Alguns livros são poderosos demais para serem traduzidos em tão poucas palavras. Alguns livros são tão intensos que transbordam em nossa própria alma e nos fazem refletir o porquê de não termos lido antes. Marina é, talvez, a resenha mais difícil que eu me arrisco a escrever.

“A vida concede a cada um de nós apenas alguns raros momentos de pura felicidade. Às vezes são apenas dias ou semanas. Às vezes anos. Tudo depende da sorte de cada um. A lembrança desses momentos nos acompanha para sempre e se transforma num país da memória ao qual tentamos regressar pelo resto de nossas vidas, sem conseguir.”

Carlos Ruiz Zafón é, atualmente, um dos autores espanhóis mais aclamados, com livros extremamente cultuados pelos leitores, como a série de livros que se inicia em A Sombra do Vento. Bastante premiado e honorado na Espanha, Estados Unidos, Reino Unido e França, Marina é o seu quarto romance, publicado originalmente em 1999 na Espanha, além de configurar, como o próprio autor diz em suas notas, provavelmente o seu livro favorito. E, cá entre nós, depois que se termina essa história, não é difícil compreender o porquê disso tudo.

Em Marina, Zafón nos guia por cerca de duzentas páginas de uma narrativa que mais se assemelha a uma verdadeira obra de arte, obra esta que brinca entre técnicas clássicas e contemporâneas, compondo uma visão deslumbrante e hiper-realista de uma Barcelona do final do século XX, mágica, misteriosa e sedutora.

Óscar Drai é um rapaz de aproximadamente quinze anos e que vive em um internato nas margens da estrada de Vallvidrea, na cidade majestosa de Barcelona. Apesar de ter alguns amigos, como JF, por exemplo, rapaz de olhos penetrantes e temperamento nervoso, alma de poeta libertário e uma consciência de hipocondríaco, Óscar gastava a maior parte de seu tempo livre pelas ruas da cidade, desbravando os corredores históricos e se encantando com a arquitetura das construções. É numa dessas aventuras que ele se depara com um antigo casarão com ares de abandonado. Entre as grades do portão, um gato de pelagem cinzenta e aveludada se destacava, portando inescrupulosamente um pardal agonizante entre os dentes pontiagudos. Atraído tal como ferro ao imã, Óscar se vê em direção à portentosa casa, onde uma doce música podia ser ouvida. Deslumbrado não somente com o interior vagamente iluminado, mas também com um relógio de bolso quebrado em cima da mesa, o jovem tem o encanto subitamente rompido, quando uma sombra se projeta em sua direção rapidamente. Assustado, Óscar corre com todas as suas forças, e com ele, leva também o brilhante relógio.

“Só as pessoas que têm algum lugar para ir podem desaparecer.”

Marina by Sophie De La Villefromoit

Marina não é um suspense que preze exclusivamente pelos momentos de frenesi, ou ainda pelos momentos de tensão, de ação. Alguns leitores podem, então, imaginar que Zafón entregue uma escrita lenta e sonolenta, todavia, de maneira magistral isso é o que menos ocorre. As descrições – que são fartas – são tão bem pensadas e encaixadas na narrativa, com adjetivações agradáveis e com uma condução que brinca com a contação de histórias e transita entre o onírico e o real, que torna fácil a nossa capacidade de imergir nas palavras do autor; o leitor lê sem perceber que viajou por horas. Essa habilidade, não apenas de tornar um personagem crível, mas de soerguer um cenário fantástico diante de nossos olhos e nos fazer viver como uma personagem da obra, essa habilidade poucos autores têm tão bem, e menos ainda são capazes de trazer essa sensação à tona logo na primeira aventura de seus leitores.

Sentindo-se culpado pelo furto, Óscar retorna ao casarão e lá, vindo de bicicleta conhece a garota de olhos sagazes e pele pálida, aparentemente de sua idade: Marina. Entre o sarcasmo e a fúria oculta da jovem, ele devolve o relógio ao dono, dito Gérman, pai de Marina. A figura do gato – aquele do portão, chamado Kafka – parece surgir sempre das sombras, mas desempenha um papel bastante interessante no romance.

Sem que perceba como e quando, Óscar estabelece um vínculo bastante próximo dos residentes do antigo casarão. Gérman é um senhor de bastante idade, outrora pintor habilidoso, hoje uma figura de saúde frágil, mas alma fulgurosa, capaz de cativar rapidamente com o seus modos clássicos e cavalheirescos e suas palavras sábias e encantadoras. Igualmente apaixonante temos Marina, que cuida do pai e do gato arteiro; cujos olhos experientes vivem a sede da curiosidade e das aventuras juvenis.

Em uma de suas aventuras, Zafón nos convida a investigar os motivos enevoados de porque uma estranha senhora vive indo ao cemitério, por flores sobre uma lápide sem nome. É aqui que o romance toma rumos inesperados e onde o autor surpreende a cada virada de capítulo, inserindo doses de suspense e terror, enquanto brinca com os limites do fantástico e do real, entre incursões às ruas desertas, ícones históricos e arquitetônicos de Barcelona, estufas seladas pelo mato e quartos de casarões e internatos.

Não é difícil se afeiçoar a Óscar, o nosso narrador. Há certa solidão o arrodeando, bem como a benevolência e o carisma de um coração à espera de ser amado. O autor nos leva a sentir empatia não apenas por Óscar, mas subitamente por todas as personagens centrais. De um modo ou outro, o leitor certamente estabelecerá vínculos, seja com o Óscar, seja com Marina ou Gérman.

A própria Barcelona emerge como uma cidade-personagem de Marina. Aos mais nostálgicos ou experientes, talvez se recordem de que isso também ocorre em O Cortiço, de Aluísio Azevedo e na longa série do Império Malazano, por Steven Erikson e Ian C. Esslemont. Entretanto, a Barcelona de Marina não só orgânica, mas é também bastante poética.

Quem procura uma obra que funcione como pontapé para ler Zafón, Marina é com absoluta certeza uma boa opção. Em sua narrativa, o leitor pode esperar com conforto encontrar de uma narrativa calorosa e personagens bem delineados, até a abordagem de temas que flutuam entre o emocional e o nostálgico. Família, solidão, amor juvenil, empatia com o próximo, busca por justiça e, sobretudo, saudade são temas recorrentes, entremeados por uma série de passagens memoráveis.

“A juventude é uma namorada caprichosa, que a gente não entende nem valoriza até o dia em que ela vai embora com outro, para nunca mais voltar.”

Foto por Ulf Andersen

Uma dica para aqueles que cogitam ler esse livro é simplesmente se “jogar” na leitura, sem buscar demasiadamente sobre o enredo e, se possível, sem ler a sinopse completa que acompanha o livro. Normalmente não sigo todas essas regras, haha, mas com Marina eu simplesmente peguei e disse a mim mesmo: vou ler. E li. E foi uma das melhores experiências que tive esse ano.

Com um final que entrega o auge da narrativa de Zafón, cujo espírito do livro emociona e acalenta o coração de quem lê, Marina nos provoca a olhar diretamente para nossa alma, para dentro de nós mesmos, enquanto nos faz refletir sobre a efemeridade das coisas. Uma história cheia de camadas, tão profunda que simplesmente transborda feito ondas dentro de cada leitor. Terminar é perceber que é possível respirar embaixo d’água e que quanto mais fundo se permite ir, mais se descobre.

Não é fácil escrever sobre aquilo que nos toca direto no coração.

Marina Book Cover Marina
Carlos Ruiz Zafón
Ficção
Suma
03.10.2011
Ebook
192

Antes de lançar o best-seller mundial que o consagrou, com mais de 10 milhões de exemplares vendidos, Carlos Ruiz Zafón já tinha escrito diversos outros livros no início de sua carreira. Dentre esses, Marina, que já contém alguns dos traços estilísticos presentes em A Sombra do Vento, é o último antes do grande sucesso literário de Zafón. "De todos os livros que publiquei, Marina é um dos meus favoritos", afirma Zafón. "É possivelmente o mais indefinível e difícil de categorizar de todos os romances que escrevi, e talvez o mais pessoal de todos eles. Neste livro, Zafón constrói um suspense envolvente em que Barcelona é a cidade-personagem, por onde o estudante de internato Óscar Drai, de 15 anos, passa todo o seu tempo livre, andando pelas ruas e se encantando com a arquitetura de seus casarões. É um desses antigos casarões aparentemente abandonados que chama a atenção de Óscar, que logo se aventura a entrar na casa. Lá dentro, o jovem se encanta com o som de uma belíssima voz e por um relógio de bolso quebrado e muito antigo. Mas ele se assusta com uma inesperada presença na sala de estar e foge, assustado, levando o relógio. Dias depois, ao retornar à casa para devolver o objeto roubado, conhece Marina, a jovem de olhos cinzentos que o leva a um cemitério, onde uma mulher coberta por um manto negro visita uma sepultura sem nome, sempre à mesma data, à mesma hora. Os dois passam então a tentar desvendar o mistério que ronda a mulher do cemitério, passando por palacetes e estufas abandonadas, lutando contra manequins vivos e se defrontando com o mesmo símbolo - uma mariposa negra - diversas vezes, nas mais aventurosas situações por entre os cantos remotos de Barcelona. Tudo isso pelos olhos de Óscar, o menino solitário que se apaixona por Marina e tudo o que a envolve, passando a conviver dia e noite com a falta de eletricidade do casarão, o amigável e doente pai da garota, Germán, o gato Kafka, e a coleção de pinturas espectrais da sala de retratos. Em Marina, o leitor é tragado para dentro de uma investigação cheia de mistérios, conhecendo, a cada capítulo, novas pistas e personagens de uma intrincada história sobre um imigrante de Praga que fez fama e fortuna em Barcelona e teve com sua bela esposa um fim trágico. Ou pelo menos é o que todos imaginam que tenha acontecido, a não ser por Óscar e Marina, que vão correr em busca da verdade - antes de saber que é ela que vai ao encontro deles, como declara um dos complexos personagens do livro.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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