Viva! Ainda viva. Viva mais uma vez. Com os membros dormentes e a circulação retornando tropegamente ao seu corpo, esforçou-se para se manter em posição fetal, ciente de que tudo o que experimentasse haveria de ser realidade, por mais decepcionante que fosse despertar por mais uma vez. Ela era Lilith Iyapo e ainda não estava certa sobre a identidade ou origem de seus captores, muito menos a situação no mundo lá fora. Havia guerra, havia catástrofe e morte, entretanto, ali, no quarto, reclusa, só havia prisão. Ela era Lilith Iyapo e fora despertada para cumprir o seu destino.

“Somos uma espécie adaptável — disse ela, se recusando a ser interrompida —, mas é errado infligir sofrimento apenas porque sua vítima consegue suportá-lo.”

Fonte: www. xenogenesisproject.blogspot.com

É graças ao trabalho fantástico da editora Morro Branco que nós, brasileiros, estamos tendo a oportunidade de mergulhar nas histórias e na escrita impressionante de Octavia E. Butler, a “Dama da Ficção Científica”. Lançado originalmente em 1987, “Despertar” (Dawn) faz parte da trilogia de ficção científica Xenogênese, que se centraliza na hipótese de contato entre as raças humana e extraterrestre.

Octavia Butler ficou conhecida não apenas por seus inúmeros prêmios e indicações da ficção, mas principalmente por optar em narrar histórias onde grandes figuras negras femininas sobressaem-se como protagonistas, aproveitando-se ainda para abordar temas ainda contemporâneos a nossa sociedade, como o racismo, as divisões e disparidades de classes, o empoderamento feminino, a sexualidade, reprodução, identidade e a escravidão. Em Despertar, terceiro romance publicano em terras tupiniquins, a autora convida os seus leitores para uma viagem não muito longe de nossa atmosfera, a fim de observar o germinar do debate de alguns desses temas.

Lilith Iyapo é uma jovem negra que perdera não há muito tempo seu companheiro e seu filho em um acidente de carro. Com a humanidade se deteriorando, se autodestruindo pelo artifício de armas nucleares, Lilith desperta não pela primeira vez em um quarto, nua, porém com mudas de roupas a sua disposição. Inicialmente confusa, a protagonista imagina que passará por mais um interrogatório de seus captores — algo que ela pressupõe serem russos. No entanto, Lilith não tarda a descobrir que na verdade seus captores não passam de, na verdade, salvadores, de uma raça alienígena além de sua imaginação.

Suspensa — ou adormecida — por cerca de 250 anos, a jovem “nasce” já com uma missão dada por seus guardadores, os Oankali, alienígenas com habilidades tecnológicas assombrosas: Lilith foi escolhida para despertar os outros humanos postos em suspensão, bem como prepará-los para o seu retorno a Terra.

“Quantas vezes você consegue suportar que todas as pessoas sejam tiradas de você e ainda ter a determinação de recomeçar?”


Fonte: www. xenogenesisproject.blogspot.com

Os Oankali são uma das criações mais interessantes de Octavia Butler. Com um corpo levemente humanoide, as criaturas possuem protuberâncias pelo corpo que se assemelham a tentáculos, feito que desagrada e choca Lilith e os demais humanos quando finalmente conhecem aqueles que os salvaram (ou capturaram) de uma Terra destruída e inabitável. Extremamente inteligentes, os alienígenas não apenas possuem tecnologia avançada, como também são especialistas em engenharia biogenética, sendo eles mesmos frutos de intensas adaptações evolutivas, genéticas, mutualísticas e simbióticas pelo contato com diversas outras raças extra-solares. Possuindo três gêneros, os Oankali tem um relacionamento plural, não vinculado exclusivamente pelo lado emocional ou afetivo; além disso, é comum que se vejam como mercadores de genes, aproveitando-se de suas características superiores para se manter em constante evolução.

Nikanj é um ooloi, o gênero assexuado dos Oankali, de um ramo familiar especificamente criado para acompanhar a transição dos humanos de volta à Terra, tão logo o momento chegue. Butler aproveita esse ponto para convidar os leitores a observar o relacionamento e convívio entre raças tão díspares. É importante ressaltar a reflexão gerada para as características não consensuais que ocorrem, bem como para o tema da bioética, já que os Oankali dependem da permuta genética para sobreviver, enquanto realizam inúmeras adaptações em organismos vivos, como em sua nave, seus alimentos, seu próprio corpo e com o corpo dos humanos resgatados.

Não obstante, há a relevância de se escolher uma protagonista feminina e negra para guiar o renascimento e o retorno da raça humana ao planeta Terra. Octavia propõe uma discussão valiosa quanto ao feminismo em sua trama, a constante sensação de medo em não se saber até que ponto seus guardiões dizem a verdade, até onde seus interesses se estendem, aliado ao perigo de se despertar pessoas que inevitavelmente a conectarão aos monstros que os prenderam dentro de uma nave-cidadela. Lilith está sozinha e precisa se decidir entre continuar vivendo uma vida cativa ou mergulhar em uma Terra reconstruída do zero, diferente certamente mais selvagem.

“Luto era luto, pensou. Era dor e perda e desespero, um fim abrupto onde deveria ter havido continuidade”.

Despertar é mais uma prova da habilidade assustadora de Octavia E. Butler de construir narrativas organicamente vivas; um verdadeiro ensaio plausível de se inspirar, cujos temas políticos, bioéticos, históricos e socioculturais levam a reflexão ao leitor. Dotado de beleza e de uma dose de estranheza, com personagens inesperadamente comoventes, o primeiro volume da série Xenogênese ascende como um romance que versa sobre o significado de ser humano e, essencialmente, de ter identidade.

Despertar Book Cover Despertar
Xenogênese #1
Octavia Butler
Sci-Fi
Editora Morro Branco
2018
352

Há vida inteligente lá fora e é ela que salva a humanidade de si mesma.

Quando Lilith Iyapo desperta após 250 anos de animação suspensa, descobre que o planeta Terra e os seres humanos sobreviventes de uma guerra catastrófica estão sob a guarda dos Oankali, uma espécie alienígena com habilidades e tecnologias tão impressionantes quanto sua aparência é repulsiva.

Lilith foi escolhida para despertar e preparar outros seres humanos para finalmente retornarem ao planeta natal. A Terra está novamente habitável há pouco, porém em condições bem diferentes do que conheciam. Assim, os humanos precisarão desenvolver suas habilidades de sobrevivência, enquanto Lilith terá que superar as próprias suspeitas para liderá-los nessa nova etapa – além de decidir se vale a pena andar sobre a linha do que nos define como humanos.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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