Na medida em que nos aventuramos mais e mais no mundo da literatura, da leitura, a tendência é que os caminhos que escolhemos percorrer fiquem cada vez mais difíceis de prever. Quando decidi ler O Oceano no Fim do Caminho — uma escolha totalmente despretensiosa —, não imaginava que eu mergulharia de cabeça, alguns anos depois, no universo dos quadrinhos. A magia que Gaiman realiza em seus romances fica ainda mais agradável quando é transposta para as histórias em quadrinho. Dessa forma, não poderia perder a leitura de mais uma adaptação de seus livros.

Neil Gaiman, autor de mais de vinte títulos publicados, um dos principais nomes do mundo dos quadrinhos, com Sandman, e com romances tão adorados como Coraline, Deuses Americanos e O Livro do Cemitério — todos igualmente convertidos para o universo das graphic novels —, e vencedor de importantes prêmios, tais como o Hugo e o Bram Stoker, retorna a mais uma parceria com o talentoso ilustrador e quadrinista, P. Craig Russell, contando ainda com o apoio de Scott Hampton, outro grande desenhista e ilustrador, que conta com trabalhos nas séries de Sandman, Batman e Hellraiser. Um time bem conhecido e que normalmente produz boas obras.

“O homem sorriu. Shadow se lembrou de um programa educativo sobre chimpanzés. Quando o animal sorri, é para expor os dentes, numa careta de ódio ou hostilidade. É uma ameaça. Aquele era um sorriso desses.”

Cena da série da Amazon Prime

Embora eu já tenha lido e escutado um mar de opiniões bem diversificadas a respeito do romance homônimo de Gaiman — que recebeu uma adaptação em série para o serviço de streaming da Amazon Prime —, devo dizer que a minha experiência com o quadrinho lançado recentemente pela editora Intrínseca foi muito boa. Não somente o trabalho editorial foi bem realizado, que entregou em capa cartão, com orelha — e convenhamos, bem mais agradável de ler do que em capa dura — e miolo em papel couché fosco 90g, mas todo o roteiro e as ilustrações, que casaram extremamente bem, ressaltaram toda a qualidade do quadrinho.

Em Deuses Americanos: Volume 1 – Sombras, somos apresentados ao protagonista da história, Shadow Moon, um detento que já completava cerca de três anos na prisão. Shadow evita confusões e qualquer coisa do tipo que possa prejudicá-lo em seu desejo de ficar livre o quanto antes. Por isso, seu maior problema ali é como fazer para passar o tempo. Entre aprender truques com moedas, ficar em forma, ler clássicos, pensar na esposa e contar os dias, Shadow vai se mantendo vivo.

Uma semana antes de finalmente ser liberado, depois de ter passado por uma entrevista com um oficial um tanto quanto constrangedora, Shadow começa a ter pressentimentos estranhos, sensações ruins, e parece entrar em um momento de paranoia, como se sentisse a iminência de um desastre. Sem conseguir tirar esse gosto ruim da boca, Shadow chega ligar para a esposa, para confirmar se tudo estava bem.

A vida de Shadow Moon começa a se transformar após uma reunião com o diretor da prisão, e, como era de se esperar, sem nenhuma surpresa, após a sua soltura. É a partir desse ponto que o título do livro começa a fazer sentido, quando a mitologia clássica da literatura toma as rédeas da trama e quando o próprio Gaiman, aliado ao roteiro e layout de Craig Russell, apresentam uma nova mitologia, em uma reinvenção absolutamente contemporânea, divertida e, nos momentos certos, assustadora.

“Diga a ele que a linguagem é um vírus, a religião, um sistema operacional, e as orações não passam de spams de merda.”

Trecho da HQ

Não é muito fácil falar do enredo de Deuses Americanos sem se desviar de uma série de obstáculos denominados aqui como spoilers. A graça da experiência em ler esse quadrinho é justamente nas novidades do texto e do roteiro da dupla citada acima.

A respeito das personagens, temos duas que se ressaltam bastante no texto: a primeira é o próprio Shadow Moon, um ex-detento, aparentemente arrependido de seus erros, negro, de personalidade firme, inteligente e participação bastante ativa, cujos diálogos aproximam o leitor da história, seja por sua perspicácia, seja por suas reflexões, muitas vezes implícitas; e a segunda é Wednesday, nosso coadjuvante de ares ancestrais, um velho ludibriador que parece manter uma teia de contatos bastante eclética. Além deles temos Laura, esposa de Shadow, por exemplo, que agraciada com os traços de Hampton, produz a aura certeira para a complexidade da personagem.

O cenário vive em constante transformação, proporcionando muita diversidade de espaços, que não somente embelezam os quadros, mas também dão mais substância ao texto.

Além da história principal, Deuses Americanos conta com subtramas, pequenas histórias que ficam em segundo plano, mas que normalmente retratam cenas muito bonitas e extremamente reflexivas. Ainda assim, essas cenas mantêm certo nível de conexão com a trama principal.

Deuses Americanos: Volume 1 – Sombras é o primeiro volume da trilogia que adapta o romance homônimo para o universo dos quadrinhos, com a qualidade dos traços de Scott Hampton e do roteiro habilidosamente escrito por Craig Russell. Dotado de um frescor contemporâneo bem-vindo, o quadrinho levanta uma série de críticas sociais, versando de personagens fantásticos e representativos que não se perdem nas generalizações da literatura. Ainda que o romance de Gaiman possa não ter agradado a todos, a sua adaptação resgata toda a fluidez no texto que só uma graphic novel consegue reproduzir. O gosto final? É o de ansiedade pelo próximo volume!

Deuses Americanos - Vol. 1 Book Cover Deuses Americanos - Vol. 1
Deuses Americanos
Neil Gaiman
Fantasia
Intrínseca
02.04.2018
HQ
264

O grande clássico de Neil Gaiman agora em quadrinhos

Mistura de road trip, fantasia e mistério, o romance Deuses americanos alçou Neil Gaiman à fama mundial e ao posto de um dos maiores escritores de sua geração. Agora, os fãs de quadrinhos e da obra-prima do autor têm mais um motivo para celebrar: chega às livrarias o primeiro volume das graphic novels inspiradas em Deuses americanos . Ao todo, serão três volumes.

Em Sombras , as cores e os traços vibrantes de P. Craig Russell e Scott Hampton nos apresentam Shadow Moon, um ex-presidiário de trinta e poucos anos que acabou de sair da prisão e descobre que sua mulher morreu em um acidente de carro. Sem lar, sem emprego e sem rumo, ele aceita trabalhar para o enigmático Wednesday e embarca em uma viagem tumultuada e reveladora por cidades inusitadas dos Estados Unidos. É nesses encontros e desencontros que o protagonista se depara com os deuses — os antigos (que chegaram ao Novo Mundo junto dos imigrantes) e os modernos (o dinheiro, a televisão, a tecnologia, as drogas) —, que estão se preparando para uma guerra que ninguém viu, mas que já começou. O motivo? O poder de não ser esquecido.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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