Do alto do prédio, uma figura se eleva; uma figura borrada pelas ondas de calor e ofuscada pelos raios de luz do sol. Com um passo que foge de qualquer imprecisão, isento de qualquer dúvida, mas ansioso, inebriado pela adrenalina que rege o momento, a figura se ergue até a beirada do precipício. Ainda que não seja qualquer tentativa antiquada de suicídio, o jovem — pois não há substantivo melhor —, dá um pequeno impulso. E se joga. Enquanto cai, poder-se-ia dizer que um sorriso se rasgou por sua face; o mesmo sorriso de um viciado em heroína ao se embriagar. Ele despenca. Ele morre. Ele revive, dois dias depois.

“A natureza decretava que nascer era uma sentença de morte e então promovia essa morte com uma coerência perversa”.

Art from Neal Shusterman’s Twitter

Fantasia YA é um dos tipos de literatura fantástica que mais circulam pelo mercado e, assim como os gostos mudam e se transformam vez por vez por vez e outra vez, decidi voltar a ler um pouco mais dessas leituras. Um bom amigo já me havia recomendado esse livro no ano passado, quando da época do lançamento do segundo volume, A Nuvem. A oportunidade — e elas não são tantas, então é bom agarrá-las quando aparecem — pintou sob a forma de uma leitura conjunta organizada pelo canal Navegando, do talentosíssimo e grande amigo Bruno Neute. Então, agora eu os convido a desbravar rapidamente alguns pontos dessa obra especial.

Em O Ceifador, o mundo já se encontra tecnologicamente avançado em um nível absolutamente novo: a humanidade, agora, finalmente foi capaz de vencer a morte natural. Catástrofes, doenças e epidemias, a guerra, a fome e a miséria já não são mais os algozes da humanidade. Dotados de tecnologia suficiente para não somente prolongar a vida, mas sustenta-la e, se necessário, revivê-la incontáveis vezes, os seres humanos se mantém em altos degraus da evolução. As profissões já não tem mais tanto sentido, senão o de figuração e manutenção. A Nimbo-Cúmulo é a mente por trás de tudo, a estrutura incorpórea, mas virtualmente ativa e pensante que mantém tudo funcionando perfeitamente.

Embora a morte natural tenha sido vencida, os seres humanos ainda precisam morrer, de modo a se controlar a população, tornando esse novo modelo de sociedade sustentável. Sendo assim, cabe aos Ceifadores, figuras de alto poder e prestígio, liderados pela Ceifa, uma organização independente da Nimbo-Cúmulo (que é proibida de interferir nos assuntos da morte), coletar definitivamente pessoas selecionadas por um padrão previamente definido. Dos homens mais ricos aos mais pobres, das mais variadas idades e etnias, cabe aos Ceifadores entregar a morte artificial sob formas variadas, regidos, é claro, por um protocolo ético, de forma a se coletar anualmente uma taxa rígida de pessoas.

“Sem a ameaça do sofrimento, não temos como sentir a verdadeira alegria. O melhor que podemos conseguir é uma vida agradável.”

Art from Kate Bouchard

É interessante notar como Shusterman trabalha a questão da morte em sua obra, como um ofício indesejado pela maioria. Cabe a todo Ceifador escolher pupilos, que são treinados durante um ano, até que passem por provas que irão qualifica-los ao cargo, do qual abdicarão de seus nomes de nascimento para adotar o de um patrono importante. Entre as regras da Ceifa, está a de que é terminantemente proibido a outrem coletar a vida de um Ceifador. Essa responsabilidade cabe apenas ao próprio, que se autocoleta.

Citra e Rowan são nossos protagonistas. Enquanto a adolescente tem sede por desafios e vive em uma família que a acolhe bem, Rowan passa por uma série de provações, entre o bullying e o desprezo no seio familiar. Ambos muito inteligentes, eles são escolhidos por Faraday, um proeminente Ceifador, a serem seus aprendizes — algo inédito na Ceifa, pois mesmo que não fosse proibido, era incomum a um mestre do ofício aceitar treinar duas pessoas. Graças a essa decisão, a Ceifa passa por um intenso rebuliço, que levará os jovens um presságio perigoso.

Um dos pontos bacanas de se analisar em O Ceifador é o significado que a morte toma nessa sociedade. Quando ninguém mais teme morrer por meios naturais, um atropelamento ou cair de um prédio muito alto pode ser a única maneira de verdadeiramente se sentir vivo. Morrer e reviver, morrer e reviver pode adquirir um quê de vício para alguns.

Do outro lado encontramos os Ceifadores, as mãos por trás da morte final. Mesmo com a Ceifa repreendendo o modo de vida de alguns, há aqueles que fazem do seu ofício um grande espetáculo, esbanjando riqueza e coletando mais do que se deveria, inescrupulosamente.

A escrita de Shusterman é bastante fluida, dotada de capítulos curtos e momentos de ação e clímax elevado. Com personagens interessantes, a única ressalva fica quanto à sensação de que poderiam ter sido trabalhados com mais profundidade, estabelecendo dessa maneira um vínculo mais próximo entre leitor e história.

Talvez um dos grandes pontos introduzidos pelo autor — além dos trechos dos diários de alguns Ceifadores — foi a criação de bons personagens coadjuvantes, que asseguram e sustentam a qualidade da obra, tais como o controverso Volta e o intolerável Goddard.

“O que mais desejo para a humanidade não é a paz, o consolo ou a alegria. É que ainda morramos por dentro toda vez que testemunhemos a morte de outra pessoa. Pois só a dor da empatia nos manterá humanos. Nenhum Deus vai poder nos ajudar se algum dia perdermos isso.”

O Ceifador é um ensaio sobre as questões da morte e seus significados para a humanidade. Quando a tecnologia vence todas as mazelas, o que mantém a sociedade livre do caos pelo caos e da selvageria pela selvageria gratuita? Seria essa sociedade livre de qualquer corrupção?

O Ceifador Book Cover O Ceifador
Saga Scythe
Neal Shusterman
Fantasia
Editora Seguinte
16.04.2017
Ebook
448

A humanidade venceu todas as barreiras: fome, doenças, guerras, miséria… Até mesmo a morte. Agora os ceifadores são os únicos que podem pôr fim a uma vida, impedindo que o crescimento populacional vá além do limite e a Terra deixe de comportar a população por toda a eternidade. Citra e Rowan são adolescentes escolhidos como aprendizes de ceifador - um papel que nenhum dos dois quer desempenhar. Para receberem o anel e o manto da Ceifa, os adolescentes precisam dominar a "arte" da coleta, ou seja, precisam aprender a matar. Porém, se falharem em sua missão - ou se a cumplicidade no treinamento se tornar algo mais -, podem colocar a própria vida em risco.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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