O ano é 2089 e o mundo se encontra devastadoramente poluído, reduzido a um complexo de ilhas remotas e imersas no vício tecnológico. Nada mais importa à população, a não ser por sua sede insaciável pela alienação. A violência e o despudor são peças tão frequentes que já não assustam mais, nem impressionam a comunidade. A tecnologia é o novo ópio; a realidade, mero veneno.

Mais um quadrinho do selo Graphic Novel da Darkside Books, Tokyo Ghost causou bastante furor entre os grupos de leitores de quadrinhos na internet, bem como nas redes sociais, não somente por pegar a galera desprevenida, mas também pelo peso que os realizadores da HQ carregam em seu nome. De um lado temos Rick Remender, roteirista de grandes títulos, tais como: Fabulosos Vingadores, Deadly Class, Capitão América, Venom e X-Force. De outro lado temos Sean Murphy, roteirista e artista de Batman, Hellblazer e Vampiro Americano e Matt Hollingsworth, colorista e cervejeiro, responsável Preacher, Demolidor e Wytches (lançado pela Darkside Books).

Tokyo Ghost apresenta aos seus leitores um mundo distópico, em que os oceanos são venenosos e onde a natureza foi engolida pela profusão tecnológica sem limites. Desempregados, desanimados e famintos, a população se prendeu a única fonte de recursos disponível, ao único ponto que ainda são capazes de reconhecer: a própria tecnologia. Sedentos por algo que os tire da realidade decrépita em que vivem, viciam-se nesse recurso digital, formalizando um ciclo ininterrupto de alienação, bastante propício aos ditadores e aproveitadores políticos. Tornam-se então tecnoiados.

Movimentando um comércio repentino, mas bastante interessante, inicia-se um monopólio assegurado por figuras de gangsteres, de criminosos nas ilhas de Los Angeles, todos reportados a uma figura ditatorial inescrupulosa: Flak.

“O problema de deixar o povo escolher seu líder, é que a decisão tende pro psicopata que for mais seguro de si, por mais anta que ele seja.”

Trecho da HQ (em inglês).

Flak é um político no final da meia idade, arrogante, impiedoso e completamente depravado, indecente, desonesto. De maneira geral, um homem que realmente não vale o tempo gasto em ouvi-lo, ou vê-lo.

É interessante notar como o recurso narrativo de Remender e a forma como Murphy dispõe os quadros promove a visão de uma Los Angeles afundada na imoralidade e na alienação. Sexo, violência e o vício são temas recorrentes nos capítulos, no tema de Tokyo Ghost.

Para assegurar a manutenção do sistema deturpado, Flak cerca-se de delegados – estes muitas vezes dotados de certas modificações em sua estrutura física –, normalmente motorizados e que – veja bem –, não tem qualquer senso de justiça ou honradez que não sirva aos propósitos de Flak e de sua sede pelo vício tecnológico (suas razões de vivier).

Led Dent e Debbie Decay são nossos protagonistas, delegados e criminosos que servem a Flak. Led é um brutamonte de poucas palavras e que pilota uma moto assustadora, enquanto Debbie é sua parceira, uma exímia lutadora e que, diferentemente de Led, não se rendeu ao vício: uma zerotec, em suma.

Seguindo rumos totalmente diferentes das ilhas de Los Angeles de Flak, Tokyo se ergue como bastião ecológico, combatendo o vício tecnológico, enquanto parece retornar aos tempos do xogunato, dos samurais. Na tentativa de barrar esse processo, Flak envia Led e Debbie para derrubar a líder de Tokyo. E essa pode ser a chance que Debbie esperava para fugir de tudo isso e trazer luz e paz ao seu amor, antes que este se tornasse o temível delegado Led.

O quadrinho é recheado de ação, envolvendo momentos de perseguição desenfreada, combates com armas de fogo, explosões e lutas de espadas (alô, samurais!). Ao mesmo tempo em que promove essa mescla de emoções, que fatalmente prenderão a figura do leitor jovem de quadrinhos, o roteiro de Remender assegura uma série de críticas ao sistema político atual, bem como ao crescimento venenoso do capitalismo, em detrimento da sustentabilidade e da ecologia. Também dá espaço para a reflexão dos rumos que a sociedade consumista e alienada toma para si, em um dualismo tecnológico que ao mesmo tempo em que é benéfico, é ainda perigoso.

“Poluímos justamente aquilo de que mais precisamos. Destruímos a simplicidade em cuja perfeição fomos pensados para viver.”

Trecho da HQ (em inglês).

A edição nacional de Tokyo Ghost reúne a coleção completa das histórias em um acabamento de luxo, capa soft touch e verniz localizado; totalmente colorida e com papel de boa gramatura, que não permite que um quadro vaze pelo da página seguinte.

Tokyo Ghost é mais uma graphic novel interessantíssima lançada pela Darkside Books, certamente uma das melhores do ano, ao lado de títulos como: Aurora nas Sombras e A Menina do Outro Lado. Uma história envolvente, que trabalha momentos de ação com bons debates e, claro, um romance que fisga o leitor aos poucos.

Tokyo Ghost Book Cover Tokyo Ghost
Volume Único
Remender, Hollingsworth e Murphy
Distopia
Darkside Books
outubro de 2019
Físico
272

Ilhas de Los Angeles, 2089. O planeta foi tomado pelos oceanos, mas a água é tão poluída que dissolve a pele. A humanidade está viciada em tecnologia em níveis inimagináveis, mesmo para os tempos em que vivemos hoje. A grande maioria, desempregada e famélica, vive em busca da alienação e um pouco de paz que o “barato” digital proporciona. Mesmo que para isso os tecnoiados precisem roubar e matar. Todo mundo anda ocupado em evitar a realidade, enfurnado nos antros do ópio eletrônico, cujo monopólio está nas mãos de gângsteres comandados pelo famigerado Flak. E como em todo comércio que envolve viciados, os problemas não são poucos. Para enquadrar os tecnoiados, cobrar dívidas e eliminar aqueles que incomodam além da conta, Flak e seus adeptos recorrem à dupla de delegados Led Dent e Debbie Decay, assassinos cruéis. Debbie, porém, nunca se rendeu ao vício digital, exceção das exceções, uma autêntica zero-tec. A dupla está prestes a cumprir uma missão longe da miserável Los Angeles. O objetivo: derrubar o último país que ainda não se rendeu ao mundo uberconectado, os Jardins Verdejantes de Tóquio. Muitos podem achar irônico ver um dos países mais tecnológicos ser transformado em bastião ecológico, mas não custa lembrar da milenar tradição de sua cultura, imersa na ética e na sabedoria dos samurais, que se faz presente e tem papel fundamental no enredo. Escrito pelo aclamado roteirista Rick Remender (Deadly Class, X-Force, Fabulosos Vingadores, Venom, Capitão América), com arte magistral de Sean Murphy (Batman, Hellblazer, Vampiro Americano) e cores de Matt Hollingsworth (Wytches, Preacher, Demolidor, Hellboy), Tokyo Ghost é uma ficção científica distópica repleta de ação, com influências que começam em Blade Runner e William Gibson, passam por artistas futuristas dos anos 1970 e 1980 e chegam a Akira, além de mangás que evocam a cultura dos samurais. Dando sequência à parceria com a editora norte-americana Image ― que teve início com a publicação de Wytches, de Scott Snyder e Jock ―, a nova graphic novel da DarkSide® Graphic Novel, selo de quadrinhos da editora DarkSide® Books, faz comentários políticos nada animadores sobre o mundo que estamos construindo, cada vez mais idiotizado e mediado pela tecnologia. Além disso, traz uma história de amor e ― por que não? ― uma gota de esperança neste oceano sombrio que atravessamos atualmente. Tokyo Ghost foi serializada entre 2015 e 2016 em dez edições nos eua e agora ganha uma edição completa e definitiva com capa dura especial, além de extras como layouts de capas alternativas, estudos de personagem e trechos do roteiro. Um material completo, de fã para fã, como só a DarkSide® Books sabe publicar. Preparado para se conectar?

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.