Desde o começo de 2018 eu decidi acompanhar os lançamentos do mundo dos quadrinhos, após boas experiências com a adaptação de A Guerra dos Tronos e com lançamentos do selo da Darkside Books, que contou com Wyches e Creepshow, por exemplo. Sendo assim, comecei a nutrir certo desejo por uma variedade de títulos do extenso catálogo da editora Mythos, que vem trazendo ao público nerd brasileiro grandes obras de renomados quadrinistas e ilustradores nas linhas Prime Edition e Gold Edition.

Fruto Estranho é uma história em quadrinhos que conta com o roteiro de Mark Waid — com trabalhos em O Reino do Amanhã, Superman: o Legado das Estrelas, além de participações em séries aclamadas do Demolidor, Quarteto Fantástico e Flash; atualmente escreve Archie, cujo primeiro volume saiu pela Geektopia, selo da editora Novo Século para quadrinhos — e ilustrações e roteiro de J. G. Jones — artista e roteirista nomeado ao Eisner, cujas principais participações foram em Viúva Negra, Antes de Watchmen: comediante, Y: o último homem e Procurado.

“Como se já não bastasse essa chuva toda caindo do céu, agora também vai cair fogo e enxofre? Aquilo não foi um raio!”

Trecho da HQ

Fruto Estranho conta a história de uma pequena cidade norte-americana chamada Chatterlee, no Mississippi. Waid e Jones levam os seus leitores em uma viagem no tempo, diretamente pelo passado, até o ano de 1927. Neste ano, os Estados Unidos atravessavam um momento de extrema tensão social, no que futuramente ficaria conhecido como a maior catástrofe fluvial do país. Chatterlle já experimentava a experiência de outras cidades da redondeza, que literalmente haviam mergulhado em águas turbulentas após a cheia do rio Mississipi.

A tensão pelo medo dos diques romperem pelo desgaste e pela força da natureza, ou pelo transbordamento oriundo das intensas chuvas de abril é tanto que o próprio governo envia engenheiros a fim de conferirem a situação das cidades-alvo, em busca de soluções para evitar ou minimizar a catástrofe iminente.

À Chatterlee desembarca de trem o senhor McCoy, enviado de Washington devido à emergência de caráter nacional. Neste ponto, em específico, é bastante interessante prestar atenção quanto à forma que ele é recebido na cidadezinha. Se analisarmos o quão recente havia sido a Guerra de Secessão que dividiu os Estados Unidos em Norte abolicionista e Sul escravagista, e considerarmos a origem negra de McCoy e o fato de ele ser letrado e engenheiro, mais culto que grande parte da população local majoritariamente branca, é de se esperar certa aversão quanto à presença do ilustre McCoy.

Embora a escravidão tenha sido abolida, Fruto Estranho consegue de maneira magistral reconstruir toda a ambientação e costumes do final da década de 1920, quando os negros mesmo livres eram tratados de maneira estritamente desigual, não apenas socialmente, mas no trabalho, em cargas horárias absurdas e mísera remuneração, mantendo de certa forma o aspecto escravagista; e que atravessaria ainda a Grande Recessão, a quebra da bolsa, em 1929. Esse cenário, de uma sociedade elitista branca e opressora aos negros, bem como da desvalorização da figura da mulher se ergue através de um roteiro bem escrito, com fundamentação histórica e ganha mais volume graças aos traços fantásticos de J. G. Jones, que produz verdadeiros quadros com o roteiro.

“O problema mesmo é que hoje em dia tem muito criolo de terno por aqui… e pouco enchendo sacos de areia.”

Trecho da HQ.

Fruto Estranho poderia ser apenas um quadrinho de ficção histórica, mas tanto Jones quanto Waid entregam uma obra que se funde de maneira equilibrada com a própria ficção científica: trata-se de uma união arriscada, mas que casa surpreendentemente bem dessa vez, o que faz resgatar os ares agradáveis de outra HQ da editora Mythos, A Guerra dos Mundos, uma adaptação da obra homônima de H. G. Wells.

Em meio à crescente cheia do Rio Mississipi, Chatterlee presencia a queda de um objeto vindo do céu. Simultaneamente, um garoto nas proximidades desaparece sem deixar rastros e um negro gigante, um verdadeiro colosso emudecido surge em Chatterlee. Haverá alguma ligação entre esses três eventos estranhos?

Peças históricas como a Klu Klux Klan e outros aspectos de segregação racial — o leitor atento perceberá nos cenários bares para negros, bibliotecas exclusivas para brancos e muito mais — estão presentes no quadrinho, agregando carga histórica e dramática que também se une nos momentos ideais à ficção científica.

Enquanto outras cidades desaparecem pelas inundações catastróficas do Mississipi, a pequenina e agrícola Chatterlee deverá enfrentar uma fase ainda mais estranha e assustadora de sua história. Com traços quase fotográficos e um roteiro instigante e desafiador, Fruto Estranho promove uma importante reflexão histórico-social sobre um momento crucial na história humana, seja por suas consequências que ainda ribombam para a contemporaneidade, seja pela dura realidade de sua época. Há uma profusão de coisas acontecendo em Fruto Estranho, e, ao terminar a leitura, não é de se assustar que esse pensamento — a questão de raça nos quadrinhos —, grite em nossa mente. É esperado. É necessário. Afinal, não é o grito de um, mas o de uma legião esquecida, cujo som rompe os tecidos do próprio tempo.

Fruto Estranho Book Cover Fruto Estranho
J. G. Jones & Mark Waid
Mythos
09.04.18
Físico

Na pequena cidade de Chatterlee, Mississippi, a Grande Enchente de 1927 não foi apenas a mais catastrófica enchente fluvial na história dos Estados Unidos. Foi a precursora da mudança. Enquanto o rio transbordante e as barreiras quebradas resultavam na devastação da antiga cidade agrícola por fora, tensões raciais e sociais a rasgavam por dentro. Mas quando um ser de outro mundo cai do céu e desafia tudo que essas pessoas divididas sabiam, as coisas se modificam para sempre. J.G. Jones (Procurado) e Mark Waid (Império, Reino do Amanhã) tecem uma poderosa e literária peça de ficção histórica com arte pintada que examina o mito heroico ao mesmo tempo que explora temas como racismo, legado cultural e a natureza humana.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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