Em terras geladas, escondido nas misteriosas terras da Islândia, há um caminho singular, diferente de qualquer outra entrada já conhecida da natureza, uma abertura que atravessa a bocarra intimidadora de um vulcão inativo, que milhas e ainda mais milhas abaixo, segue vertiginosamente ao centro do que deveria ser fogo eterno. Feito túnel de incansáveis léguas, encontra-se no limite o centro do que chamamos Terra. Olhe, obstinado aventureiro, e reflita se confiará neste relato, pois, ainda que não tenha fé, eu estive no centro da Terra.

Julio Verne, um dos autores mais traduzidos da história e um dos escritores de maior reconhecimento. Quase todo mundo, em algum momento já esteve em contato com as suas obras, seja pelo tatear de seus livros, seja por suas adaptações para as telonas. Um verdadeiro mestre da ficção científica, Verne deixou um legado invejável de obras aventurescas que versaram sobre os mais variados temas, abusando de criatividade e conhecimento científico, entre biologia, geologia e outras ciências da natureza.

O que me espanta, de certo modo, é que essa não é a primeira vez que leio algo de Verne. Quando ainda estava no ensino fundamental cheguei a ler A Ilha Misteriosa, todavia, por algum motivo não me recordo de ter aproveitado tanto a leitura. Viagem ao centro da Terra é o meu pedido de desculpas a Verne e o meu retorno a suas obras que atravessam os séculos.

“Se a cada minuto podemos perecer, a cada minuto podemos ser salvos”.

Ilustração de Édouard Riou (1867)

Em Viagem ao centro da Terra, o autor nos apresenta a Axel, um jovem cuja principal aspiração é conseguir se casar com a garota por quem se apaixonara. Axel vive com o seu tio, o professor Otto Lidenbrock, em Hamburgo, na atual Alemanha. Enquanto Axel, nosso narrador, é um tanto quanto cético a certos assuntos, o professor Otto é uma figura autoritária e obstinada — mesmo que tenha um probleminha para dizer palavras difíceis em suas palestras.

Verne tem uma escrita levemente mais rebuscada, no entanto, isso não tira a agilidade e a fluidez de seu texto, já que Viagem ao centro da Terra voa entre as páginas. Trata-se de uma leitura clássica muito agradável, embora seja curta.

A história começa quando o professor retorna à sua casa e, inabalável, consulta suas últimas aquisições: seus amados livros. Axel tem um conhecimento relevante de geologia e tenta sempre se mostrar tão animado e perseverante quanto a figura de seu tio, mesmo isso sendo quase sempre muito complicado. Entre esses eventos, um documento estranho escapa das páginas do livro que pegara e não tarda para que um intrincado enigma dos tempos reclusos de Arne Saknussemm, cientista e célebre alquimista do século XVI. No manuscrito estão as coordenadas para a maior aventura empreendida pelo homem no século XIX: uma viagem direto ao centro da Terra!

Logo, Axel, nosso delicado narrador deverá debater com a sua própria consciência o real significado de aceitar entrar em uma aventura repentina e aparentemente insana e mortal. Lidenbrock é uma figura completamente decidida e acredita estar preparado para tamanho esforço, auxiliado, claro, pela sede de reclamar tamanha descoberta. Por outro lado, Axel é comedido, teme pela decisão precipitada do tio e desacredita de que qualquer expedição às profundezas da Terra leve a um lugar diferente do que um abismo fervilhante. A força de vontade do professor é muito maior, então, ambos se encaminham para as terras inóspitas da Islândia, em direção a um vulcão inativo, cuja cratera é a porta para o centro do planeta. Para auxiliá-los na empreitada em um país desconhecido, Hans, um islandês é contratado como guia.

É interessante o que Verne faz aqui, valendo-se essencialmente de três personagens, além, claro de muito conhecimento e criatividade para compor a história. Axel em alguns momentos pode irritar por seu temor recorrente, entretanto, ele também funciona como representante da figura do leitor, pois também não sabe o que vai encontrar durante a sua aventura, sente medo desse desconhecido, mas ainda assim se impressiona e se anima quando o inacreditável surge diante de seus olhos, ou quando a experiência e a convivência com os demais o reconforta. O professor Lidenbrock é durão, quase irrefreável, mas também não deixa se abater pelas dificuldades de sua empreitada e sabe quando deve demonstrar o carinho que sente por seu sobrinho. Hans é a incógnita, uma espécie de coringa da história.

“Voltando a cair em sua contemplação absorta, meu tio já esquecera minhas palavras imprudentes. Imprudentes, pois o cérebro de um cientista não compreenderia as coisas do coração”.

Ilustração de Édouard Riou

Apesar de ter gostado de Viagem ao centro da Terra, gostaria que algumas coisas no final tivessem sido mais bem aproveitadas e trabalhadas, ainda que isso fosse responsável por encorpar mais uma leva de páginas. Tornaria a viagem ao centro ainda mais impressionante e cativante. No entanto, claro, Verne escreve um clássico que merece os elogios que recebe.

De maneira irônica ao cutucar os estudiosos de sua época, Verne produz uma história em que eleva o valor da curiosidade humana e sugere o poder de não somente acreditar, mas imaginar. De túneis ocultos a cavernas assombrosas, avançando decisivamente abaixo da terra, de rios violentos e mares impensáveis; de criaturas além de nossa época a um mundo enterrado sob outro. Viagem ao centro da terra é sobre perseverança e imaginação, especialmente.

Viagem ao centro da Terra Book Cover Viagem ao centro da Terra
Julio Verne
Fantasia
Zahar
Ebook

Um dos maiores clássicos da ficção científica, escrito pelo mesmo autor de 20 mil léguas submarinas e A ilha misteriosa 

"Vamos descer, descer, sempre descer! Como sabe, para chegar ao centro do globo temos apenas mais seis mil quilômetros a atravessar!" 

Em 1863 o renomado professor Otto Lidenbrock, geólogo e mineralogista, descobre uma mensagem cifrada descrevendo uma viagem ao centro da Terra. É o quanto basta para o impetuoso cientista se lançar na mesma aventura - levando consigo o sobrinho Axel, colega de profissão mas defensor de diferentes teorias científicas, e o impassível Hans, guia que se mostrará indispensável para a empreitada e seu espantoso desfecho! 

Rios de lava, mares subterrâneos, os primórdios da vida no planeta, fauna e flora pré-históricos, múmias de homens primitivos... Fruto da imaginação e do conhecimento de um dos pais da ficção científica, Viagem ao centro da Terra é uma das obras mais originais e ousadas de seu tempo. Essa edição traz texto integral, excelente apresentação, cerca de 30 ilustrações originais, mais de 150 notas e cronologia e obra de Jules Verne - um dos escritores mais traduzidos em toda a história. A versão impressa apresenta ainda capa dura e acabamento de luxo.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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