Oh, sim. Há um cheiro doce e inebriante por aqui. Um odor que parece não vir de uma só direção, mas de todas. Um zumbido que prenuncia sua chegada; parece vir de dentro do próprio peito. É perigoso acreditar em todas as lendas, todavia, é ainda pior não acreditar em uma em específico: seu nome é Candyman; cuidado para não repeti-lo.

 Candyman é mais um lançamento da editora Darkside Books, que publica Clive Barker em terras tupiniquins pela terceira vez, agora, de maneira inédita como nunca antes no mundo, entregando aos seus leitores mais fiéis uma obra ímpar, publicada pela primeira vez em 1985, em antologia. Com um acabamento excepcional — que já se tornou padrão de qualidade —, a capa texturizada imita favos de mel não hexagonais, mas arredondados, em baixo relevo. Para os curiosos, é válido dizer que o livro ainda conta com folha de guarda enxameada por abelhas, que acompanha fitilho preto e ilustrações internas dignas do mais devoto entomólogo.

“‘Doces para um doce’. As palavras eram tão benignas; por que ela parecia sentir ameaça nelas? Seria o excesso, talvez, a pura superabundância de açúcar sobre açúcar, de mel sobre mel?”

Foto por @odhiegomorais

Neste pequeno livro, Barker convida os seus leitores a se aventurarem pela geometria decadente e miserável do Complexo Habitacional da Spector Street, onde Helen Buchanan realiza um estudo acadêmico sobre as pichações, sobre as artes anônimas da redondeza e suas implicações sócias e estéticas. A verdade é que a Spector Street sobressai como uma galeria viva em uma região tomada pela marginalidade e pela pobreza, um contraste que aguça a curiosidade de Helen.

Enquanto caminha pelo bairro, sempre vigiada por olhares escusos, desconfiados, Helen toma nota — após conversar com uma moradora particularmente estranha — sobre outras pichações em apartamentos vazios. E é numa de suas incursões que a jovem encontra a porta-como-boca, uma arte esquisita, mas poderosa, que se aproveitara da batente da porta do quarto — aposento este impregnado pelo odor de urina — para desenhar uma grande boca. Acima disso, tão logo que a luz incide ali, surge a frase-slogan: doces para um doce.

Conversando novamente com a peculiar moradora, Anne-Marie, Helen descobre sobre um crime que acontecera por ali, mas que, sem motivo aparente, fora abafado. Homem é encontrado em pedacinhos e com os olhos arrancados em seu apartamento. Fala-se sobre um estranho com um gancho nas mãos.

Embora seja uma história bem curta, com cerca de cem páginas, Candyman consegue estabelecer uma aura de mistério policial e de horror digna de grandes romances. Clive Barker constrói habilidosamente uma história sobre o nascimento dos mitos, utilizando-se de um monstro único, enquanto examina o próprio mecanismo que mantém o folclore vivo. Ao passo que outros autores tecem suas tramas acerca de figuras do medo, que encarnam o assustador e o atemporal, Clive se dirige a uma estrada em paralelo, circulando por vias que procuram entender o que de fato faz de um mito um mito, e o que os tornam tão poderosos e tão longevos.

O leitor vive intensamente a história, absorto por moradores inertes, esquisitos, que foram esquecidos pela sociedade e que mantém uma relação com o sobrenatural que mais se assemelha ao mutualismo, ainda que não seja estranho observar certa relação parasitária entre mito e humanidade.

“Ninguém estava só de passagem; uma experiência sempre deixava um marca. Às vezes ela apenas arranha; em outras, arranca membros”.

Foto por @odhiegomorais

A edição brasileira conta também com o posfácio de Carlos Pimati, jornalista, crítico, pesquisador de cinema e tradutor. Nele, o leitor encontrará uma análise bastante atual sobre o impacto de Candyman na literatura de terror e sua importância para o cinema, já que a obra ganhou uma adaptação adorada e duas sequências diretas, que bebem de fontes como o de Bloody Mary. Ah, sim, e falando de adaptação, o conto ganhará um remake dirigido pelo vencedor do Oscar, Jordan Peele (Corra e Us), contando com Yahya Abdul-Masteen II (Aquaman) no papel principal, previsto para 2020. Com um final impactante, dotado de um diálogo que promove ao leitor a reflexão sobre a extensão dos mitos, Candyman é uma aposta segura para os leitores que desejam conhecer a escrita assustadora de Clive Barker, o pai de Pinhead. Um doce para um doce.

Candyman Book Cover Candyman
Clive Barker
Terror
Darkside Books
24.01.2019
Físico
112

Não é lenda urbana: Candyman está de volta. Você tem coragem de ler a história que deu origem a um dos personagens mais assustadores do cinema? Então prepare-se para a edição exclusiva, em capa dura, de mais uma obra-prima de Clive Barker, num livro doce e sangrento como só a DarkSide Books poderia lançar. Em 1992, os fãs de filmes slasher ganharam um novo motivo para ter medo da escuridão. Um assassino sobrenatural que dilacerava sem perdão todos aqueles que ousavam repetir cinco vezes o seu nome: Candyman. O personagem, encarnado pelo ator Tony Todd, se tornou um bicho-papão coletivo de pelo menos duas gerações que cresceram rebobinando clássicos do terror em VHS. Mas muitos ainda não tiveram a chance de entrar em contato com a entidade original. Candyman nasceu da mente genialmente doentia de Clive Barker. Sua primeira aparição aconteceu em 1985 como uma novela literária (com o título The Forbidden), publicada em uma das muitas coletneas do autor. Na adaptação para o longa-metragem, produzido pelo próprio Barker, trama, cenário e protagonistas sofreriam alterações. Mas a maldição continua ali, assim como as abelhas e a mão de gancho vingadora. Um dos grandes prazeres mórbidos é justamente descobrir as diferenças entre o livro e o filme. E se você quiser criar o clima ideal, a dica é abaixar a luz e acompanhar a leitura com a trilha sonora original composta por Phillip Glass. Os arrepios estão garantidos. Candyman chega aos leitores brasileiros com uma edição que não se encontra igual em lugar nenhum do mundo. A autorização veio do próprio Clive Barker, em sinal de reconhecimento do autor pela paixão e o respeito com que a DarkSide Books vem publicando sua obra. Do autor, a DarkSide já lançou Hellraiser: Renascido do Inferno e Evangelho de Sangue. O mestre em pessoa declarou que é impossível haver uma edição mais bonita de Hellraiser do que a brasileira e a indicou aos leitores gringos: “Um item que definitivamente todo colecionador precisa ter [...], mesmo sendo em outro idioma”. Estamos prontos para repetir o sucesso. E se você seguiu o conselho e está lendo este release em voz alta, atenção. Você acaba de evocar o nome de Candyman pela quinta vez. Tome muito cuidado.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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