Talvez nem todo mundo se lembre da história que acompanha a aquisição de um livro, do momento em que o comprou ou recebeu de presente. Mas às vezes a gente guarda essa parte na memória pelo fato de serem momentos especiais. Sobre Filha das Trevas, o meu caso remonta a CCXP de 2017, quando, conversando com a Flávia Lago, então editora da Plataforma 21, me indicou que levasse esse lançamento junto do que eu havia ido procurar (O Último dos Magos). Devo ser sincero em dizer que aquela curta conversa e o plot ser ambientado no Império Otomano já foram suficientes para roubar o meu interesse.

Foto autoral

“Quando você tem uma coisa que todos querem, tem poder”.

Em Filha das Trevas, conhecemos Ladislav Dragwlya – Lada – e seu irmão caçula, Radu. Ambos são filhos de Vlad Dracul, o governante militar da Transilvânia, voivoda (príncipe) da Valáquia. Com a história se passando inicialmente durante a primeira metade do século XV, os leitores têm diante de si a reconstrução de uma época em que inúmeros conflitos na região da Hungria, Transilvânia, Moldávia, Sérvia e na extensão do Império Otomano e Bizantino ocorreram.

Lada é a única filha de Vlad Dracul e Vassilissa, tendo ainda outro irmão, mais velho, chamado Mircea, além do próprio Radu. Enquanto Lada é durona, muitas vezes inconsequente e fria, ela também ascende como uma jovem bastante inteligente, mais desejosa pelas batalhas e conquistas militares do pai do que pelas bonecas e pelo futuro frágil e aparentemente inevitável, aguardado pelos nobres pelo simples fato de ser mulher: se casar e gerar filhos. Lada não aspira algo assim, pois o que realmente quer se encontra ao seu redor: a Valáquia, sua terra-natal, bem como o reconhecimento pela figura do pai, a qual idolatra.

De outro lado temos Radu, o filho mais novo de Vlad. Radu é tudo o que Lada não é ou não consegue ser. Radu é mais gentil, mais delicado e consideravelmente mais amado pelas outras pessoas, ainda que seja desprezado pelo pai. Buscando a aprovação de Vlad, embora que por razões diferentes das de Lada, Radu demonstra certa força de vontade que inicialmente se mescla à solidão e à desilusão. Curiosamente, ao menos da forma como Kiersten White conduziu a sua narrativa, é mais fácil estabelecer um vínculo com Lada do que com Radu, meio insosso à história.

É quando Vlad Dracul é forçado a abandonar Lada e Radu para serem criados no coração do Império Otomano, sob o pretexto de paz entre as fronteiras e manutenção das posições de poder pelo Sultão Murad, que tudo se desenrola.

“Um dragão nas rastejava diante dos inimigos, implorando ajuda. Um dragão não receberia os infiéis em sua própria casa depois de jurar exterminá-los. Um dragão não fugiria de seus domínios no meio da noite como um criminoso qualquer”.

Por algum motivo que não me recordo bem, talvez induzido pelo título, acreditei que Filha das Trevas teria algo de literatura fantástica no meio da trama… Ledo engano. O romance de Kiersten White trata-se na verdade de uma ficção história realmente centrada no Império Otomano, consideravelmente rica e complexa, com a ressalva de uma pequena liberdade tomada pela autora, ao mudar a figura de Vlad, o Empalador, para uma personagem feminina.

Uma das coisas mais bacanas no livro é justamente a sua ambientação. A autora realizou uma série de pesquisas com a finalidade de reerguer ficcionalmente um dos mais interessantes impérios da história. Essa sensação de imersão é muito bem conduzida e consegue sustentar o clima de curiosidade por toda a trama. A cultura otomana e o funcionamento da sociedade são inseridos no texto pouco a pouco, permitindo que o leitor se acostume com as coisas e as estranhem inicialmente, claro, projetados representativamente pela figura de Lada.

Ao passo que Lada se torna uma jovem um tanto quanto arisca, avessa às transformações de uma criação otomana, além de se manter decepcionada pelo abandono do pai, no qual enxerga uma figura rebaixada e fraca; temos Radu, tão inteligente quanto a irmã, porém muito mais receptivo aos costumes do império, já que o seu desejo é não apenas ser amado pelos que o cercam, mas de ter a certeza de fazer parte de alguma coisa. A argamassa que une as duas figuras da Valáquia é Mehmed, o audacioso e solitário filho do Sultão, cujo papel é importantíssimo não apenas para a própria nobreza otomana, mas para o desenrolar da história dos jovens reféns valaquianos.

A narrativa de Kiersten White não se prende em demasia nos processos descritivos tão frequentes da ficção histórica. Além disso, na medida em que o leitor avança nas páginas, fica bastante interessante observar como a autora lidou com uma série de conflitos sociais e culturais que se mesclam à obra.

Nesse primeiro volume da série há certa dose de romance, todavia, não senti que houve prejuízo no fluxo da trama, muito menos uma dramatização exacerbada. Ainda assim, não omitirei que ao terminar a obra houve o estabelecimento, a germinação do que pode vir a se tornar um triângulo amoroso. Caso a autora saiba dosar bem, isso não comprometerá o plot da sequência, ainda mais considerando uma série de conflitos socioculturais estabelecidos até então.

Parte do mapa interno

“É assim que o mundo funciona. Você pode tomar a ofensiva, pode enfrentar os cruzados nas terras deles, ou pode ficar em casa esperando que eles venham. E eles viriam. Viriam trazendo o fogo, a doença, o sangue e a morte com suas espadas. A fraqueza é uma isca irresistível”.

Como primeiro volume o livro funcionou muito bem. Kiersten White foi bastante cuidadosa com a trama e manteve as descrições dos conflitos militares apenas nos diálogos das personagens, tão ouvintes quanto nós, leitores. Em Dona do Poder talvez encontremos essa dose visceral já conhecida dos fãs de Bernard Cornwell e Conn Iggulden, por exemplo.

Explorando a feminilidade e a real extensão do poder das mulheres, White promove a fusão de ficção e história, embebidas em uma narrativa épica que floresce em pleno coração otomano, em uma época em que as coroas de poder mudavam constantemente de mãos.

Filha das Trevas Book Cover Filha das Trevas
Saga da Conquistadora #1
Kiersten White
Ficção Histórica
Plataforma 21
11.08.2017
Físico
472

Lada Dragwlya e o irmão mais novo, Radu, foram arrancados de seu lar em Valáquia e abandonados pelo pai – o famigerado Vlad Dracul – para crescer na corte otomana. Desde então, Lada aprendeu que a chave para a sobrevivência é não seguir as regras. E, com uma espada invisível ameaçando os irmãos a cada passo, eles são obrigados a agir como peças de um jogo: a mesma linhagem que os torna nobres também os torna alvo. 

Lada despreza os otomanos. Em silêncio, planeja o retorno a Valáquia para reclamar aquilo que é seu. Radu, por outro lado, quer apenas se sentir seguro, seja onde for. E quando eles conhecem Mehmed, o audacioso e solitário filho do sultão, Radu acredita ter encontrado uma amizade verdadeira – e Lada vislumbra alguém que, por fim, parece merecedor de sua devoção. 

Mas Mehmed é herdeiro do mesmo império contra o qual Lada jurou vingança – e que Radu tomou como lar. Juntos, Lada, Radu e Mehmed formam um tóxico e inebriante triângulo que tensiona ao limite os laços do amor e da lealdade. 

Sombrio e devastador, este é o primeiro livro da mais nova série de Kiersten White. Cabeças vão rolar, corpos serão empalados… e corações serão partidos.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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