O jogo é simples: você só precisa caminhar, sempre em frente, por uma longa estrada. Ao seu redor se encontram outras noventa e nove pessoas, que, assim como você, não podem voltar para trás, nem desacelerar mais do que a velocidade mínima. Não há nenhum desafio ou prova a mais. Basta andar. E andar mais um pouco. Há bastante ânimo no início, afinal, quão insano um jogo desse tipo poderia se tornar? É só continuar a caminhada e, de uma maneira ou de outra, torcer para que no final do dia a cãibra não caia sobre uma de suas pernas. Uma advertência. Duas advertências. Vão gritar a terceira. Ei, é melhor começar a correr; você não vai querer ganhar o seu bilhete azul, vai, candidato?

Acredito que como a maioria dos leitores, uma galera reserva um tempinho do seu dia no começo do mês ou no final do anterior para definir a sua TBR (To Be Read – livros a serem lidos), e, como não é surpresa nenhuma, acontece com frequência que essa lista se transforma ao longo dos dias e semanas. A decisão de ler A Longa Marcha não veio de um desses momentos de planejamento equilibrado, mas surgiu da oportunidade e do acesso ao ambicionado Os Livros de Bachman, uma coletânea de quatro romances escritos pelo mestre Stephen King sob o seu pseudônimo, Richard Bachman, no início de sua carreira. Logo, não poderia perder a chance de ler uma das histórias atualmente esgotadas no Brasil (quem sabe a Editora Suma não arrisque o lançamento na coleção Biblioteca Stephen King).

“Todo jogo parece honesto se todo mundo é roubado imediatamente”.

Cover art on Pinterest

Em A Longa Marcha, Bachman entrega aos seus leitores uma proposta aparentemente similar a de O Concorrente, ao escolher criar um romance com ares distópicos, em que os jogos — essencialmente mortais —, são capazes de levar seus candidatos a um esforço embotado de último suspiro. Aqui há a construção de uma espécie de ensaio sociocultural, onde a sociedade futurista anseia por um evento anual denominado A Longa Marcha, cujo princípio baseia-se em uma extensa caminhada alimentada por cem jovens garotos de todo o país, selecionados, que devem seguir sempre em frente, a uma velocidade mínima de pouco menos de sete quilômetros por hora, sem promover qualquer interferência entre os demais competidores, que, impedidos de fugir ou de voltar atrás ou parar, são monitorados constantemente por soldados e pelo público que acompanha por trechos aleatórios da estrada.

Gratificantemente, neste romance temos uma escrita mais palatável de Stephen King, que escreve na forma de Bachman. Não é difícil se mesclar à trama de A Longa Marcha, que, diferentemente de O Concorrente, onde a trama é mais delineada que as personagens, temos um desenvolvimento mais focado nas personagens recorrentes do romance. Embora o livro aparente ser uma ficção mais parada, King consegue contornar a situação e entrega um enredo com personagens traçados sem muita pressa, aproveitando-se da marcha incessante.

Bachman tece a história, basicamente, em torno de Garraty, um rapaz que deixa família e namorada para competir na Longa Marcha, representando o estado do Maine, em um evento que satiriza as grandes competições de atletismo e os realities shows, recursos facilmente manipuláveis e grandes o suficiente para alienar uma sociedade cruel, insensível e sedenta por tragédias. Ao longo das páginas, que ilustram o acontecimento de poucos dias sequenciais, o autor promove discussões e reflexões por meio de suas personagens — em destaque o próprio protagonista, Garraty —, que se transformam e se adaptam ao momento, de maneira fácil ou, na maioria  dos casos, penosamente.

“As pessoas ficavam assim, notara Garraty. Inteiramente retiradas e recolhidas dentro de si, fechadas a tudo e a todos em volta. Tudo, menos a estrada. Olhavam para a estrada com uma espécie de fascinação horrorizada, como se fosse uma corda esticada sobre a qual teriam que caminhar interminavelmente, estendida sobre um abismo sem fundo”.

O interessante em A Longa Marcha é observar a interação de Garraty com as demais personagens, que, querendo ou não, também competem com o nosso “herói”. Enquanto o início da marcha é fácil e sem muitos imprevistos, com a formação de grupos e de amizades, no decorrer da trama, tudo isso começa a desbotar. Um cenário que antes era cheio de vida e de animação regada a piadas, pouco a pouco se converte em sofrimento, dor, cansaço e desesperança. Os candidatos parecem ter a sua vida drenada a medida que os passos seguem em frente, e, assustadoramente, a impossibilidade de descanso e de uma boa alimentação pesam sobre os ombros dos participantes, que sob sol forte e chuva densa, não tem o direito de parar — não enquanto os demais noventa e nove rapazes não comprarem o seu bilhete azul para o além, afinal, após a terceira advertência por baixa velocidade, o aviso seguinte vem acompanhado de um tiro. Jogo tranquilo, ein?

Por falar em personagens, vale ressaltar a importância de Stebbins, McVries, Baker, Barkovitch, Scramm e o próprio Major. Cada um tem uma personalidade bem definida, assim como seus limites físicos. Identificados boa parte do texto por números, cada um deles — com exceção do Major, que observa o andamento da competição como uma sombra oculta — se esforça para vencer. Ao passo que uns possam estimular certa empatia para com os leitores, outros podem ser a razão de uma antipatia e revolta, principalmente por seu comportamento durante a marcha.

“A morte é uma coisa maravilhosa para os apetites do homem”.

Crédito na imagem

O final vem à moda de Bachman: curto, direto e levemente amargo no paladar. A princípio pode sugerir um ar de brusquidão ou ainda descontrole por parte do autor, como se tivesse deslizado e perdido a mão, mas, quando analisado com mais atenção, traz a marca de Bachman com o adendo de conseguir promover uma reflexão a respeito de liberdade. Chega a ser poético, porém, é acima de tudo, um rompimento estético para com os finais batidos da literatura. Corajoso ou covarde, o final abre mais de uma interpretação, tornando-se um quesito capaz de elevar ou estabilizar a nota final para o leitor.

A Longa Marcha é uma alegoria de escrita fluida, que satiriza os jogos competitivos e o papel da plateia, em meio a uma sociedade futurista que consome a vida de jovens selecionados por um governo opressor — ainda que o seu papel não tenha tido o destaque que recebe em O Concorrente, por exemplo. Em um ensaio sobre liberdade e ambição, Bachman leva os seus leitores por uma estrada infindável e mortal, capaz de drenar da figura mais resistente, toda a vida e sanidade. O caminho é longo, difícil e solitário. Você está preparado para tentar o grande prêmio?

OBS1: uma adaptação cinematográfica já foi anunciada pela New Line, com roteiro de James Vanderbilt (Truth).

OBS2: imagem de capa é uma arte de Alice Berti.

A Longa Marcha Book Cover A Longa Marcha
Os Livros de Bachman
Richard Bachman
Distopia
Editora Francisco Alves
226

Em um futuro próximo, onde os Estados Unidos se tornou um estado militar, cem garotos são selecionados para entrar em uma competição anual, onde o vencedor é premiado com o que ele desejar, para o resto de sua vida. As regras são simples: manter um ritmo de marcha constante, de seis quilômetros por hora, sem parar. Três advertências, e você está fora, permanentemente.

Livro de Stephen King, escrito sob o pseudônimo de Richard Bachman, em 1979. É considerado o seu melhor trabalho pré-Carrie.

Facebook Comments

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

About The Author

Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

Related Posts