A história de como este livro – edição de dez/19 do clube Intrínsecos – veio parar em minhas mãos é no mínimo curiosa, tendo em vista que eu só me tornei assinante em março de 2020. Sabe aqueles sorteios que nos inscrevemos e nunca dá certo? Dessa vez em havia me inscrito para participar de um teste da editora Intrínseca sobre o seu clube literário – um quiz para os assinantes – e milagrosamente recebi a chamada ao vivo, na live no Instagram: acertei as perguntas e um dos prêmios que escolhi foi a edição 015, A Última Festa – movido pelo hype, é claro.

Em A Última Festa, de Lucy Foley, o leitor será convidado a embarcar em uma viagem às Terras Altas escocesas, às vésperas da virada de 2018 para 2019. Um grupo amigos – Miranda, Katie, Samira, Julien, Mark, Giles, Nick, Bo – é convidado por Emma, a última a adentrar o seleto grupo de velhos amigos, a fim de que se reúnam novamente, em uma espécie de busca por reavivar o passado e os bons momentos compartilhados.

“A primeira vez é a pior, mas a cada morte as feridas do espírito vão criando raiz. E depois de um tempo não resta mais nada a não ser cicatrizes – pág. 26.”

Arquivo pessoal

Amigos desde a época de crianças (como é o caso de Miranda e Katie) ou ainda desde a época da faculdade (caso de todos os demais, sendo Emma a última a integrar o grupo, após ter se casado com Mark), cada um deles tomou o seu próprio rumo, tiveram suas próprias experiências, trabalhos, amores e decepções, fato que tornou a amizade deles mais fragilizada, menos presente. O réveillon nas terras isoladas da Escócia, cercados pelo inverno e pela paisagem selvagem, sozinhos, isolado de toda a sociedade é a tentativa de Emma religar os pontos de um grupo extremamente problemático e de classe alta.

Com tudo muito bem planejado por Emma, desde a hospedagem em um local belo e remoto, até o cardápio e as atividades de lazer, como os jogos, as trilhas e a caça esportiva, tudo indicava um final de semana sem defeitos, memorável. Mas nem tudo são flores, não é mesmo? Além de não terem o local somente para si, pois, devido a um erro, dois hóspedes estrangeiros já estavam por lá, o grupo deverá lidar com um assassinato brutal.

Talvez o plot que mais chame a atenção daqueles que têm interesse em ler esse livro, ou ainda daqueles que se deliciam com histórias de mistério, de thrillers, seja pelo fato de que o leitor não saberá apenas quem é o/a assassino/a, mas também não saberá quem foi assassinado! Um mistério duplo desde as primeiras páginas.

A Última Festa não se trata somente do mistério de quem matou e quem foi assassinado, mas traz à tona a relevância das personagens, de sua história, seu passado complicado. Embora conheçamos nove pessoas cheias de privilégios, são suas falhas, seus rancores, decepções e segredos que movimentam a trama e os interligam entre si. De romances e trabalhos fracassados a traição, inveja, ciúmes e homofobia, Lucy Foley entrega uma história que certamente fará o leitor refletir sobre si mesmo.

Além do grupo principal, não podemos deixar de citar duas outras personagens extremamente relevantes para o desenvolvimento da história: Heather e Doug. Ambos jovens – o que promove uma incerteza sobre os motivos que os levaram a escolher aquele lugar remoto para viver e trabalhar durante todo o ano –, eles são os responsáveis pela administração e pelos serviços de recepção e zeladoria da hospedaria. É graças aos capítulos desses dois que o leitor começa a desvendar como tudo se desenrolou.

A escrita de Lucy Foley é bastante agradável e consideravelmente rápida. Ainda que existam passagens um tanto quanto maçantes ou aparentemente desnecessárias para a trama, não existe um quê de rebuscado demais. Como a maioria das histórias de suspense e policiais, a trama se desenrola sem muito entrave.

“Algumas pessoas, submetidas a determinada pressão, fora dos ambientes aos quais estão habituadas e nos quais se sentem confortáveis, não precisam de muito incentivo para se transformar em monstros – pág. 58.”

Arquivo pessoal

Entretanto, preciso salientar algo que me incomodou durante toda a história: o grupo dos nove amigos. Não há um que se salve ali, a ponto de nos identificarmos e torcermos pelo seu bem; são todos tão problemáticos que simplesmente não nos importamos como o que acontece. O mistério, mesmo, que se estende até quase o final – mas se você for observador vai pescar quem foi e porque fez o que fez antes desse ponto – não torna muito melhor. Talvez isso não desagrade a maioria, entretanto, para este leitor que vos escreve, eu preciso me conectar com as personagens, pois é isso que me faz mergulhar de cabeça na trama. Se eu não me importar com as personagens, então também não me importarei com o que estou lendo e o prazer de ler se torna um fardo.

Em síntese, para um primeiro contato com as histórias de Foley, o saldo foi positivo. Acredito que tramas ainda mais experimentais e mais conectivas virão. Torço por isso. Aos leitores e leitoras fãs dos romances de Agatha Christie e de Harlan Coben ou Liane Moriarty, Lucy Foley é mais um nome valioso a ser conhecido.

Indicado para quem gostou de: Assassinato no Expresso do Oriente, Não Conte a Ninguém e Mr. Mercedes.

A Última Festa foi lido na edição do Clube Intrínsecos, da editora Intrínseca. Leia também: O Livro de Líbero, de Alfredo Nugent Setubal.

A Última Festa Book Cover A Última Festa
Lucy Foley
Thriller l Mistério
Intrínseca l Clube Intrínsecos 015
2019
Capa Dura
338

Todo ano, nove amigos comemoram o réveillon juntos.
Desta vez, apenas oito vão voltar para a casa depois da festa.

Programado para acontecer em um cenário idílico, o réveillon que Miranda, Katie e os outros amigos que conheceram na faculdade passarão juntos este ano promete refeições deliciosas regadas a champanhe, música, jogos e conversas descontraídas.

 

No entanto, as tensões começam já na viagem de trem — o grupo não tem mais nada em comum além de um passado de convivência, feridas jamais cicatrizadas e segredos potencialmente destrutivos.

 

E então, em meio à grande festa da última noite do ano, o fio que os mantém unidos enfim arrebenta. No dia seguinte, alguém está morto e uma forte nevasca impede a vinda do resgate. Ninguém pode entrar. Ninguém pode sair. Nem o assassino.

 

Contada em flashbacks a partir das perspectivas dos vários personagens, a história deste malfadado encontro é um daqueles mistérios de assassinato cheio de tensão e de ritmo perfeito. Com uma trama assustadora e brilhantemente construída, A última festa planta no leitor a semente da dúvida: será que velhos amigos são sempre os melhores amigos?

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.