A guerra nem sempre é somente um show de pirotecnia, de tiros e explosões; de terra se partindo e sendo arremessada pelos ares, de invasão e retração nos campos de batalha. Em meio àqueles tiros e explosões também há o som ensurdecedor dos canhões, das armas de esgotando, da gritaria dos homens avançando, das granadas detonando e da morte, da surpresa, da fúria e do medo incessante. Naquelas terras arremessadas ao alto pelo impacto também estão os corpos, ou o que é possível tirar deles. Entre o impasse de avançar ou não, há o terror. Esse terror é um parasita que acompanha os poucos sobreviventes, pois ele é fruto da insegurança e da incerteza que rondam a morte nos campos: são as trincheiras. Elas se alimentarão dos sonhos de muitos, inclusive dos de Paul Nash.

“Relembrar um sonho é como fazer um esboço de um esboço. E, conforme os anos passam, redesenhamos aqueles sonhos repetidamente.”

Foto por @odhiegomorais

Junto de Paraíso Perdido, Black Dog talvez seja um dos títulos mais ousados do selo de graphic novels da Darkside Books. Com um projeto gráfico e editorial fantástico, contendo os cuidados de capa dura, título texturizado, miolo em papel pólen e folha de guarda ilustrada; além de uma tradução limpa de Bruno Dorigatti, o quadrinho vem com uma proposta biográfica de um dos mais influentes e importantes artistas britânicos de sua época, Paul Nash.

O leitor é levado a conhecer um pouco mais de Nash pelas mãos ilustres de Dave McKean, cultuado e premiado ilustrador, responsável pelas artes em obras tais como: The Homecoming (Ray Bradbury), Asilo Arkham (Grant Morrison), Coraline, O Livro do Cemitério e Sandman (de Neil Gaiman).

Antes de comentar sobre o conteúdo de Black Dog, é válido dizer que o quadrinho foi concebido como parte do 14-18 Now, uma programação de cinco anos de novas obras culturais criadas especialmente para marcar o centenário da Primeira Guerra Mundial. Portanto, além de conter uma carga biográfica interessante, o quadrinho também resgata um teor histórico forte e que se complementa com as ilustrações de McKean.

Em Black Dog: os sonhos de Paul Nash, o leitor é convidado a participar de uma viagem intensa, sensorial e particularmente introspectiva. Não há uma regra cronológica entre os capítulos, que frequentemente avançam e retrocedem no tempo, por meio de chaves capitulares que iniciam a narrativa: os quadros. Esse estilo de narrativa casa de maneira adequada com a proposta de evocar os diversos sonhos de Nash, que tanto o atormentaram e o inspiraram, transformando sua mente em um turbilhão de imagens incertas, ora desvairadas, ora assustadoramente realistas. A própria figura do cão preto, uma das poucas assimiladas com precisão pelo seu inconsciente, produz o efeito de uma metáfora recheada de complexidade e de um ar onírico, até mesmo nostálgico para Paul, que o acompanha até o fim, de maneira inerente e amarga a sua história.

“Um dia tudo isso vai acabar, e devemos apanhar o que sobra de nossos corpos despedaçados e as cenas em nossas mentes, e não esquecer.”

Dave McKean entrega uma obra extremamente rica, dotada de uma variedade absurda de técnicas de desenho e edição. Não é incomum ao leitor mudar de uma página para outra e encontrar um estilo diferente, bem como uma colorização distinta. Há o abstrato na arte de McKean, assim como há o impressionismo; ilustrações realistas; ilustrações que abusam de um tom para atribuir um ar mais pessimista, doente, deprimente, de guerra, de sofrimento, de morte, de confissão e de cura. Dave consegue transitar entre tudo isso com uma fluidez que espanta, transcrevendo para a tinta e para o papel a essência incorpórea dos sonhos, que se borram, que se dissipam, que se tornam incompreendidos, que impactam e também encantam e reconfortam.

O roteiro não entrega tudo de maneira simples para o leitor. Logo, faz-se necessário um pouco mais de atenção aos detalhes e aos diálogos, bem como à época em que aquele capítulo esteve inserido. São quinze capítulos, emoldurados por quadros, que narram o período em que Nash foi atormentado por suas memórias da guerra.

Há um toque de elementos fantásticos presente em Black Dog, principalmente quanto aos seus sonhos, que brincam com o limite frágil entre a realidade e a fantasia. Normalmente aqui se encontram metáforas e comentários bastante profundos a respeito do significado dos sonhos, da guerra e da sanidade.

De maneira objetiva, Black Dog é uma viagem rápida pelas águas densas e metamórficas de Paul Nash, que entregam ao leitor um misto de sensações e de impressões sob a ótica do artista. A narrativa e as ilustrações variadas conseguem promover uma conexão entre leitor e obra desde o início do quadrinho; não é difícil ter a impressão de que há um narrador onisciente e onipresente do seu lado, te guiando capítulo a capítulo por caminhos inusitados.

“Sou uma pedrinha inexpressiva em meio a milhares delas afogadas no litoral. Um artista de guerra. Um artista de guerra, sem guerra.”

Foto por @odhiegomorais

Black Dog talvez seja um dos melhores títulos do selo de graphic novels da editora, não apenas por sua contribuição artística que enche os olhos, mas principalmente por sua capacidade de narrar uma história por diferentes camadas. De certa forma, é como se cada uma dessas camadas de ilustrações contivesse a sua própria parte da história de Paul Nash, que se conectam biograficamente e historicamente.

Definitivamente é uma obra para ser lida mais de uma vez.

Black Dog: os sonhos de Paul Nash Book Cover Black Dog: os sonhos de Paul Nash
Dave McKean
Graphic Novel
Darkside Books
23.05.2018
120

Conhecido por sua colaboração com Neil Gaiman – na série Sandman e em Sinal e Ruído, Mr. Punch e Violent Cases –, Dave McKean assombra o universo dos quadrinhos desde a sua estreia, em 1991, com o premiadíssimo Cages. Agora, a DarkSide Books apresenta a nova graphic novel do legendário multiartista, baseada na vida de Paul Nash, pintor inglês surrealista que combateu na Primeira Guerra Mundial. Black Dog: Os Sonhos de Paul Nash aborda sobretudo esse período delicado e determinante na vida do pintor, que iria marcar profundamente sua produção artística posterior, e compõe, através das lembranças de Nash, um painel multifacetado e tocante sobre como a guerra e situações extremas nos modificam e como lidamos com toda a dor, a perda e o trauma que ela provoca. Black Dog se utiliza de diversas técnicas e estilos, e transforma a linguagem e a estética dos sonhos, dos pesadelos e da memória: entrecortada, repleta de elipses, mudanças alterações e confusões próprias deste estado entre a vigília e o sono, que nos confunde, trai, acrescenta e subtrai, influenciando e por vezes formando a nossa percepção da realidade. De forma sombria e arrebatadora, McKean transforma em imagens extremamente belas e poderosas as emoções registradas por Paul Nash sobre o conflito e o que resta àqueles que sobrevivem. Ninguém sai impune desta obra-prima.

Facebook Comments

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

About The Author

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

Related Posts