O vento árido do deserto sopra o perfume de mudança. Escondida entre as dunas sempre irreconhecíveis da planície ressecada se destaca Miraji. Em suas vilas, a população já sabe o que deve fazer, e como deve fazer para sobreviver sob o constante calor. Mas é em Tiroteio, bem nesse local que o destino movimenta suas peças em mais um jogo alarmante. As areias de Miraji se misturarão aos resquícios da pólvora. Um disparo. E foi certeiro.

O ano de 2019 começa mais devagar que 2018, pelo menos em relação às leituras. Todavia, seria maldade dizer que boas escolhas não foram feitas, que experiências não foram testadas e que surpresas não saltaram aos olhos, ao se virar a última e derradeira página do livro. Mas, então, em que parâmetro nossa Rebelde do Deserto poderia se enquadrar?

A Rebelde do Deserto (ebook). Foto autoral.

“Magia e metal não se dão muito bem. Estamos matando a magia. Mas ela está reagindo.”

Lembro-me do momento em que o primeiro livro da série foi lançado por aqui no Brasil, pela editora Seguinte, e de como não dei muita atenção. Era mais um YA (Young Adult) subindo ao palco, recebendo a luz dos holofotes, e, bem, eu não estava mais muito interessado em ler outro romance do gênero. Acabou que me esqueci da trilogia, pelo menos até o lançamento do terceiro volume, quando o hype deu mais um salto e o público leitor no Instagram e Youtube voltou a falar de Alwyn Hamilton. Foi devido às resenhas de uma amiga, Gisele, do blog “Abdução Literária”, que a minha curiosidade venceu qualquer resistência impertinente. Pois bem! Li o primeiro livro e posso dizer: valeu a pena.

Em A Rebelde do Deserto, Hamilton convida os seus leitores a se aventurar pelas terras do Deserto de Miraji, um ambiente inóspito, claramente inspirado na cultura árabe e nas histórias de Mil e Uma Noites, com uma pequena ressalva: aqui, as areias escaldantes se mesclam à pólvora das balas e demais armas de fogo. Temos, portanto, uma fantasia árabe com toques de faroeste.

Sob as rédeas do sultanato, conhecemos nossa protagonista, Amani Al’Hiza, uma jovem órfã e pobre, que, como se não bastasse viver em uma sociedade notavelmente machista, que não tem pudor em fazer e demonstrar a objetificação da figura feminina, bem como sua ausência de voz na vida pública e familiar, Amani convive com a sombra indesejada de seu tio, desejoso de “fazer o sacrifício” de torná-la mais uma de suas esposas.

“Quando too mundo parece ter tanta certeza, é difícil acreditar que alguém esteja certo.”

É extremamente interessante observar como a autora consegue trabalhar a temática do cotidiano e da cultura árabe em seu romance, sem desrespeitá-la, mas não se negando as oportunidades pontuais de tecer sua crítica a um modo de vida servil, que diminui a representatividade da mulher, que a reduz a mero objeto, a mera posse da figura masculina, do líder da casa, da casta ou da nação. Ao optar por uma protagonista jovem e feminina, Alwyn conduz o seu público por diversas reflexões que muitas vezes retornam à condição do berço, do quão díspar podem ser duas vidas pelo nascimento de uma mulher, ao invés de um homem.

Amani é durona e quer provar que o seu destino não se reduzirá a se tornar uma esposa submissa e eternamente grata. Nossa protagonista pode muitas vezes transmitir a imagem de ser cabeça-dura, mas acima de qualquer inflexibilidade há o desejo de sobressair-se em meio a uma cultura opressora. Extremamente habilidosa com uma arma na mão, ela se prova capaz de lutar pelo seu espaço, mesmo que tenha que fugir e cruzar o deserto, sozinha ou ao lado de estranhos; bem como capaz de demonstrações de amizade e empatia.

A ambientação desenhada por Hamilton deve agradar boa parte dos leitores de YA. Fugindo do padrão europeu ou medieval, temos um deserto cheio de mistérios, temperado pelo sobrenatural. Quando As Mil e Uma Noites encontram o faroeste, a magia explode em tons radiantes. Portanto, se prepare para tecer hipóteses sobre os djinnis e toda a mitologia árabe, que, particularmente, também é um espetáculo a parte.

Amani Al’Hiza – fan art by kure-indreams.

“Assim como as balas, o fogo por si só não distingue o bem do mal.”

A Rebelde do Deserto conta com uma escrita tão fluida quanto sua história, ponto que vale a indicação para aqueles que desejam uma história de pouca complexidade, porém bastante agradável, com personagens interessantes, doses de humor, ação e, invariavelmente, romance.

Vista os seus trajes para cruzar o deserto, leitor. Mas lembre-se de evitar as noites, pois há muito mais na longa planície do que as areias demonstram.

A Rebelde do Deserto Book Cover A Rebelde do Deserto
A Rebelde do Deserto #1
Alwyn Hamilton
Fantasia
Seguinte
20.04.2016
Ebook
288

O destino do deserto está nas mãos de Amani Al’Hiza ― uma garota feita de fogo e pólvora, com o dedo sempre no gatilho. O deserto de Miraji é governado por mortais, mas criaturas míticas rondam as áreas mais selvagens e remotas, e há boatos de que, em algum lugar, os djinnis ainda praticam magia. De toda maneira, para os humanos o deserto é um lugar impiedoso, principalmente se você é pobre, órfão ou mulher. Amani Al’Hiza é as três coisas. Apesar de ser uma atiradora talentosa, dona de uma mira perfeita, ela não consegue escapar da Vila da Poeira, uma cidadezinha isolada que lhe oferece como futuro um casamento forçado e a vida submissa que virá depois dele. Para Amani, ir embora dali é mais do que um desejo ― é uma necessidade. Mas ela nunca imaginou que fugiria galopando num cavalo mágico com o exército do sultão na sua cola, nem que um forasteiro misterioso seria responsável por lhe revelar o deserto que ela achava que conhecia e uma força que ela nem imaginava possuir.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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