De 2017 para 2018, o mercado nacional de quadrinhos vem crescendo consideravelmente, e, por consequência, mais editoras começaram a apostar nesse formato de publicações, que, invariavelmente, tendem a seduzir uma gama cada vez maior de leitores, atraídos em parte pela influência do próprio cinema, que passa a alavancar não mais apenas romances. Observa-se isso nos lançamentos ousados das editoras Darkside, Pipoca & Nanquim, Intrínseca e Rocco, por exemplo, que vêm concorrer contra as já clássicas Panini e Mythos, entre tantas outras.

“Eu via a face da mais absoluta escuridão. Não o mal. É como se a natureza virasse breu.”

Sob essa ótica, a editora Intrínseca lançou recentemente o seu mais novo quadrinho, Black Hammer — Volume 1, uma obra consagrada de um dos principais nomes da indústria, Jeff Lemire. Com as artes de Dean Ormston, cores de Dave Stewart e letras de Todd Klein (responsável pelas letras em Sandman, de Neil Gaiman, um dos maiores clássicos contemporâneos das HQs), Black Hammer surge aparentemente com uma proposta batida, mas que, acertadamente, surpreende e arranca sorrisos de quem lê.

Em Black Hammer: origens secretas, conhecemos a história de algumas personagens peculiares. Há dez anos, um grupo de pessoas com habilidades sobre-humanas ou dotadas de um senso de bravura indômita, de heroísmo nato, salvou Spiral City, que sofria uma impiedosa investida daquele conhecido como Antideus, uma criatura humanoide gigantesca e aparentemente muito poderosa. No entanto, diferentemente do que se esperaria de um ato desses, que beirava o próprio sacrifício, os heróis acabaram excluídos, exilados em uma fazenda pacata. Despojados de qualquer identidade que os ligue as suas figuras heroicas, o grupo permanece preso em algum tipo de redoma temporal invisível, que não os permite escapar ou sequer cruzar os limites da cidade-prisão. O que poderia ter acontecido, então?

“Aproveite, querida. Sempre haverá algo novo atrás de cada porta.”

Trecho de Black Hammer

Concebido entre 2007 e 2008, quando Lemire trabalhava em outra grande obra, O Condado de Essex, Black Hammer surge como uma carta de amor a todos os super-heróis de HQs que Jeff Lemire tanta amava, agregando em sua proposta a sensibilidade indie do trabalho que realizava na época, característica comum do autor. No entanto, entre tantos projetos, somente quase dez anos depois que a série seria lançada oficialmente, com algumas adaptações repensadas e reconstruídas ao longo do tempo que Black Hammer permaneceu de molho.

Black Hammer chega a ser em alguns momentos uma sátira aos próprios super-heróis, com o uso de clichés bastante conhecidos e com inspirações de outras publicações para as personagens (o próprio Antideus lembra em muitos aspectos o Apocalipse, da Marvel, fundido a Darkseid e Galactus). Porém, claro, a sensação é momentânea e frequentemente se perder em meio à narrativa, que entrega uma história interessante, que aguça certa curiosidade e que, acima de tudo — e aqui é o ponto que acredito atribuir maior relevância à obra de Lemire —, promove questionamentos sociais, ligados a raças/etnias, gênero e sexualidade. São ganchos como esses que enriquecem tremendamente a obra.

Nesse primeiro volume lançado pela Intrínseca estão compilados as 6 primeiras edições, em um acabamento simples, com o miolo em papel couché fosco 90g e sem orelhas, o que dá certa qualidade, torna mais confortável a leitura e não superinfla os preços.

Lemire apresenta aos leitores um leque diversificado de personagens, dos quais citam-se: Abraham Slam, um herói dos tempos de ouro, corajoso, mas agora bastante velho e irritantemente conformado com a situação de aprisionamento a que foram impostos; Menina de Ouro, ou Gail, uma garota forte, capaz de voar e com mais habilidades inumanas, presa no corpo infantil desde que fora exilada, incapaz de se libertar usando a palavra mágica (lembra bastante Shazam, não?), fato este que a torna possuidora de um gênio rebelde e bastante volátil; Coronel Weird, um velho astronauta cuja mente vive em um lapso dimensional e temporal insanos — Weird, ou Randall, tem a capacidade de abrir portais, ou algo semelhante a isso; Barbalien, um marciano interessantíssimo, com habilidades mórficas únicas e com uma história que veleja em águas dramáticas; e Madame Libélula, uma entidade paranormal, uma espécie de bruxa, de poucas cenas, poucas palavras e muito mistério.

Além das personagens já citadas, existe uma variedade de coadjuvantes que brincam entre os quadros (Walky, por exemplo), cada um com a sua determinada importância.

“Algumas histórias devem permanecer em segredo. E alguns segredos devem permanecer enterrados.”

Com uma série de referências, um enredo bem elaborado e ilustrações bastante expressivas, Black Hammer, vencedor do Eisner em 2017 na categoria de melhor série original, se destaca no mar bastante competitivo dos quadrinhos ao propor uma narrativa de heróis decadentes, alheios à sociedade que um dia protegeram, cujas pequenas tramas se interligam, construindo personagens que criam identidade com o público leitor, enquanto inclui entre o clima mais sombrio, a dose equilibrada de atualidade e nostalgia.

Black Hammer Book Cover Black Hammer
Black Hammer #1
Jeff Lemire
HQ
Intrínseca
08.05.2018
Físico

Black Hammer é representante nobre da obra de Jeff Lemire, um dos maiores nomes dos quadrinhos atualmente. Eleita a Melhor Série Original de 2017 pelo Eisner Awards, o principal prêmio internacional de quadrinhos, a obra de Jeff Lemire com o artista Dean Ormston e o colorista Dave Stewart explora os percalços na vida de heróis em decadência. No passado, eles salvaram o mundo, mas agora levam vidas medíocres em uma cidade rural fora dos limites do tempo. Não há como fugir, mas Abraham Slam, Menina de Ouro, Coronel Weird, Madame Libélula e Barbalien tentam empregar suas habilidades extraordinárias para se libertar desse incomum purgatório. Obrigados a disfarçar seus poderes, sua natureza e suas origens aos olhos dos habitantes locais, eles personificam uma típica família disfuncional, tentando criar para si uma vida normal. Este primeiro volume, Black Hammer: Origens secretas, reúne os primeiros seis fascículos originais e conta ainda com posfácio do autor, perfis da construção de personagens e esboços originais.

Facebook Comments

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

About The Author

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

Related Posts