Embora o som da porta na entrada da casa não tenha ecoado, nem a batida, nem os ruídos da abertura daquela peça robusta e antiquada de madeira, ela sabe muito bem que não está mais sozinha. Os passos, mais semelhantes ao esfregar irritante e preguiçoso dos pés sobre o assoalho chegam até o seu quarto. Reclusa em sua cadeira de rodas como sempre esteve nos últimos anos, ela é capaz de imaginar a irmã se esforçando impacientemente para tirar as sandálias delicadas, enquanto se apruma para subir as escadas. O lapso é rápido, porém o coração se aperta com a angústia da certeza de que nada de bom ou agradável seguirá pelo resto do dia. Angústia que dá passagem ao mais severo dos medos.

“Ela pode ser sua própria irmã, querida, sua própria carne e seu sangue, mas você tem de encarar que, no fundo, ela a odeia como veneno, e nada lhe daria mais prazer do que ver você ser castigada.”

Foto por Dhiego Morais

O que terá acontecido a Baby Jane?, uma obra-prima do horror gótico, de autoria de Henry Farrell, finalmente chega ao Brasil pelas mãos da editora Darkside Books. Talvez alguns leitores já conheçam a história pela adaptação cinematográfica de 1962, dirigida por Robert Aldrich, e que viria a se consagrar como um dos maiores clássicos do cinema, protagonizado pelas figuras de Bette Davis e Joan Crawford, que cederam o seu brilho majestoso para um filme que as resgatou da “profunda ingratidão e do machismo descarado” dos produtores de Hollywood dos anos 1960.

O romance de Henry Farrell não só foi o responsável por alavancar a própria carreira do escritor (sempre estimulado pelo positivismo de sua esposa, Molly), mas também por resgatar do esquecimento as figuras de grandes atrizes na meia-idade, como ocorreu com Joan e Bette. O sucesso tremendo da história da rivalidade entre duas irmãs proporcionou o surgimento de um novo subgênero de horror gótico, fato que se replicou no cinema, com o nascimento do hagsploitation: subgênero do terror em cuja história tem como características protagonistas mulheres na meia-idade ou mais velhas, cuja loucura normalmente culmina ou se encaminha para o assassinato ou para outro sortilégio regado a crueldade.

Em O que terá acontecido a Baby Jane?, conheceremos a história das irmãs Baby Jane e Blanche Hudson. Durante sua infância, Baby Jane foi responsável por uma fase de ouro em sua família; menina de tremendo sucesso nos palcos, mas dotado de um gênio dificílimo de lidar. Mais jovem que sua irmã Blanche, Baby Jane assistiu o seu próprio declínio vir tão rápido quanto o seu sucesso, ao passo que Blanche crescia timidamente, até que em sua juventude e beleza estonteante fez mais sucesso que a irmã mais nova. Deixada ao esquecimento, o ressentimento só aumentou, pelo menos até o fatídico acidente de carro, que deixou Blanche para sempre presa a uma cadeira de rodas.

Já envelhecidas e esquecidas, as irmãs Hudson passaram a viver reclusas. Baby Jane se tornou a guardiã de Blanche, bem como de sua fortuna. Enquanto Blanche se apresenta como uma protagonista passiva, temerosa de sua própria irmã, Baby Jane surge como uma sombra sufocante, uma figura complexa, ora dotada de muito esclarecimento, de frieza e de rancor calculado, ora se mostra difícil de ser lida, com uma mente confusa e intrincada.

“Um vulto caiu, desabando em silêncio. Uma porta bateu. Seu pulso acelerou com o pânico, agora como antes, e ela sabia que precisava fugir, precisava se salvar.”

Foto por Dhiego Morais

Ambas saudosas de seus períodos de sucesso, de seu auge e do estrelato, as irmãs guardam em seu coração um misto de ódio e medo acumulados pela história trágica e competitiva de sua família. Baby Jane se vê presa à condição de Blanche, incapacitada de atuar novamente, de promover o seu retorno, enquanto que se vê dependente da fortuna acumulada da irmã. Em alguns momentos há certa ingenuidade na forma como Baby Jane reflete seu momento.

Com uma história brilhantemente construída, Henry Farrell entrega um clássico pigmentado de todos os ares dos filmes em preto em branco, que exalam o charme de sua época combinado aos dramas familiares e sociais que tanto promoveram a verossimilhança e a identificação por parte do público.

A edição nacional conta além do belo design de produção, também de três contos de Farrell, sendo dois deles tão surpreendentes quanto Baby Jane, e um terceiro imbuído de certa fantasia no mínimo inesperada.

Baby Jane é o romance ideal para manter qualquer leitor preso a sua cadeira. Os eventos que se sucedem, página a página entregam uma leitura inusitada e de alta qualidade. Torço muito para que essa seja a porta de entrada para mais livros do gênero no Brasil, assim como para a publicação de mais romances de Farrell.

O que terá acontecido a Baby Jane Book Cover O que terá acontecido a Baby Jane
Henry Farrell
Terror
Darkside Books
2019
Físico
320

Uma boa história não envelhece jamais. É o caso de O que terá acontecido a Baby Jane? Lançado originalmente em 1960, e há décadas fora de catálogo no Brasil, era um dos livros mais pedidos pelos exigentes leitores da DarkSide® Books. O romance de Henry Farrell, brilhantemente adaptado ao cinema em 1962, tem o mesmo toque de terror gótico e psicológico de grandes clássicos desenterrados pela editora, como Psicose (1959), de Robert Bloch, e Menina Má (1954), de William March. O que terá acontecido a Baby Jane? conta a história das irmãs Hudson, duas mulheres de idade que vivem isoladas em uma mansão e mantêm uma relação doentia de dependência, inveja, rancor e culpa. “Baby” Jane Hudson fez nome nos palcos de teatro vaudevile quando era criança. Mas isso foi há tantos anos que ninguém mais se lembra dela. Sua irmã Blanche foi uma estrela maior, de grande sucesso em Hollywood. Um acidente de carro, porém, afastou-a dos holofotes e a colocou sobre uma cadeira de rodas. Aos poucos, os ressentimentos se transformam em obsessão, colocando em risco iminente a vida ― e também a sanidade ― das duas irmãs. O que terá acontecido a Baby Jane? virou referência por sua adaptação cinematográfica, com Bette Davis e Joan Crawford.Mas toda a angústia, a inspiração gótica e até a atmosfera sombria da fotografia em preto e branco do longa-metragem já estavam presentes nas páginas do livro. Foi Crawford quem enxergou no livro uma oportunidade para fazer seu retorno triunfal ao cinema. Hollywood não oferecia bons papéis para alguém de sua idade. A atriz também sugeriu ao produtor do filme o nome da outra protagonista: sua arqui-inimiga na vida real,Bette Davis. A rivalidade constante entre as duas grandes damas conferiu a tensão exigida pelo filme, e foi recontada na série feud (2017), de Ryan Murphy, criador de American Horror Story, Nip/Tuck e American Crime Story: O Povo Contra O.J. Simpson. O que terá acontecido a Baby Jane? chega em capa dura, tão bonita e sinistra quanto uma boneca de porcelana trincada. Além do romance original, o livro apresenta três contos do autor, incluindo “O que terá acontecido a prima Charlotte?”, que também ganhou uma adaptação ao cinema em 1964, com o título de Hush...Hush, Sweet Charlotte (Com a Maldade na Alma), estrelando Bette Davis e Olivia de Havilland. O que terá acontecido a Baby Jane? faz parte da coleção Cine Book Club, filmes para ler, da DarkSide® Books.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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