Rowan também estão preocupados com o destino da Ceifa. Um ano depois de terem sido escolhidos como aprendizes, os dois acreditam que podem melhorar a instituição de maneiras diferentes. Citra pretende inspirar jovens ceifadores ao matar com compaixão e piedade, enquanto Rowan assume uma nova identidade e passa a investigar ceifadores corruptos. Mas talvez as mudanças da Ceifa dependam mais da Nimbo-Cúmulo do que deles. Será que a nuvem irá quebrar suas regras e intervir, ou apenas verá seu mundo perfeito desmoronar?

Facebook Comments

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

About The Author

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

Related Posts