Em um caminho coberto pela vegetação, passando pelo velho trailer, existe uma árvore tão alta quanto qualquer outra; de galhos que sobem demais, aonde o olho humano é muito fraco para assimilar. Grossa. Alta. Vasta. A sua copa intimida e a sua presença grava na mente feito tinta no papel. De uma fresta no seu tronco sai Evie, e as mariposas a acompanham. Não há indecisão no seu caminhar.

Eu não poderia imaginar que a mesma criança que um dia se mostrara indecisa nos corredores da Biblioteca Municipal de sua cidade, que aquele mesmo garoto que não arriscou ler Stephen King anos atrás, hoje estaria construindo a sua própria coleção do autor. Por isso, quando Belas Adormecidas foi anunciado aqui no Brasil, não pensei duas vezes em reservar a pré-venda. O resultado foi que o título se tornou a minha última leitura do ano em 2017. De maneira geral, não poderia ter encerrado melhor.

A trama de Belas Adormecidas gira em torno do misterioso aparecimento de Evie Black nas redondezas de Dooling. As primeiras páginas do livro têm intuito de construir um clima sobrenatural e enigmático, no entanto, logo não tarda para que o leitor identifique o tipo de obra e de autor que está lendo: não há muito tempo para compreensão de tudo o que está acontecendo. Uma das primeiras consequências do surgimento de Evie é a explosão de uma fábrica de drogas e o assassinato dos traficantes. Todavia, a jovem não é exatamente um prenúncio de destruição; Evie precede o início de uma estranha e atípica doença do sono que afeta exclusivamente as mulheres.

“Quando o barracão explodiu, ela não se virou, e nem sequer se encolheu quando um pedaço de aço corrugado voou por cima de sua cabeça”.

Crédito: IDW Publishing

Foi justamente esse plot, o de somente mulheres serem vítimas de uma misteriosa doença do sono que me chamou a atenção, afinal, o que seria do mundo como conhecemos se todas as mulheres caíssem num sono profundo? Um mundo misógino, preconceituoso, violento, abalado e inesperadamente assustado com bilhões de pessoas inativas repentinamente, em um efeito dominó irrecuperável… Como os homens se sairiam?

Evie Black — como ela gosta de ser chamada — surge em Dooling, uma cidade comum, como um meteorito em chamas prestes a atingir o mar. Ao se erguer e atravessar a cidade, ela traz consigo um verdadeiro tsunami de problemas. A doença do sono, Aurora, em homenagem a história do conto de fadas, é implacável. As mulheres, crianças, jovens e idosas, não caem imediatamente no sono eterno. Somente aquelas que já estavam dormindo quando o fenômeno se iniciou são acometidas de cara. As demais, ao terem ciência das teias brancas saindo pelos orifícios do corpo de conhecidas, amigas, vizinhas e parentas, teias formando um casulo, logo iniciam uma batalha solitária em busca de se manterem o máximo possível do tempo acordadas. A Aurora é inclemente e ao redor do mundo derruba uma a uma. Aqueles que tentam romper o casulo na tentativa de tirar suas amadas do sono, encontram seres bestiais enfurecidas pelo despertar. Muitos homens, filhos, esposos, amigos e profissionais são mortos nos ataques. Em seguida, as belas adormecidas retornam ao sono, com o casulo sendo reconstruído automaticamente.

“Em toda parte, mulheres adormeciam e eram cobertas por casulos, e em toda parte havia idiotas que as acordavam”.

Crédito: IDW Publishing – Diana Naneva

Dentre os livros que eu li de Stephen King, este é sem dúvidas o que possui mais elementos fantásticos; trata-se de uma fantasia com toques de terror, mas, essencialmente, fantasia. A nota dos autores deixa isso ainda mais explícito, onde Stephen e Owen explicam a necessidade e a dificuldade de produzir literatura fantástica com toques de realidade, uma busca de trazer razoabilidade, possibilidade ao que antes seria inimaginável.

Pouco a pouco o mundo começa a ruir, definitivamente — os autores frequentemente citam os noticiários para construir a situação —, com mulheres que já não podem mais despertar. Algumas são duras demais e resistem, embora suas forças se esvaiam rapidamente. Com o provimento do sono, restam mentes embaralhadas, forças esgotadas, irritabilidade e um terror pelo desconhecido. O mundo, já anteriormente opressivo, torna-se massivamente assustado, enfurecido, desgovernado, selvagem e chocante na figura dos homens. Tudo isso ambientado exclusivamente em Dooling.

Não há uma questão de imediatividade, de urgência na trama, pois tanto Owen quanto Stephen prezam por delinear um espaço que visa principalmente as personagens, seus desenvolvimentos, suas razões e destinos. Embora o cenário seja construído com primazia (Dooling e sua prisão), as personagens e o seu impacto local têm uma valorização maior para os autores. A participação feminina na trama é bem ativa, logo, não há o risco de se aventurar em uma história guiada exclusivamente pelos homens abandonados.

Em relação às personagens, Belas Adormecidas foi a obra que mais me dividiu, dentre as que já li da família King. Ainda que haja uma torcida mais expressiva pelas personagens femininas, os autores conseguiram acinzentar boa parte do enredo, tornando-as boas e igualmente deturpadas. Em um momento você passa a odiar determinada personagem, e capítulos depois você começa a compreendê-la. E logo em seguida algo acontece e te choca duplamente. No entanto é válido citar: os Norcross; Elaine e Frank Geary; Garth Flickinger; Eve Black; Janice Coates; Michaela Morgan; Jeanette Sorley; Ree Dempster; os Griner e a que mais me agradou, Vanessa Lampley. Ah, claro, a raposa comum (não se esqueçam dela, por favor).

Belas Adormecidas é um livro de valorização do poder e da influência feminina, que busca demonstrar não apenas a necessidade histórica da figura das mulheres, mas enaltecê-las, empoderá-las e, acima de tudo, justificá-las, dar suporte a elas. Neste livro, Stephen King e Owen King não tem pudor em apontar o desnível social entre o “ser mulher” e o “ser homem” no mundo contemporâneo. Aqui, os autores apresentam mulheres firmes, assustadas pelo passado, arrependidas, mulheres que cometeram erros, mulheres cujo lar é tido pelo clube dos livros, mulheres inseguras, jovens duronas, filhas corajosas, mulheres comuns. Tornamo-nos próximos de policiais, agentes carcerárias, detentas, diretoras, jornalistas, senhoras, mães afeiçoadas, confeiteiras e tantas mais; mulheres que, acima de tudo, sofreram de alguma forma pelas mãos enfurecidas daqueles que deveriam respeitá-las com igualdade e, primordialmente, amá-las.

É válido ressaltar que a obra não é uma tentativa de diminuir os homens, mas sim elevar as mulheres e apontar para aqueles que ignoram, o desnível histórico entre os gêneros. Embora não tenha sido escrito por mulheres, existe a participação de Tabitha King, eterna consultora da família. Claro, não há quem saiba mais sobre a real natureza de ser mulher do que as próprias mulheres, entretanto, empatia é uma capacidade de qualquer ser humano, basta querer usá-la.

“[…] Porque, como o seu Dr. Norcross deve saber, temer o inevitável é pior do que o inevitável em si”.

Cover by Vasava Studios

O final é levemente poético. É também extremamente agridoce para aqueles que conseguirem se afeiçoar a certas personagens. De maneira geral, agrada, mas deixa marcas. Além disso, em tempo, a tradução de Regiane Winarski e a revisão da Suma me agradaram bastante.

Belas Adormecidas é mais um ensaio social, um experimento autoral que por meio da literatura fantástica e do terror tenta simular um mundo privado de mulheres e suas consequências para os que lutam para reavê-las. Caos social, selvageria, alcoolismo, violência doméstica, abuso de poder, assédio moral e sexual, desilusão amorosa, pobreza e desesperança cruzam as páginas, feito carros desgovernados. Cada leitor é um pedestre que observa tudo e tenta desviar, até que é atingido no final da travessia.

Cuidado com as mariposas. Dizem que o pó delas pode cegar.

Belas Adormecidas Book Cover Belas Adormecidas
Wayfarers #1
Stephen King & Owen King
Suspense
Suma
2017
Físico
728

Pelo mundo todo, algo de estranho começa a acontecer quando as mulheres adormecem: elas são imediatamente envoltas em casulos. Se despertadas, se o casulo é rasgado e os corpos expostos, as mulheres se tornam bestiais, reagindo com fúria cega antes de voltar a dormir. Em poucos dias, quase cem por cento da população mundial feminina pegou no sono. Sozinhos e desesperados, os homens se dividem entre os que fariam de tudo para proteger as mulheres adormecidas e aqueles que querem aproveitar a crise para instaurar o caos. Grupos de homens formam as “Brigadas do Maçarico”,incendeiam em massa casulos, e em diversas partes do mundo guerras parecem prestes a eclodir. Mas na pequena cidade de Dooling as autoridades locais precisam lidar com o único caso de imunidade à doença do sono: Evie Black, uma mulher misteriosa com poderes inexplicáveis. Escrito por Stephen King e Owen King, Belas Adormecidas é um livro provocativo, dramático e corajoso, que aborda temas cada vez mais urgentes e relevantes.

Facebook Comments

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

About The Author

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

Related Posts