Mais a frente, rompendo orgulhosamente o espelho d’água no horizonte, um poderoso esguicho se projeta, seguido pelo surgimento de um monte amorfo e opaco, quando por fim uma cauda golpeia e afunda no oceano. O navio encaminha o capitão ensandecido, sedento por um último e definitivo enfrentamento: ele deseja Moby Dick.

Há alguns anos, quando eu ainda estava no ensino médio, vivi uma fase bastante atípica de descobrimento de obras clássicas da literatura nacional e mundial. Foi nessa fase, por exemplo, que eu tive a oportunidade de ler O Médico e o Monstro, Dom Quixote, A Divina Comédia, Otelo, Macbeth, A Relíquia, O Cortiço e etc. Entretanto, alguns títulos permaneceram somente no desejo, já que a coragem para encarar não apareceu. Nesse quesito, cito Frankenstein e Moby Dick.

“Se o mais distraído dos homens estiver mergulhado em seus mais profundos devaneios, erga-o sobre suas pernas, ponha-o para andar, e ele infalivelmente o levará até a água”.

Trecho da HQ. Fonte: Amazon Brasil

Aproveitando que me redescobri nas histórias em quadrinho, mangá e graphic novels, finalmente adquiri um clássico da literatura de ficção, dessa vez nascido de uma adaptação para HQs pelas mãos habilidosas de Chabouté. E devo dizer desde já: é brilhante!

Moby Dick conta a história de Ishamael, um rapaz que deseja conhecer o mundo e, por que não, caçar baleias. Para isso, o jovem se dirige para a ilha de Nantucket, onde busca abrigo do mal tempo na Estalagem do Jato. É aqui que o nosso personagem retraído entra em contato com uma das figuras mais excêntricas da obra: Queequeg, um arpoador — e canibal, para os estarrecidos cristãos do porto — de terras longínquas, fala restrita e costumes que variam de curiosidade a diversão.

Buscando se juntarem a alguma das embarcações aportadas em Nantucket, o rapaz e Queequeg conseguem se alistar a tripulação do Pequod, comandada pelo irritadiço capitão Ahab.

Entre tantas personagens da literatura que já tive a oportunidade de ler, poucas vezes encontrei alguma nitidamente ensandecida, movida pelo ódio absoluto e pelo desejo insubstituível de se apossar da carcaça de Moby Dick, a baleia cachalote branca que aterroriza o oceano e seus navegantes impertinentes; como vi em Ahab, agora.

“Ele tornar-se-á o assassino de mais de trinta homens e, pela minha alma, posso jurar que este navio rumará para a morte se deixar Ahab fazer aquilo que deseja”.

O Capitão Ahab nutre um ódio irrefreável pela cachalote a que apelidaram pelos mares de Moby, já que ela foi a responsável por hoje ele usar uma perna artificial. Mesmo sendo constantemente alertado por outros capitães e pelos próprios tripulantes a não prosseguir com tamanha loucura, em sua caça marinha, Ahab insiste em sua viagem, singrando as águas sem pestanejar, seguido de seus marujos.

A obsessão de Ahab o transforma com bastante frequência em um homem extremamente rabugento, impaciente e isento de quase qualquer empatia para com aqueles que o rodeiam. Starbuck, um tipo de imediato ou intendente do Pequod é uma das figuras que mais pasta nas mãos de Ahab, que pouco o valoriza, ainda que seja um dos tripulantes mais participativos da obra.

Moby Dick é talvez uma das personagens mais interessantes. Embora a cachalote não protagonize tantas cenas quanto o esperado, na medida em que se avança é possível assimilar certas posturas que a baleia toma quando ciente da perseguição abusiva por parte de baleeiros, fato este que permite a construção de uma personagem incapaz de se comunicar verbalmente, mas que é capaz de transmitir poder e consequências de se por em seu caminho. Moby assimila com facilidade características essencialmente humanas — a princípio, pelo menos.

As artes de Chabouté são um espetáculo à parte. Preto e branco, os traços conseguem fornecer às personagens um show de caracterização e exibição de sentimentos e sensações. O cenário marinho bem realizado dá todo o sustento à história de Melville, imbuindo o dinamismo já esperado de uma adaptação visual do clássico.

A qualidade do material nacional já segue o padrão bastante agradável da editora Pipoca & Nanquim, com tradução de Pedro Bouça.

“Tu não escaparás, continua a esguichar. Sopre e estoure o seu jato, cachalote! O diabo em pessoa está no seu encalço!”

Trecho da HQ. Fonte: Amazon Brasil.

Por ser a adaptação de uma obra consideravelmente antiga, um clássico da ficção, Melville traz consigo algumas barreiras temporais que podem desagradar parte do público, como por exemplo, a inexistência de personagens ou de relevância feminina, bem como o uso de estereótipos contemporâneos, mas que na época figuravam como aspectos reais — como o destrato com imigrantes. Entretanto são coisas pontuais e que devem ser analisadas sob o prisma de sua época, como cada leitor julgar adequado.

Moby Dick é um dos grandes clássicos da literatura, agraciado agora com uma adaptação fabulosa por Chabouté, cujas ilustrações conseguem resgatar todo o clima enlouquecido de uma mente sedenta por vingança e por conquista. É uma leitura que conversa com o leitor sobre limites; sobre até onde estamos dispostos a ir e a arriscar em nome de saciar o próprio ego e restituir o orgulho ferido. Definitivamente, vale conhecer!

Moby Dick Book Cover Moby Dick
Volume Único
Herman Melville & Chabouté
Fantasia
Pipoca & Nanquim
2017
Físico
256

Moby Dick é um verdadeiro triunfo do premiado artista francês Christophe Chabouté, aclamada como a mais impressionante adaptação desse clássico da literatura para os quadrinhos. A epopeia do obcecado capitão Ahab em busca do cachalote branco é recontada de forma magistral pelas mãos de um mestre, que optou por conservar o texto original de Herman Melville, transformando-o numa primorosa narrativa gráfica. Prepare-se para a emocionante caçada à maior das criaturas do mar, ao lado do narrador Ismael, do misterioso aborígene Queequeg e de uma tripulação que oferece o próprio sangue para seu capitão em troca da promessa de glória e ouro, sem saber que, na verdade, o que os aguarda é a desgraça e o infortúnio!

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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