Mãe e filha se aproximam do mar sem pressa; as areias da praia abraçando o seu estilo leve de caminhar. O ritual recém-celebrado – uma espécie de formatura, talvez, a garantia de que está apta para desenvolver sua atividade, legado de sua família, geração após geração – ainda parece ribombar em seu ouvido. O sorriso da mãe para filha, o encorajamento e a adrenalina de não apenas provar ser capaz, mas, sobretudo, de poder manter viva a tradição. Os corpos entram no mar, abraçados pelas águas gélidas que cercam a ilha. Elas são haenyeo: herdeiras do mar.

Eu já havia comentado na resenha de O Livro de Líbero, do brasileiro Alfredo Nugent Setubal e lançado no clube literário da editora Intrínseca, o Intrínsecos, que 2020 seria um ano de experimentações. Investido desse desejo, acabei assinando não apenas o clube citado, mas também a TAG Inéditos. E um dos motivos que me fizeram assinar foi justamente a proposta do livro de março, no qual receberíamos um romance cuja trama principal aconteceria durante o final da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente no meio do movimento expansionista do Império Japonês, que colonizava a Coréia e invadia a Manchúria. Sabemos tão pouco sobre o os conflitos no continente asiático durante a Grande Guerra, então senti uma imensa vontade de ler sobre essa perspectiva.

“Palavras são poder, seu pai lhe disse certa vez depois de recitar um de seus poemas políticos. Quanto mais palavras você conhecer, mais poderoso você fica. É por isso que os japoneses proibiram nossa língua nativa. Limitando nossas palavras, eles estão limitando nosso poder.”

Acervo pessoal

Em Herdeiras do Mar, o leitor é convidado a conhecer a Ilha de Jeju, pertencente à península da Coreia. É verão de 1943 e a Segunda Guerra Mundial está em curso; a Coréia permanece anexada ao Japão, que também domina a região rica da Manchúria, ao passo que continua sua expansão territorial pela China em nome do Imperador. Jeju é o lar de nossas protagonistas: Hana e sua irmã mais sete anos mais nova, Emi.

Hana, assim como sua mãe e a mãe dela – geração após geração – é uma haenyeo, uma mulher do mar. De cultura basicamente matriarcal, as mulheres de Jeju mantêm viva a tradição secular de mergulhar nas águas profundas do mar em volta da ilha, em busca de seu sustento. Valendo-se apenas de uma roupa de mergulho, um visor e pés-de-pato, além, é claro, de seu fôlego sobrenatural, essas mulheres – muitas delas com mais de trinta, quarenta, sessenta anos – exploram o mar profundo, mantendo viva uma tradição cultural própria e uma relação harmoniosa com a natureza.

Enquanto Hana, com dezesseis anos, mergulha em companhia da mãe, a pequena Emi permanece na praia, cuidando da pesca e mantendo as gaivotas e outros pássaros afastados de seu sustento. A relação dessas mulheres com a comunidade é um ponto muito bonito de ser destacado, pois mesmo que uma delas não possa mergulhar ou não tenha conseguido a pesca mínima para venda e subsistência, é comum observar a união das demais, que se dedicam por três ou até cinco horas em mar aberto, na tentativa de auxiliar quem precisa.

Em 1905 a Coréia se torna protetorado do Japão, sendo anexada oficialmente em 1910 ao Império. A partir deste momento, costumes e língua são proibidos pelos japoneses, em uma tentativa aberta de silenciar, de apagar a identidade coreana. Nem mesmo os nomes coreanos das pessoas são permitidos, obrigando a população a substitui-los por outros em japonês. Hana e Emi não conheceram uma Coréia independente, tendo nascido já sob a tutela violenta dos soldados japoneses. Todavia, assim como em algumas famílias, elas foram ensinadas secretamente a manter sua cultura, sua identidade coreana – a própria tradição haenyeo é exemplo máximo disso – viva. Sobretudo, também foram ensinadas a se manterem longe da vista dos soldados. Ser notada pode significar a morte.

Para que possamos compreender mais a história de Herdeiras do Mar, precisamos pontuar mais alguns fatos históricos que conversam intensamente com toda a trama construída por Mary Lynn Bracht. Em 1943, o ano em que encontramos as irmãs haenyeo, o Japão já havia invadido a Manchúria, região chinesa de grande importância e interesse, criando um Estado fantoche e que, pouco tempo depois, ainda antes de a Segunda Guerra Mundial começar, acarretaria na Segunda Guerra Sino-Japonesa, e que, é claro, viria a fazer parte da Grande Guerra. Em 1941 ocorre o ataque a Pearl Harbor, que serviria como mais um pretexto para a entrada dos EUA na guerra contra a Alemanha e o Japão. Então, guarde o contexto cruel desses conflitos e imagine como plano de fundo para a história de nossas protagonistas, Hana e Emi.

Após um de seus mergulhos, observamos o destino de Hana ser traçado: ainda no mar, ela observa a figura de um soldado japonês se guiando em direção a sua irmãzinha, Emi, na praia, distraída entre as pedras. É questão de tempo para que o soldado aviste a pequena. Na tentativa de protegê-la, Hana sai das águas e intercepta o soldado antes. Sem a proteção do pai ou da mãe, sozinha naquela situação, Hana sabe que não há nada que ame mais do que Emi, e ninguém que queira proteger além de sua irmã. Com toda a coragem que consegue reunir, ela consegue ocultar Emi dos olhos perigosos do soldado japonês, mas a um preço: Hana é capturada e levada pelo exército.

A partir desse momento, somos levados em terror silencioso junto de Hana. A fim de poupar Emi de um futuro cruel, ela entrega sua vida a um destino em comum ao de milhares de outras garotas coreanas, também sequestradas e tomadas de seus lares, de suas famílias pelos soldados japoneses. Com apenas dezesseis anos, Hana é levada para a região da Manchúria, a fim de servir como mulher de consolo em bordeis militares. Diante de tantas atrocidades, a jovem precisa manter viva sua identidade e esperança.

Herdeiras do Mar é um dos livros mais dolorosos que já tive a oportunidade ler. A história de Hana é o reflexo do terror de milhares e milhares de outras adolescentes e adultas, arrancadas de suas famílias para servir de objeto, de conforto aos soldados japoneses. Vivendo em condições deploráveis, desumanas, expostas a diversas doenças e perigos, à violência gratuita e doméstica, sádica, ao espancamento, à fome e miséria, até serem reduzidas a trapos, receptáculos sem consciência, sem vida, semimortos. Conhecemos tanto sobre os horrores do Ocidente no mesmo período sombrio, mas sabemos tão pouco sobre os terrores a que foram submetidas tantas famílias na Ásia, sobretudo na Coréia e China.

Dividido entre duas perspectivas e momentos, Herdeiras do Mar guia seus leitores pela visão de Hana, em 1943, em meio ao seu rapto; enquanto alterna com o ponto de vista de Emi, em dezembro de 2011, décadas após os conflitos da Guerra Mundial, da Guerra da Coréia e Guerra Fria, buscando se reencontrar com seu passado e com o que teria acontecido a sua irmã.

“’Eu sou uma haenyeo’, ela diz, e o encara. As palavras correm por seus lábios como uma confissão. ‘Como minha mãe, e a sua mãe antes dela, como a minha irmã será um dia, e suas filhas também… Eu nunca fui nada além de uma mulher do mar. Nem você nem qualquer outro homem pode me transformar em menos do que isso.’”

Acervo Pessoal

As páginas fluem e logo nos vemos afeiçoados, conectados profundamente a Emi de 2011, uma haenyeo de Jeju, já com uma família construída, filho e filha vivendo em Seul, a capital. O coração de Emi, agora avó, é tão profundo quanto o mar, e tão intrincado e misterioso quanto suas águas. Por outro lado, dividimos o coração com a história da Hana de 1943, sedentos por compreender tudo pelo qual foi obrigada a passar, longe de tudo o que a fazia feliz.

Uma história comovente, que atinge o coração como uma flecha e nos convida a refletir sobre as consequências da guerra, sobre a influência masculina naqueles que são colonizados, reduzidos a instrumentos, a objetos de consolo e extravagância. Um romance que traz à tona mulheres desconhecidas, que dá voz ao seu passado e ao som mais escondido e suprimido de seus corações. Herdeiras do Mar resgata o amor de duas irmãs, sua compaixão e suas identidades, em uma ligação que atravessa gerações e se espalha por incontáveis espaços.

Mary Lynn Bracht faz de sua estreia uma das melhores e mais importantes leituras que já fiz.

Indicado para quem gostou de: Maus; O Relatório de Brodeck; O sol é para todos; O diário de Nisha.

Leitura realizada na edição da TAG Inéditos de março/2020.

ATENÇÃO: NÃO RECOMENDADO PARA LEITORXS SENSÍVEIS A TEMAS COMO VIOLÊNCIA FÍSICA, SEXUAL E GUERRA.
Herdeiras do Mar Book Cover Herdeiras do Mar
Mary Lynn Bracht
Romance - Drama
TAG Inéditos - Paralela
Março 2020
Brochura
304

A história comovente e desconhecida das mulheres coreanas na Segunda Guerra Mundial ganha vida neste romance épico, profundo e sensível sobre duas irmãs e um amor capaz de atravessar gerações.

Quando Hana nasceu, a Coreia já estava sob ocupação japonesa, e por isso a garota sempre foi considerada uma cidadã de segunda classe, com direitos renegados. No entanto, nada diminui o orgulho que tem de sua origem. Assim como sua mãe, Hana é uma haenyeo - uma mulher do mar, que trabalha por conta própria seguindo uma tradição secular. Na Ilha de Jeju, onde vivem, elas são as responsáveis pelo mergulho marinho - uma atividade tão perigosa quanto lucrativa, que garante o sustento de toda a comunidade.

Como haenyeo, Hana é independente e corajosa, e não há ninguém no mundo que ela ame e proteja mais do que Emi, sua irmã sete anos mais nova. É justamente para salvar Emi de um destino cruel que Hana é capturada por um soldado japonês e enviada para a longínqua região da Manchúria.

A Segunda Guerra Mundial estava em curso e, assim como outras centenas de milhares de adolescentes coreanas, Hana se torna uma mulher de consolo: com a penas dezesseis anos, ela é submetida a uma condição desumana em bordéis militares. Apesar de sofrer as mais inimagináveis atrocidades, Hana é resiliente e não vai desistir do sonho de reencontrar sua amada família caso sobreviva aos horrores da guerra.

Em Herdeiras do mar, Mary Lynn Bracht lança mão de uma narrativa tocante e inesquecível para jogar luz sobre um doloroso capítulo da Segunda Guerra Mundial ainda ignorado por muitos.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.