As pedras em círculo, feito reunião que se estende por séculos, parecem emanar sua aura de mistério, sua fragrância que inebria e que atraí desconhecidos. Há um som que não se pode ser descrito, que não se pode ser escrito sobre o papel, saindo do centro daquele invólucro de pedra antiga. Uma última sombra antes do amanhecer findar se encaminha para lá. Se magia fosse palpável, seria possível sentir o seu toque vindo em ondas. Craig na Dun é como chamam o local. E é onde tudo começa.

“— Você diz que tem medo de realizar uma ação aqui por medo de afetar o futuro. Isso é ilógico. Todas as ações afetam o futuro. Se tivesse permanecido em seu próprio lugar e época, suas ações, ainda assim, afetariam o que viesse a acontecer, exatamente como agora. Ainda tem as mesmas responsabilidades que teria lá, que qualquer ser humano tem em qualquer época. A única diferença é que pode estar em condições de ver mais claramente as consequências de seus atos. E, novamente, talvez não. — Balançou a cabeça, olhando diretamente para mim por cima da mesa.”

“A Viajante do Tempo” – Outlander #1 – Diana Gabaldon (foto autoral).

Quando Claire Randall, uma enfermeira que desfruta de sua lua de mel em Inverness, Escócia, retorna a Craig na Dun — os monólitos pitorescos e de ares ancestrais —, tudo o que ela não poderia imaginar acontece: do clima do pós-guerra, em 1945, Claire é lançada impiedosamente pelo tempo e se vê estirada, absorta, em uma Escócia selvagem e brutal de 1743, onde os grandes clãs ainda governam as Terras Altas.

As histórias parecem sempre ocorrer com mulheres e de duzentos em duzentos anos — ou é o que Claire Randall (Beauchamp) acredita. Após presenciar um ritual misterioso no círculo de pedras, alguma fenda no tempo parece ter sido aberta, sugando a jovem enfermeira para o século XVIII. Presenciando uma batalha entre ingleses e escoceses, sendo quase violada pelo capitão dos Dragões, ela deve esconder as verdades sobre a sua origem incompreensível e viver entre o clã MacKenzie, entre olhares que a acusam de ser espiã ou até mesmo uma bruxa. 

Em A Viajante do Tempo, Diana Gabaldon nos apresenta Jamie Fraser, um guerreiro escocês salvo da morte por Claire. O brutamontes parece fazer valer o significado de sofrer em terra e carrega consigo a essência compactada dos verdadeiros clãs escoceses da época. Não tarda muito para que se construa uma ligação entre as duas personagens, um fio resistente que dá núcleo para o romance histórico.

Ainda sobre Jamie, é interessante observar a habilidade formidável de Gabaldon em não somente construir um bom personagem, historicamente compreensível e aceitável, ainda que fictício, mas também em traçar todo o seu desenvolvimento do momento do encontro com nossa protagonista, Claire, até o envolvimento que floresce entre os dois. Não bastasse sua variedade de nuances e sua personalidade afiada — e comedidamente maleável —, Jamie demonstra ao longo da trama fugir de qualquer aspecto romantizado ou erotizado, dos rótulos que talvez alguns leitores pré-identifiquem a obra. A Viajante do Tempo é um espetáculo histórico, cujo palco agitado destaca o cenário e eleva as personagens a um mix de sentimentos conflitantes.

“— Ma chère, sirvo a um homem que multiplicou os pães e peixes — sorriu, meneando a cabeça para o lago, onde os redemoinhos causados pelos movimentos das carpas se alimentando ainda se diluíam —, que curou o doente e ergueu o morto. Devo ficar espantado que o mestre da eternidade tenha trazido uma jovem mulher pelas pedras da terra para cumprir Sua vontade?”

Inverness – primeira parte do livro (foto autoral).

Por outro lado, Claire é a representação da mulher determinada, de mente analítica e de coração complacente. Os fragmentos que encontramos de sua vida no final da Segunda Guerra Mundial, atendendo feridos, demonstra sua exímia habilidade para a medicina, para o conhecimento. Ao passo que seus momentos em meados do século XVIII, numa Escócia selvagem e perigosa aos ingleses, apresentam ao leitor o poder daquela que se mantém firme, decidida, mesmo com os embates internos que a viagem temporal lhe inflija.

É através da relação entre Jamie e Claire que Gabaldon entrelaça a sua trama de uma forma poderosa e inexplicavelmente crível. Não apenas coexistem força e beleza em seu texto, mas também uma forma de verdade que toma a forma da tinta e a voz da própria autora, bem como de magia que inunda os capítulos, inebriando o leitor de modo que ele praticamente se torna incapaz de não se entregar à realidade, à sinceridade da história.

Se por um lado a autora brinda seus leitores com protagonistas tão bem construídos e cativantes, permeados de um cenário exuberante, Diana Gabaldon também desenha coadjuvantes memoráveis. No entanto, é justamente a figura de Jonathan Randall que rouba as cenas em que aparece. O jovem capitão inglês se destaca rapidamente como um dos vilões mais odiáveis da literatura, sendo o precursor de ações ora revoltantes, ora de partir qualquer coração.

Levados por paisagens exuberantes, somos apresentados a outras personagens: Dougal, Colum, Murtagh, Geillis Duncan, sra. FitzGibbons, Jonathan Randall, etc. A história avança entre perseguições, fugas, sensualidade, tortura e intrigas políticas, cujos fios se entrelaçam página a página.

“[…] Às vezes, há uma linha tênue entre a justiça e a brutalidade […]”.

Com uma escrita deliciosa, Diana Gabaldon entrega um primeiro volume que facilmente cumpre com as expectativas. De romance histórico a romance dosado de amostras de fantasia, A Viajante do Tempo surge como recomendação certa para aqueles desejosos de boas intrigas, conflitos políticos, batalhas e romance, tudo em um equilibrado copo de whisky escocês.

Às vezes, o conhecimento do futuro pode se transformar em dor, quando se está preso a um passado inóspito, mas não menos sedutor.

A Viajante do Tempo Book Cover A Viajante do Tempo
Outlander #1
Diana Gabaldon
Ficção - Romance
Arqueiro
Físico 15x23
752

Em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial, a enfermeira Claire Randall volta para os braços do marido, com quem desfruta uma segunda lua de mel em Inverness, nas Ilhas Britânicas. Durante a viagem, ela é atraída para um antigo círculo de pedras, no qual testemunha rituais misteriosos. Dias depois, quando resolve retornar ao local, algo inexplicável acontece: de repente se vê no ano de 1743, numa Escócia violenta e dominada por clãs guerreiros.

Tão logo percebe que foi arrastada para o passado por forças que não compreende, Claire precisa enfrentar intrigas e perigos que podem ameaçar a sua vida e partir o seu coração. Ao conhecer Jamie, um jovem guerreiro das Terras Altas, sente-se cada vez mais dividida entre a fidelidade ao marido e o desejo pelo escocês. Será ela capaz de resistir a uma paixão arrebatadora e regressar ao presente?

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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