Lembro que na primeira vez em que tive contato com Alice, ainda quando criança, por meio de um livro ilustrado, não havia comprado a ideia surreal da história de Carroll. Naquela época, nos meus 8 ou 9 anos, o que mais me interessava eram as imagens de serezinhos esquisitos, animais falantes e curiosamente desproporcionais. Anos mais tarde, já adolescente e no ensino médio, li o livro em uma edição surrada disponível na biblioteca de minha escola. Devo ter gostado da história, mas evidentemente ela passou despercebida, tão repentina e desimportante que hoje me sinto culpado. Acredito que algumas leituras têm o seu momento em nossas vidas, pois aquele não foi o de Alice. Felizmente, hoje posso dizer que a li devidamente, como o texto lúdico de Carroll merece.

Alice é uma garotinha de instinto impaciente e mente perspicaz que, em determinada tarde, quando quase caía de sono e tédio observa um coelho branco passar veloz mais adiante, apressado, sempre apressado, consultando – por que não? – o seu relógio de bolso. Já aqui o leitor perceberá os rumos da história clássica de Alice, bem como os caminhos irreais e surreais traçados por Lewis Carroll. Alice no País das Maravilhas é uma aventura de um fôlego só por uma estrada que foge a qualquer regra da natureza e do senso comum. Maluquice pura e divertida com pitadas de ironias pontuais.

“Tome mais chá”, disse a Lebre de Março para Alice, muito sisuda.

“Ainda não tomei chá algum”, respondeu Alice, ofendida, “de modo que não posso tomar mais.”

“Não pode tomais menos, na verdade”, corrigiu o Chapeleiro. “É muito fácil tomar mais de qualquer coisa.”

Arquivo pessoal – IG @liemderry_

Adaptada para as mais diversas mídias, de filmes a jogos, de peças de vestuário a canções, desta vez, a obra máxima de Carroll recebe três versões exclusivas e de colecionador, desenvolvidas com excelência pela Darkside Books: a Classic Edition (capa azul e vermelha), a Limited Edition (capa vermelha e preta) e a Baby Edition, parte do selo Caveirinha, dedicada para as mentes mais jovens.

Se por um lado o texto de Carroll é a sua representação máxima, seu maior legado para o público leitor, não podemos deixar de comentar sobre as estranhezas e polêmicas que cercaram sua vida. Nas edições citadas acima, os fãs encontrarão muitos extras, tais como fotos de Alice, de Carroll e um texto de introdução fantástico, de Marcia Heloisa, responsável pela tradução do livro e que certamente jogará luz às trevas e promoverá a reflexão em cada leitor e leitora fiel.

Alice no País das Maravilhas não nasceu já com esse título. Antes de ser adaptado, o autor havia escolhido As Aventuras de Alice no Reino Subterrâneo, que, embora não seja de todo incorreto, não captava o teor verdadeiro de todo aquele épico surreal em terras tão surpreendentes.

Dedicado para a criança que ele mais adorava, aquela que mais o fascinava, Alice, o livro foi escrito pelo professor gago justamente como um tributo. Optando pelo pseudônimo, a verdadeira faceta de Lewis Carroll surgia na sombra de Charles Dodgson, que além de bom escritor era um exímio fotógrafo. Sempre solitário, Dodgson manteve predileção pela companhia das crianças, que, inclusive, foram inúmeras vezes retratadas em seus ensaios fotográficos. Dentre as centenas de fotos tiradas, boa parte retrata a figura emblemática de Alice Liddell, amiga e criança ideal (nas próprias palavras do autor) que nunca deixou sua mente. Mesmo após o rompimento da família com Charles (momento curioso de sua biografia e que permanece sem explicação concreta, tendo, inclusive, páginas de diário rasgadas), Alice Liddell receberia sua cópia manuscrita, posteriormente responsável por salvar sua vida econômica. Embora não se deseje acusar explicitamente o autor de obra tão memorável, não podemos deixar de discutir suas reais intenções, frente a um assunto tão delicado. O que Charles “Lewis Carroll” Dodgson fazia com todas aquelas crianças? As especulações, como coloca bem a tradutora, são infindas, mas merecem ganhar voz.

Arquivo pessoal – IG @liemderry_

Alice no País das Maravilhas é um clássico que não deixa de envelhecer bem. Uma fantasia alucinada, uma aventura que merece ser lida de uma vez só, a fim de se experimentar os encontros e diálogos divertidamente surreais entre Alice e suas personagens. Da Lagarta a Lebre de Março, do Chapeleiro Maluco a Rainha de Copas e ao Gato de Cheshire, todas alegorias de uma mente multifacetada e da experiência de Carroll.

Alice no País das Maravilhas Book Cover Alice no País das Maravilhas
Lewis Carroll
Fantasia
Darkside Books
2019
Físico Capa Dura
2018

Uma menina, um coelho e uma história capazes de fazer qualquer um de nós voltar a sonhar. Alice é despertada de um leve sono ao pé de uma árvore por um coelho peculiar. Uma criatura alva e falante com roupas engraçadas, que consulta seu relógio e reclama do próprio atraso. Curiosa como toda criança, Alice segue o animal até cair em um buraco sem fim que mudou para sempre a literatura infantil. Mais de 150 anos depois, Alice no País das Maravilhas continua repleto de ensinamentos para aqueles que ousaram seguir o Coelho Branco até sua toca. A DarkSide Books deu a cartada que seus leitores tanto pediram. Alice no País das Maravilhas é uma obra tão grandiosa que não cabe em uma única edição. Agora, além de oferecer uma experiência peculiar com o visual único de cada uma das três novas edições, a editora apresenta um projeto gráfico interno completamente distinto para os diferentes leitores do clássico de Lewis Carroll. O novo selo editorial Fábulas Dark chega em grande estilo. Alice no País das Maravilhas tem nova tradução da pesquisadora Marcia Heloisa — já conhecida dos darksiders por seu trabalho com Drácula e os dois volumes dedicados a Edgar Allan Poe —, além do poema narrativo “Fantasmagoria”, de 1869, traduzido por Leandro Durazzo. Para os leitores que não abrem mão dos clássicos, a Classic Edition apresenta as ilustrações originais de John Tenniel para a primeira edição de 1865, além de um projeto gráfico que remete à época de lançamento da obra. Um clássico literário, uma obra que sobrevive à passagem do tempo, e que enriquece suas possibilidades de leitura. Alice no País das Maravilhas é uma leitura que encanta crianças com sua trama, arrebata entusiastas da linguagem com seus jogos de palavras, chama a atenção dos fãs do psicodélico por seus personagens, entre tantos outros interesses que as aventuras da pequena Alice atraem. A obra que se tornou mais forte de geração em geração agora encontra lugar no coração dos leitores da DarkSide Books. Edições impecáveis, de fã para fã.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.