Talvez, em algum momento da sua vida como leitor, por mais extensa ou por mais curta que a sua trajetória seja, você já tenha se perguntado por que você lê, ou ainda, por que continua lendo. A vida é diversa para cada indivíduo, e certamente apresenta um leque gigantesco de características, de ações e de percepções que compõem a nossa rotina. Podem ser frações de segundos, quando a visão perde foco e divagamos, quando vem a incerteza de se estamos fazendo o melhor com o nosso tempo, se escolhemos o título certo, o momento certo… Por que continuamos lendo?

A verdade é que, inconscientemente ou não, buscamos um escapismo, um pouco de conforto na forma de canapés com sabor de conforto; uma dose com a torneira despreocupadamente aberta de ficção, que sacie a ansiedade e a sede de um dia exaustivamente longo; um bilhete de viagem exclusivo, que te guie a sua cabine de trem sem sair da sua poltrona, de sua cama. A verdade é que não lemos mecanicamente, mas lemos, em suma, por um objetivo em comum: por mudança. As palavras nos guiam, os livros nos transformam. Independentemente do que desejamos, persistimos lendo porque a leitura é a catálise da alma, e, por meio dela, nos tornamos fruto de uma contínua e intensa transformação.

É quando encontramos um livro que aborda a mudança como o instrumento de seu enredo, trazendo à tona uma série de reflexões sem a necessidade de focar em momentos de ação inconsequente, que entendemos o motivo que nos faz continuar trilhando o caminho como leitores. A Parábola do Semeador é exemplo disso.

“Para ressurgir das próprias cinzas, uma fênix deve primeiro queimar.”

Foto por @odhiegomorais

Em seu segundo romance traduzido para o Brasil e lançado em 2018 pela editora Morro Branco, A Parábola do Semeador, desta vez sob a forma de uma duologia, Sementes da Terra, Octavia Butler entrega aos seus leitores uma distopia assustadoramente crível, onde o mundo enfrenta uma crise profunda de dimensões políticas, econômicas e ambientais.

O ano é 2024 e Lauren Olamina é a nossa protagonista. Filha de um líder religioso, a jovem vive em uma espécie de bairro ou vila murada. Com o mundo ruindo socialmente em um ritmo imprevisível, os muros acabam por trazer uma sensação de falsa segurança – e Lauren parece ser a única a ter certeza disso.

Embora ainda haja certo tipo de governabilidade nos Estados Unidos, ela é frágil, deturpada e nitidamente despreocupada com os níveis mais baixos da sociedade, que vivem um processo de retrocesso à selvageria das relações interpessoais e de estabelecimento da segregação étnico-racial. Os serviços públicos já não existem como antes, tornados privados. Logo, a necessidade latente do policiamento e dos bombeiros, por exemplo, acompanham a cobrança de taxas absurdas e de abusos de frequentes abusos de poder. Os alimentos subiram a preços estratosféricos – e não há indícios de que vão despencar tão cedo –, assim como a água, que se tornou artigo de luxo. Empregos pagam misérias, e ainda menos para aqueles que não possuem formação acadêmica; trabalhos que, em sua maioria envolver ter que sair dos muros e enfrentar os perigos externos. Habitação é outro problema, já que nem todos têm mais condições de manter uma, com as altas taxas, sendo comum que ou vivam como andarilhos, ou que estabeleçam “puxadinhos”, na medida em que novas famílias se formem pelos casamentos, quando um cômodo ou outro era cedido ao casal por um dos sogros e sogras.

Apesar de Lauren ser criada em um seio bastante religioso, ela não acredita muito em tudo o que escuta o seu pai pregar. É essa descrença, nascida por acreditar que a fé exacerbada somente conduz à cegueira daquele que escuta a palavra, é o combustível que alimenta a mente da jovem para uma série de reflexões sobre a vida e o mundo, alguns desses pensamentos, inclusive, compartilhados com quem lhe é próxima.

“Se a síndrome da hiperempatia fosse algo mais comum, as pessoas não fariam essas coisas. Elas poderiam matar, se fosse preciso, e aguentariam a dor disso ou seriam destruídas por ela. Mas se todos pudessem sentir a dor um do outro, quem torturaria? Quem causaria qualquer dor desnecessária a alguém?”

A Parábola do Semeador não é uma história cheia de ação, ou algo sobre o caos borbulhante comum às distopias. Não, Octavia faz deste romance uma história sobre a trajetória de Lauren Olamina, um retrospecto de sua vida e de suas reflexões, postas em forma de diário, em uma clara necessidade de provocar a mudança dentro de uma sociedade adoecida.

O sentimento de segurança não tarda a desmoronar em uma noite de fogo, sangue e dor. Lauren possui uma condição especial denominada síndrome da hiperempatia, fato que a põe em um nível de risco ao ser capaz de sentir a dor alheia. Basta um toque, ou simplesmente a visão ou a escuta dos gritos, dos golpes, e tudo pode enturvecer em questão de segundos.

Octavia leva os seus leitores a investigar a trajetória de Lauren, em seu descobrimento da realidade a que o mundo veio a se dobrar. O caos político, econômico e ambiental é intenso, e a sociedade ruiu vertiginosamente frente ao despreparo, ao comodismo, à corrupção e à antipatia. Sob os olhos da jovem, a autora apresenta uma visão afrofuturista assustadora, de um mundo que cedeu à segregação étnico-racial, ao furto descarado, aos estupros e à violência contra as mulheres e, até mesmo, ao canibalismo e necrofagia.

“Tudo o que você toca, você muda. Tudo o que você muda, muda você. A única verdade perene é a Mudança.”

Foto por Patti Perret.

Sob outro aspecto, é interessantíssimo acompanhar ainda o nascimento de uma nova fé, de uma nova forma de compreender o oculto. Lauren Olamina não acredita em tudo o que ouviu o pai pregar – ainda que respeite –, mas entende a necessidade das pessoas de terem fé em algo maior, em algo que movimente as engrenagens da sociedade de maneira saudável. Esse instrumento para a jovem é a Mudança. Com isso, Octavia Butler fomenta o debate acerca das diferentes crenças e do respeito à diversidade. Em tempo: a edição nacional conta com uma conversa com a autora e questões para debate, no final do livro.

Tão forte quanto Kindred, A Parábola do Semeador é a prova de que se é capaz de produzir uma ficção assustadoramente aplicável a nossa realidade, aos caminhos que o nosso futuro dá pistas de tomar. Com uma narrativa plenamente satisfatória e uma protagonista representativa consciente da realidade que a cerca, Octavia demonstra o porquê de ter se tornado uma dama da ficção científica.

A Parábola do Semeador Book Cover A Parábola do Semeador
Semente da Terra #1
Octavia E. Butler
Ficção Científica
Editora Morro Branco
25.06.2018
416

Quando uma crise ambiental e econômica leva ao caos social, nem mesmo as cidades muradas estão seguras. Em uma noite de fogo e morte, Lauren Olamina, a jovem filha de um pastor, perde sua família, seu lar e se aventura pelas terras americanas desprotegidas. Mas o que começa como uma fuga pela sobrevivência acaba levando a algo muito maior: uma visão estonteante do destino humano. E ao nascimento de uma nova fé.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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