Se me perguntassem há um ano sobre ler O Senhor dos Anéis eu muito provavelmente daria um sorriso nervoso e falaria que não tinha previsão – não vamos por uma meta, não é? –, ou seja, enrolaria como fiz por muitos anos. Mas vejam só como o futuro é imprevisível. Hoje eu digo: como é bom voltar para a Terra-Média!

Em A Sociedade do Anel, acompanhamos Frodo Bolseiro desde o momento em que herda o Um Anel e, auxiliado por Gandalf, Sam, Pippin, Merrin, e Aragorn, até sua chegada em Valfenda, onde a sociedade é oficializada. Frodo se torna o Portador do Anel, enquanto todos os demais, juntos de Boromir, Legolas e Gimli se tornam os Companheiros do Anel.

“A guerra precisa existir enquanto defendemos nossas vidas contra um destruidor que devoraria a todos; mas não amo a espada brilhante por seu gume, nem a flecha por sua rapidez, nem o guerreiro por sua glória. Amo somente aquilo que eles defendem: a cidade dos Homens de Númenor; e queria que ela fosse amada por sua memória, sua antiguidade, sua beleza e sua sabedoria presente. Não temida, exceto do modo como os homens podem temer a dignidade de um homem velho e sábio”.

The Lord of the Rings: The Two Towers (movie).

A busca pela destruição do Um Anel no fogo de Mordor é repleta de perigos. Sauron se fortalece a cada dia que se passa e seus exércitos ganham mais volume no leste. Por outro lado, no oeste, Saruman se revela como traidor da Ordem a que Gandalf também pertence; cego pelo desejo do poder do Um Anel.

Após a queda repentina de Gandalf, o Cinzento nas profundezas das Minas de Moria, em uma batalha terrível contra um poderoso espírito do mundo inferior – um Balrog –, a Sociedade do Anel se enfraquece até o seu rompimento definitivo em Emyn Muil, junto às Cataratas de Rauros. Observamos Frodo e Sam sozinhos, rumando em direção à Montanha da Perdição em Mordor, ao passo que os demais membros da companhia enfrentam um ataque órquico.

Diferente da primeira parte do épico de O Senhor dos Anéis, As Duas Torres se sobressai como um meio essencialmente fluido, de narrativa veloz e que abarca uma série de acontecimentos surpreendentes. Talvez por possuir boa parte dos personagens apresentados na parte anterior, a leitura avança sem muitos entraves, enquanto desenvolve os desdobramentos iminentes da trama, afinal, uma guerra pelo Anel está prestes a irromper na Terra-Média.

Neste volume, Tolkien optou por dividir os pontos de vista da narrativa em dois livros:

— No livro III, o leitor acompanhará a viagem junto do que sobrou da Sociedade do Anel, sob liderança de Aragorn, basicamente. Uma decisão importante deve ser tomada: seguir em busca de Sam e Frodo, que porta o Anel de Poder e os auxiliá-los na terrível jornada ou seguir na direção contrária, no rastro dos Uruk-hai, monstruosidades de Saruman e que levam consigo os jovens Pippin e Merry.

Embora sintamos falta dos hobbits nesse início, toda a jornada é demasiado interessante de se observar junto de Aragorn, Gimli e Legolas. Pouco a pouco percebemos trechos que não foram utilizados na adaptação cinematográfica de Peter Jackson, ou ainda que foram alterados, e isso é extremamente enriquecedor quando falamos da experiência de se ler O Senhor dos Anéis.

Os Ents (cena do filme).

— No livro IV, o leitor seguirá os caminhos tortuosos da jornada à Mordor feita por Frodo e seu fiel amigo Samwise. Arrancados de qualquer ajuda do passado, distantes da sabedoria e dos poderes ancestrais de Gandalf ou da proteção de Aragorn, a dupla de heróis deve seguir como pode até o seu destino terrível.

Nessa etapa da história, os fãs de Tolkien reviverão importantes passagens da jornada envolvendo o Um Anel, desde a companhia curiosa de Gollum, até os limites dos Pântanos Mortos, a visão do Portão Negro e de Minas Morgul, as Escadarias de Cirith Ungol e até a toca de Laracna. É dificílimo ler sobre tudo isso e não sentir nostalgia, não sair marcando cada passagem memorável.

Tolkien pode não ser o maior especialista em desenvolvimento profundo das personagens, mas seria injusto não comentar como Frodo e Sam, bem como Aragorn e Gollum crescem durante toda a narrativa. A própria figura de Gandalf atinge um limite ainda mais bem construído e rico no livro III.

Frodo vive constantemente aflito com o peso que carrega envolta do pescoço: o Um Anel parece ciente da proximidade de seu Mestre Obscuro, o que o transforma em um fardo doloroso e difícil de resistir. Paralelamente ao empobrecimento das terras pelas quais eles passam, Frodo também adoece em espírito. Sam é a figura responsável por reerguê-lo a cada momento, protegendo-o e zelando pelo seu patrão e amigo. A amizade entre esses dois personagens é um exemplo do poder de seu amor.

Gollum é o contrapeso disso tudo e claramente tem uma função importante a desempenhar até o final da jornada. Sua obsessão pelo Um Anel é digna de nota; seus diálogos envolvendo não apenas Sam e Frodo, mas seu próprio álter-ego, conduz a momentos icônicos do livro.

“Pois imaginando a guerra, ele desencadeou a guerra, crendo não ter tempo a desperdiçar; pois aquele que dá o primeiro golpe, se o der com força o bastante, pode não precisar golpear mais”.

Nazgûl, por Juan Esteban Rodriguez

Saruman é o grande vilão da parte III de As Duas Torres. O próprio título faz referência a Orthanc, a torre monolítica em Isengard, e a Barad-Dûr, a torre maligna de Sauron. Os momentos em que o Mago Branco tem protagonismo, seus diálogos entre a figura que o enfrenta são de arrepiar!

É ainda em As Duas Torres que o leitor mergulhará na floresta de Fangorn, local temido por muitos e lar dos antiguíssimos Ents e Huorns: criaturas meio arvorescas e gigantes. Embora não seja necessário afirmar a todo o momento, são por momentos assim que compreendemos a complexidade e a criatividade do universo criado por J. R. R. Tolkien.

A narrativa da segunda parte do grande épico da Terra-Média consegue ser tão inebriante quanto a anterior, firmando suas bases para uma conclusão magistral. De personagens apaixonantes, diálogos filosóficos e descrições tão vivas quanto o universo de Tolkien, As Duas Torres assegura a genialidade e atesta aos novos leitores os motivos de se manter por tanto tempo como o pilar das histórias de fantasia pós-século XX.

Este livro foi lido durante o projeto de Leitura Coletiva: #LCTERRAMEDIA, organizada por vários perfis literários no Instagram. Para saber mais, clique aqui.

As Duas Torres Book Cover As Duas Torres
O Senhor dos Anéis
J. R. R. Tolkien
Fantasia
Harper Collins Brasil
2019
Capa Dura
464

O segundo volume de O Senhor dos Anéis, mais importante épico de fantasia moderno, narra os caminhos separados seguidos pelos membros da Sociedade do Anel em sua luta para deter Sauron, o Senhor Sombrio da terra de Mordor, e destruir o Um Anel, no qual está contida a maior parte do poder do tirano demoníaco imaginado por J.R.R. Tolkien.

Um ataque-surpresa pôs fim à jornada conjunta da Sociedade do Anel. De um lado, o trio formado pelo elfo Legolas, pelo anão Gimli e por Aragorn, herdeiro da realeza dos Homens, tenta resgatar os jovens hobbits Merry e Pippin, capturados por guerreiros-órquicos. A busca pelos companheiros perdidos levará os três a confrontar os cavaleiros do reino de Rohan e o mago renegado Saruman, que também deseja o Um Anel para si.

Enquanto isso, do outro lado das montanhas, Frodo e Sam buscam uma maneira de entrar em Mordor e chegar até a montanha onde o Anel foi forjado, único lugar onde é possível destruí-lo. Para isso, acabam recebendo a ajuda de seu mais improvável aliado: Gollum, a criatura que chegou a ter o Anel sob seu poder durante centenas de anos e que ainda é devorada, em corpo e alma, pelo desejo de voltar a possuí-lo.

Com cenas que mesclam o heroico e o intimista, o sublime e o cômico, As Duas Torres abriga algumas das criações mais inesquecíveis da imaginação de J.R.R. Tolkien, como os gigantescos Ents e a cultura nobre e belicosa do povo de Rohan.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.