Ah, sim. Não estou duvidando de que você viu, amigo. Tenho certeza de que há horrores terríveis escondidos em cada esquina, algo asqueroso e absolutamente frio esperando o momento certo, a hora de dar o bote. Mas veja bem, não quero por a semente da dúvida neste caso, entende? É só que a realidade veste um véu estranho quando o dia se põe. Ao cair da noite, tudo se transforma; não é uma boa ocasião para permanecer nas ruas. Todo mundo sabe disso, certo?

Ler Stephen King é sempre uma grande aventura, afinal, nunca sabemos ao certo por onde sua mente sombria nos guiará, por quais estradas seguiremos e quais personagens e eventos darão sequência. Na estação de trens Stephen King, essa já é a minha 36° viagem, fato que me surpreende, pois entre tantos tickets comprados, continuo embarcando, de estação em estação sem demonstrar muito cansaço.

“Às vezes uma lâmpada fica mais brilhante logo antes de queimar de vez. Tenho certeza de que acontece com as pessoas também.”

Foto por Dhiego Morais

Ao Cair da Noite é a nona coletânea de contos do autor, se não considerarmos a divisão de Pesadelos e Paisagens Noturnas como obras distintas. Lançado originalmente em 2008 com o título de Just After Sunset, a antologia nasceu com a proposta de reunir alguns contos do autor anteriormente publicados em outras mídias e de promover o lançamento de um conto até então inédito, intitulado de N. A título de curiosidade, o hype para a publicação de N. era tanta que quase que simultaneamente foi encomendada junto à Marvel Comics uma graphic novel para a adaptação no formato de quadrinhos, tendo a participação de grandes nomes como Alex Maleev (Homem-Aranha e demolidor) e Marc Guggenheim (Wolverine e Homem-Aranha), e, em complemento, uma série em mobisódios curtinhos e gratuitos, facilmente encontrada na internet.

Contando com 13 contos, Ao Cair da Noite entrega uma flexibilidade de histórias interessante, com contos que brincam com o emocional do leitor, promovendo a desejada sensação de arrepio ou angústia visada nas histórias de terror. Além disso, King também aproveita para manipular os sentimentos e plantar uma série de dúvidas em quem lê, construindo narrativas que brincam com a realidade, com a obsessão e compulsão e com a claustrofobia, por exemplo.

Embora não seja a sua melhor antologia, Ao Cair da Noite marca o retorno de King às narrativas curtas, que, como qualquer outra tarefa importante, necessita ser sempre trabalhada para que as engrenagens não enferrujem e travem a mente.

Como em todas as minhas resenhas de livros de contos, trarei lobo abaixo alguns comentários sobre os 3 contos que mais me agradaram durante a leitura:

1. N. – considerado como um dos melhores contos do autor pelos fãs de Stephen King, N., realmente merece a fama que tem. Narrado parcialmente sob a forma epistolar, ou seja, por meio de cartas e alguns artigos, aqui nós acompanhamos o desenrolar de um evento que acometeu um paciente do Dr. Bonsaint, chamado apenas de “paciente N”. Aparentemente sofrendo de um grave estágio de transtorno obsessivo compulsivo (TOC), o paciente relata sua origem e o que o levou a entrar em contato com as pedras de Ackerman’s Field. Afinal, havia sete ou oito pedras verticais naquele círculo? Números pares são sempre melhores.

Neste habilidoso conto, King nos leva a refletir sobre a possibilidade de transtornos psicológicos serem tão transmissíveis quanto o vírus da gripe e sobre as suas consequências na vida das pessoas. N. muda completamente ao encontrar o círculo de pedras e passa a desenvolver o transtorno rapidamente. Na sua cabeça, contar e organizar são as chaves para impedir que o mal tenebroso que se encontra preso entre as pedras ancestrais escape para a nossa dimensão. Com um final reflexivo, dificilmente o leitor não tomará para si alguns desses hábitos ritualísticos, tamanha é a influência da narrativa do autor. Haveria ali um mal avassalador prestes a escapar ou tudo seria ilusão da nossa própria mente?

“Porque é a maneira como nós vemos o mundo que mantém a escuridão do outro lado dele longe. Que evita que ela vaze e nos afogue. Acho que todos nós sabemos disso, bem lá no fundo.”

Foto por Dhiego Morais

2. O Gato dos Infernos – definitivamente um dos contos mais inesperadamente bons de King na antologia. O que você faria se, já debilitado e em uma idade avançada, após a morte de quase todos aqueles que vivessem ao seu lado, suspeitasse de que o assassino responsável seria justamente o seu próprio gato?

Drogan é um velho rico do ramo farmacêutico e, mesmo após ter sido contra a ideia de adotarem um gato, acabou cedendo à maioria. Bem, há algo de horrendo na trajetória de vida do ancião, mas como um simples gato poderia ser responsável pelas mortes dos demais membros da residência? Drogan acha que é o próximo e por isso contratou um assassino de aluguel para se livrar do bicho. Dinheiro fácil; é assim que Halston pensa quando rumina a proposta.

Com uma pegada nos moldes grotescos de Edgar Alan Poe, este conto definitivamente deixará os leitores com a pulga atrás da orelha.

3. No maior aperto – último conto de Ao Cair da Noite, aqui nós conhecemos a história de Curtis, um homem amargurado e irado após a perda de sua Betsy, morta pela cerca elétrica de seu vizinho Grunwald, um homem interessado apenas nos negócios e nos lotes. Em meio a uma batalha jurídica e uma convivência bastante fragilizada, parece que não é apenas a vida de Curtis que foi atropelada por um carrinho de rolimã. Grunwald vai mal, mas planeja dar um fim a todo esse transtorno enquanto ainda consegue, e isso vai acontecer na Durkin Grove Village.

Inspirado no conto Enterro Prematuro, de Poe, e na possibilidade sinistra de ficar preso em um banheiro químico de beira de estrada, King produz um de seus contos mais agoniantes e claustrofóbicos, capaz de deixá-lo igualmente enojado (mesmo que um pouquinho, como confessa nos créditos). Essa sensação tão ruim e sufocante só me recorda do momento em que li o conto O Gato Preto, também de Poe, que me atormentou por bastante tempo.

Enfim, chagamos ao fim! Se você procura por contos onde os mortos são protagonistas; onde andar em uma simples bicicleta ergométrica pode ser assustador; em que fugir de seu passado pode te levar para um verdadeiro pesadelo; ou quando dar carona a um estranho pode ser a saída para um problema específico; bem, então vá em frente e enfrente a noite.

Ao Cair da Noite
Stephen King
Contos variados
Suma
2011
Físico
400

Em Ao cair da noite, os mortos estão por toda parte, seja ouvindo música country em "Willa", ou ligando para casa de um celular, como no conto The New York Times a preços promocionais imperdíveis. Mas, nessas histórias, os vivos não estão em melhores condições, e algo terrível está sempre à espreita. Em A bicicleta ergométrica, uma rotina de exercícios visando reduzir o colesterol ruim pode levar um homem a uma viagem inspiradora - e aterrorizante. A fronteira que separa os vivos dos mortos é muitas vezes enganosa, e os fios que mantêm os indivíduos presos à realidade podem se romper a qualquer momento. Em As coisas que eles deixaram para trás, os pertences de mortos do 11 de Setembro começam a perseguir um sobrevivente atormentado pela culpa. No conto N., o transtorno obsessivo-compulsivo de um indivíduo em contar um círculo de pedras - são sete ou oito? - é a única coisa que mantém a humanidade protegida do desconhecido. Em Mudo, um vendedor ambulante de livros dá carona para um mudo, sem saber que o homem silencioso no banco do carona escuta bem até demais. Ao cair da noite é o momento em que nada é o que parece. A hora perfeita para ler Stephen King.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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