Algumas coisas não têm volta nas nossas vidas, mas também não são menos satisfatórias. Após ter adquirido e lido Beasts of Burden: rituais animais, uma belíssima história em quadrinhos da editora Pipoca & Nanquim, acabei me apaixonando pelo trabalho excepcional da equipe envolvida nesses lançamentos. Trazendo obras que ou estavam há muito tempo sem uma edição nacional ou que sequer tiveram a chance de figurar no nosso mercado editorial tupiniquim, Pipoca & Nanquim mantém, em parceria com a Amazon no Brasil, uma frequência mensal de lançamentos interessantíssimos para os amantes de gibis, HQs e graphic novels. Com Marada, lançamento de fevereiro de 2018, não poderia ser diferente.

Marada: a Mulher-Lobo é um trabalho conjunto de Chris Claremont (roteirista de HQs altamente respeitado por seus trabalhos em Wolverine, Novos Mutantes, Marvel Team-Up, Punho de Ferro, Doutor Estranho e Fabulosos X-Men, detentor do arco fundamental da Saga da Fênix Negra), no roteiro, e do habilidoso John Bolton (Os Livros da Magia, Sandman, Morcego Humano), nas ilustrações.

Foto por Dhiego Morais

Fruto do início dos anos 80, em uma época completamente dominada pelos super-heróis da Marvel e da DC, Marada nasce como uma proposta de contar a história de uma guerreira que não mais figurasse como coadjuvante, mas que fosse personagem central, ambientado, claro, em um roteiro que bebia diretamente do gênero de Espada & Feitiçaria. Por trás da cortina desse palco surge Chris Claremont, reconhecido por suas personagens femininas fortes, que, logo em seguida alicerçaria Marada no mercado internacional com o auxílio de John Bolton.

“A liberdade não é um presente, Starhair. Ela deve ser merecida ou conquistada”.

Em Marada: a Mulher-Lobo, conhecemos a história da uma vez imponente guerreira, filha de Roma, selvagem tal como um lobo. Sua mãe era primogênita de César e seu pai fora um príncipe de suas terras e escravo em Roma. Ainda aos quatro anos, Marada viu o pai ser estripado e esquartejado em uma execução pública, ainda que não tenha emitido qualquer som. Fugindo com a mãe logo em seguida, hoje Marada é uma mulher forte, uma guerreira respeitada e temida em todo o Império de Roma. Ou assim ela já fora um dia…

Nesse petardo lançado pela Pipoca & Nanquim, foram reunidos as três histórias lançadas de Marada, intituladas como: A Espada Estilhaçada, A Caçada Real e A Farsa do Bruxo.

— Em A Espada Estilhaçada, a primeira história lançada, encontramos uma Marada em declínio, muito distante de toda a sua fama de guerreira poderosa e selvagem. Após uma breve luta com os partas, ela é resgatada por Donal MacLlanllwyr e seus legionários. Entretanto, encontrando uma jovem calada e quase inerte, um fantasma de si mesma, o comandante decide tirá-la do campo sangrento e levá-la até a fortaleza, lugar imponente e regido por sua mãe, Rhiannon, a Senhora das Artes Arcanas. Há algo de errado com a guerreira feroz, isso é certo. Lá, na fortaleza, Marada também conhece a filha de Donal, Arianrhod, uma curandeira e aprendiz das Artes. Em pouco tempo a história toma novos ares, embalados pelas ilustrações fantásticas de Bolton. Lutas bem coreografadas, feiticeiros arcanos, marcas sinistras e demônios tomam forma. Uma bela introdução à Marada, resumidamente.

A Caçada Real é, talvez, a história mais interessante da coletânea. Aqui, Marada Starhair, a Mulher-Lobo, junto de Arianrhod, se encontram nas planícies áridas do leste africano, alistadas em uma rebelião que deseja tomar o trono do Leão de Meroé, comandado pela soberana rainha Candace Ashake. Poupadas de serem mortas graças à intervenção da rainha, que também detém título de feroz guerreira, propõe à Marada e Arianrhod um jogo por sua liberdade: uma caçada, em que a presa, dessa vez, será a temida Marada, a Mulher-Lobo, Filha de Roma. Habituada a nunca fugir de seus desafios, a guerreira romana deverá experimentar ser caçada pela figura de uma rainha tão mortal quanto ela, enquanto, paralelamente, o reino de Meroé efervesce. Conto extremamente bacana, pois se centraliza em duas personagens imponentes e de personalidades marcantes.

Foto por Dhiego Morais

A Farsa do Bruxo prossegue com a história de Marada e Arianrhod, em sua busca por voltar à fortaleza de Rhiannon. O ano é 760 e as nossas protagonistas navegam a bordo do navio mercante Corvo, partindo de Alexandria em direção à Brindisi e Massília. Em uma tentativa de usar seus poderes de feitiçaria para transportá-las de volta para casa, a jovem Arianrhod acaba gerando um portal monstruoso que suga Marada para outro local no tempo e no espaço. Aterrissando em outro navio, a Mulher-Lobo acaba conhecendo Taric Mão Rubra, que a ajuda a chegar à Djeriabar, a Ilha Negra, lar do Bruxo Jaffar, talvez o único capaz de devolvê-la ao Corvo e, portanto, à Arianrhod de maneira mais rápida e segura. Trata-se de uma história bem interessante, com ótimas lutas, um desenvolvimento maior de Marada, além de contar com elementos clássicos de espada e feitiçaria.

“Nasci em uma noite parecida. Os trovões eram tão altos que chacoalharam Roma. O céu e meu cabelo prateado… minha mãe me dizia que me marcaram como uma filha dos deuses”.

Marada: a Mulher-Lobo é leitura essencial para os amantes dos clássicos de Espada & Feitiçaria, de elementos como Conan, o bárbaro, Solomon Kane e Elric de Melniboné. Um clássico remasterizado, compilado em volume único pela primeira vez é uma chance incrível para alimentar a bagagem literária dos amantes de quadrinhos e de literatura fantástica, de maneira mais abrangente. Um épico sobre um ícone de personagem feminina, independente e completamente feroz.

Marada: a Mulher-Lobo Book Cover Marada: a Mulher-Lobo
Chris Claremont & John Bolton
Fantasia
Editora Pipoca & Nanquim
25.02.2018
Físico: capa dura
112

De Chris Claremont, autor best-seller do NY Times, grande arquiteto do mundo mutante da Marvel, responsável pela popularização dos X-Men, e aclamado roteirista de heróis como Wolverine e Quarteto Fantástico, e John Bolton, o celebrado artista de Livros da Magia, Sandman, Morcego Humano e Drácula, chega uma verdadeira obra-prima da fantasia, Marada: a Mulher-Lobo! Marada, a maior guerreira que o Império Romano já conheceu, cuja menção do nome faz até mesmo os homens mais corajosos tremerem, uma mulher capaz de derrubar impérios, jaz alquebrada, derrotada, entregue e indefesa. Quem ou o quê teria sido capaz de dobrar os joelhos da espadachim dos cabelos prateados? Acompanhe os aliados da heroína desvendando as respostas para essa indagação, em meio a uma jornada épica de feitiçaria, barbarismo, guerras e traição.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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