Considerada uma das melhores histórias em quadrinhos lançada em 2017 aqui no Brasil por vários canais especializados no meio, Elric: o trono de rubi, lançado no selo Gold Edition pela editora Mythos Books já estava na minha lista de desejados há uns meses, pedindo para ser comprado. Aproveitando que esse ano eu havia me comprometido a ler outros formatos e outros gêneros, não resisti e adquiri esse quadrinho baseado na icônica obra de Michael Moorcock, mesmo sem conhecer muito sobre esse clássico da fantasia. E, definitivamente, após terminar a leitura, fiquei impactado.

“A glória de Melniboné não foi forjada no silêncio das bibliotecas… mas no sangue, no terror e nas almas pisoteadas de seus inimigos. Fizemos reinos tremerem e estilhaçamos impérios apenas com o som de nosso nome!”

Trecho da HQ

Elric: O Trono de Rubi nada mais é do que a adaptação em quadrinhos mais fiel já realizada baseada na obra de Michael Moorcock, recebendo, inclusive, a benção do próprio autor, que comenta nos extras da edição, como uma introdução à obra, que os artistas envolvidos, Poli, Recht e Bastide — para a primeira parte da história, especialmente — conseguiram captar com maestria a decadência que ele desejava passar com o romance. Quando o próprio autor elogia uma adaptação desse tipo é porque existe algo de muito especial na obra retratada. E realmente há!

Como um clássico da fantasia, Elric surge como uma literatura de fantasia extremamente sombria, mais crua, perversamente cruel e sanguinolenta. Seu enredo não sofre com censuras e abusa impiedosamente de recursos violentos para pintar um quadro de uma sociedade literalmente decadente, onde a raça de Melniboné, um poderoso império, não guarda qualquer apreço para com as demais raças, em especial para com a humana, que vive em condições de escravidão e tortura, enquanto é criada, inclusive, em certos casos, como gado.

Diferentemente de qualquer livro de literatura fantástica e seus subgêneros que eu já me aventurei em ler, Elric é, talvez, o precursor de uma literatura mais dark, como conhecemos atualmente. Moorcock encarna em sua raça melniboneana, um senso de moralidade diferente do comum, além de sua própria rejeição a muitos pressupostos morais com os quais foi defrontado na Grã-Bretanha do pós-guerra, uma nação insular que um dia já governara o mundo conhecido. Além disso, é recorrente em suas obras a temática do fim de um império, simbolizado por sua raça fantástica.

Esse primeiro volume da editora Mythos entrega aos leitores duas histórias muito bem roteirizadas e impressionantemente ilustradas e colorizadas (cores dadas pelos artistas Scarlett Smulkowski, Robin Recht e Jean Bastide). São elas: O Trono de Rubi e Stormbringer.

— Em O Trono de Rubi, temos a apresentação de Melniboné e seu povo, bem como o nascimento de Elric, Lobo Branco, Joguete dos Deuses, Campeão de Arioch, Assassino de teu Povo, filho de Sadric… e Último Imperador de Melniboné. Somos apresentados a um império em decadência, cujo imperador albino, de saúde fraca, amaldiçoado no nascimento, talvez, deve enfrentar a aversão de seus súditos, em especial de seu primo, Yyrkoon, além de uma frota que ameaça a soberania do trono de rubi.

São poucos os quadrinhos que conseguem fazer transparecer tão perfeitamente a personalidade das personagens envolvidas, zelando por dotá-las de características próprias, facilmente distinguíveis conforme a leitura avança. Normalmente isso é notável em romances do mesmo gênero, já que os quadrinhos prezam pela agilidade dos quadros, que dão mais movimento à história. Elric, graças ao trabalho primoroso de adaptação pelos artistas envolvidos no projeto é capaz de entregar aos leitores uma obra profunda e visceral, que consegue estimular certo medo e certa consternação pelas mesmas personagens. Além disso, os momentos em que há apenas uma narração onisciente, se lidas com tranquilidade, são capazes de fazer com que os leitores entrem em um estado de imersão absurda, de tão bem roteirizadas.

Feitiçaria, violência, muito sangue e outras imoralidades tingem as páginas e formam um quadro que introduz o leitor ao mundo terrível, mas não menos hipnotizante de Melniboné.

— Em Stormbringer, seguimos com a história sanguinolenta e triste de Elric, cuja amada Cymoril fora levada por Yyrkoon. Auxiliado pela figura demoníaca de Arioch, o imperador albino deverá realizar uma verdadeira cruzada por terra e mar em busca de salvá-la e de enfrentar seu inimigo. Aqui é perceptível o desenvolvimento das personagens, principalmente de Elric e Yyrkoon, que, aliados à arte fantástica dos ilustradores e coloristas, dão um novo significado ao roteiro.

Embora já conhecida pelo público mais antigo consumidor de fantasia, nessa história observamos como Elric consegue a famosa espada maliciosa Stormbringer, que, junto de sua irmã, Mournblade, fazem parte das Espadas Negras, Lâminas de Sangue e Filhas do Caos.

O destino de Elric e o futuro de seu império são traçados nesse conto, que reúne tudo o que pode dar significado à palavra ‘épico’ em uma história em quadrinhos.

“Aqueles que desejarem chorar sobre a tumba de seus irmãos, que fiquem aqui com eles”.

Trecho da HQ (disponível na Amazon BR)

O cenário da HQ foge às proporções normais, enquanto as personagens desenham o perfil da sociedade melniboneana. Um comentário em especial vai para a figura do Doutor Jest, que tem inspirações no trabalho de Clive Barker. Jest é muito provavelmente o personagem mais assustador que eu já pude ler. Imaginar vê-lo pessoalmente seria… bem, um teste para uma maratona, talvez.

Elric: O Trono de Rubi nasce como um trabalho excepcional, indicado a todos os leitores de boas histórias em quadrinhos. Com um roteiro habilidosamente desenvolvido e pensado, com ilustrações que não apenas impressionam pelos detalhes, mas também pela capacidade fabulosa de transmitir os sentimentos das personagens aos leitores e um trabalho de colorização insubstituível, Elric mescla a narrativa selvagem, visceral e imoral ao ambiente fantástico embebido de feitiçaria. Recomendadíssimo!

Elric Book Cover Elric
Vol. 1
Julien Blondel & Jean-Luc Cano
Fantasia
Mythos
2017
Físico

Em meio a traições, feitiços, espadas mágicas, acontece uma luta acirrada pelo poder. Elric, o imperador albino criado por Michael Moorcock deve enfrentar seu prImo Yyrkoon pelo controle do reino de Melniboné. E além de todos os perigos e armadilhas, os dois vão ter que lidar com as manipulações de Arioch, Senhor do Caos e Duque dos Infernos Abissais! Elric – O Trono de Rubi traz um dos personagens mais importantes do gênero “espada e feitiçaria”, inaugurando a nova linha de quadrinhos da Mythos: O selo Gold Edition, em formato diferenciado! Inclui um pôster especial de 68 cm x 104 cm!

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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