Lançado em 2018 pela caveirinha Darkside Books no selo Darkside® Graphic Novel, Refugiados: a última fronteira é mais um trabalho certeiro da cartunista, artista e ativista canadense Kate Evans, que entrega ao público um trabalho de jornalismo sob a mídia dos quadrinhos.

Nesta poderosa graphic novel, acompanhamos a história do tempo que Kate Evans compartilhou com os refugiados da Selva, como ficou conhecida a cidade dentro da cidade portuária de Calais, na França, conhecida por sua indústria de rendas. Por meio de seu relato documental, de suas anotações e sua mente aberta e absolutamente humanizada, Kate revela as condições de vida dos refugiados oriundos massivamente do Oriente Médio e da África, bem como a visão da mídia e dos governos franceses e britânicos.

“Quando o lar é uma zona de guerra, para os homens em idade de lutar as opções são recrutamento ou extermínio.”

Foto por Dhiego Morais

Com o objetivo de desmistificar a aura benevolente das condições em que foram postos milhares de refugiados, Kate narra os diversos momentos que a levaram a se tornar voluntária nos esforços das Ajudas Humanitárias que coordenavam diversas atividades e doações aos necessitados. Embora o desejo de ajudar seja observável, o refúgio em Calais nem sempre se mostrou seguro.

O relato jornalístico de Evans leva os leitores a uma série de reflexões sobre as ondas de migração que atingiram a Europa. Fugindo de uma terra que já havia perdido o significado de lar, em busca de encontrar segurança para a sua família, de encontrar o conforto da união e reconstruir do zero as suas vidas, os refugiados demonstraram não temer as adversidades das distâncias e as barreiras das línguas, da cultura e dos muros erguidos. Em resposta ao mais duro preconceito e desafeto, ao mais claro argumento xenofóbico e desumano, muitos estenderam as rendas da generosidade e da humildade, do carinho frente ao medo.

Enquanto a extrema direita cimentava seus degraus na política francesa e britânica — um verdadeiro alerta de Evans —, a população da Selva de Calais sofria frequentemente com a falta de produtos essenciais para a higiene e saúde, bem como com o desapreço da comunidade local e da insegurança diante da própria sombra policial. Demolições, despejos, surras, impedimentos de entrada de suprimentos, além de violência policial e estupros, inclusive contra menores de idade. Não é para menos que o espaço de refúgio, de asilo provisório ficou conhecido como Selva: a brutalidade era frequente. A própria Evans precisou se resguardar e ser mais esperta em algumas ocasiões.

A arte cartunesca pode não agradar tanto, mas casa bem com o relato jornalístico.

“Você deve ir além de ser capaz de sentir. É mais do que as casas de algumas pessoas sendo destruídas. São as mentes delas.”

Poucas obras são capazes de estimular tantas reflexões, ao mesmo tempo em que mexem intensamente com os nossos sentimentos. Refugiados resgata o grito sufocado de milhares de pessoas que vivem em condições desumanas, sem saneamento, sem alimentação adequada, sem afeto, com laços familiares rompidos definitivamente pelas bombas e pelo fogo da guerra civil e do financiamento armamentista internacional. Abordando não apenas a questão cotidiana, mas também o ponto da livre circulação dos povos, Kate Evans traz de maneira eloquente o debate sobre a abertura de fronteiras. Tão doloroso quanto Maus, Refugiados é um documentário essencial para todos os leitores, uma transcrição habilidosa de relato jornalístico em forma de quadrinhos. Em um mar de antipatia e crueldade, ergue-se um farol sólido e luminoso.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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