As estações passam velozes, num girar pelo espaço que nunca se interrompe. As sementes anteriormente lançadas à terra são engolidas, e em seu seio arenoso devem romper a casca e germinar, enquanto o tempo se esvai. Pouco a pouco, a colheita toma forma e ganha robustez. As palavras aqui plantadas são frutos de inúmeras mãos e, considerando o tempo de maturação, finalmente podem ser colhidas sob a forma desta Antologia Macabra. Sirva-se, se vosso estômago permitir.

Antologia Macabra nasce como um livro de contos de terror e horror, organizados por Hans-Åke Lilja em comemoração aos vinte anos do site Lilja’s Library, especializado no universo literário criado por Stephen King. Auxiliado e inspirado por Brian Freeman – editor da Cemetery Dance –, Hans conseguiu reunir doze tentadoras contribuições, entre contos inéditos, escritos especialmente para a antologia e contos clássicos ou anteriormente publicados.

Livro Antologia Macabra disposto sobre um pôster macabro, alguns marcadores de livro da coleção Darkside e uma cruz de madeira invertida.
Antologia Macabra – foto: arquivo pessoal

Antes que comentemos das histórias que mais merecem atenção, devemos conversar sobre alguns pontos mais gerais de Antologia Macabra, entre eles a fluidez da narrativa do livro e os temas mais abordados:

— Ainda que a antologia organizada por Hans tenha pouco mais de duzentas páginas, a distribuição em doze contos consideravelmente curtos torna a leitura extremamente fluida, ou seja, rápida, quase imperceptível. Transitando entre o gênero de terror e horror, basicamente, nem mesmo o teor assustador das histórias impedem ao leitor voraz o avanço pelas páginas. A sagacidade em apostar em histórias curtas promove o sucesso de boa parte dos contos selecionados.

— Tratando-se dos temas, Hans convidará os leitores a redescobrirem seus medos em parques abandonados e atrações circenses assombradas e misteriosas; reencontrar seu antigo amor; interagir com criaturas estranhas e muito mais temas macabros.

A seguir, apresentarei três dos contos que mais me intrigaram e me impressionaram, bem como os motivos para tanto:

O Fim de Tudo, de Brian Keene: este é na minha humilde opinião o melhor conto da antologia de Hans-Åke Lilja. Diferente de tudo o que podemos encontrar em Antologia Macabra, em O Fim de Tudo, Brian Keene nos convida a conhecer a história de um pai que perdeu todos os que um dia já amou. A forma como tudo aconteceu é narrada pelo protagonista, que em nenhum momento se identifica.

Dia após dia, reencontramos nosso protagonista em sua agonia pessoal. Junto dele, o observamos desejar que o mundo acabasse de inúmeras formas, esperançoso que a força de sua vontade seja o suficiente para fazer as rodas da magia finalmente engrenarem. Dos fins pelo aquecimento global a um apocalipse zumbi, da erupção de um vulcão ao choque de um asteroide contra a Terra; sua vida parece ter um único propósito: esperar o fim de tudo.

Livro Antologia Macabra aberto e disposto sobre um pôster macabro, alguns marcadores de livro da coleção Darkside e com uma cruz de madeira invertida por cima.
Antologia Macabra – foto: arquivo pessoal

Se por um lado os demais contos versem sobre o horror e o terror, O Fim de Tudo transborda um drama profundo, delicado e intensamente doloroso. O macabro não está no propósito da história, mas talvez no que a vida transforma nosso protagonista. Não o conhecemos, não sabemos sua idade, sua aparência e sua trajetória de vida, mas nos conectamos a ele como poucas vezes nos conectamos a outras personagens.

Atraídos para o fogo, de Kevin Quigley: mais um dos contos notáveis dessa edição; aqui seremos levados juntos de Chip, Bobby e Johnny, três crianças de dez a doze anos que acreditam serem corajosas o suficiente para burlarem as regras e enganarem seus pais, de modo a conseguirem ir até o parque de diversões itinerante. Lá, conhecem LaRue, um homem estranho e responsável pela atração chamada Mundo do Espanto. Desejosos de encarar a atração, LaRue os convida, entretanto, para algo ainda mais assustador: Atraídos para o Fogo, uma casa mal-assombrada no topo de uma colina.

Sendo um dos contos mais longos da antologia, Atraídos para o fogo consegue desenvolver uma série de infortúnios que se acercam das personagens. A história consegue trabalhar com sucesso o terror que entranha os subcapítulos, alcançando um clímax maravilhoso, ainda que não totalmente imprevisível. A forma como a narrativa se desenrola pode recordar ao leitor nostálgico obras como IT e O Corpo (Outono da Inocência).

O companheiro do guardião, John Ajvide Lindqvist: por falar em histórias espetaculares, o conto de Lindqvist evoca toda a nostalgia dos jogos clássicos de RPG e ainda faz referência às histórias cósmicas de H. P. Lovecraft.

Aqui, encontramos Albert, um garoto sueco que nasceu para ser mestre do jogo nas partidas de RPG. Extremamente criativo e sempre com o suporte incondicional de seus pais, o jovem parece finalmente construir sua identidade e sua reputação no colégio. Do outro lado da linha, temos Oswald, um garoto que costuma sofrer demasiadamente com o bullying na escola, enquanto tenta se enturmar na roda de amizade de Albert.

Inesperadamente, um ponto em comum interliga os dois personagens a um futuro estranho, onde acompanhamos as descobertas da adolescência, os amores e desafetos se misturarem.

A história de Lindqvist, brilhantemente redigida para a edição de Antologia Macabra, encerra com chave-de-ouro o livro de contos, seguindo pelo horror sempre com uma fluidez narrativa que impressiona. O leitor facilmente se pegará pesquisando pelo autor sueco, em busca de mais obras para conhecer.

Ainda que o livro possua boas histórias, não poderia encerrar essa resenha antes de comentar sobre a existência de três contos extremamente problemáticos que abrem a Antologia Macabra, de Hans-Åke Lilja.

Livro Antologia Macabra aberto e disposto sobre um pôster macabro, alguns marcadores de livro da coleção Darkside e com uma cruz de madeira invertida sobre as páginas.
Antologia Macabra – foto: arquivo pessoal.

— Sendo provavelmente o chamariz da antologia, O Compressor de Ar Azul (1971), de Stephen King é um verdadeiro show de horrores – e não no sentido de ser aterrorizante –, principalmente por seu protagonista que promove o espírito da misoginia e da gordofobia. Dotado de experimentações narrativas e interferências incômodas, todo o texto é desproposital e indigesto de se ler. Talvez por ser um conto anterior a sua primeira publicação (Carrie, 1974), ele carregue toda uma visão deturpada do eu mais jovem do autor, distante do crivo afiado de Tabitha King.

A Rede, de Jack Ketchum & P. D. Cacek, poderia ser um conto interessante, reflexivo e em tom de alerta sobre os perigos de se relacionar pela internet, porém desliza e se sobressai como uma história envolvendo o relacionamento abusivo em que quem não deveria ser vítima é culpada e o agressor é tratado, inclusive, com condescendência pela polícia.

— Finalmente, Pidgin e Theresa, de Clive Barker: neste conto, temos como protagonistas, Pidgin, um papagaio, e Theresa, uma tartaruga, ambos de Raymond Pocock, futuro santo e curandeiro das crianças. Por meio de um anjo, observamos sua ascensão aos Planos Celestiais. O conto se torna extremamente problemático ao transformar a figura de um abusador de menores em herói, narrando sua redenção pelos olhos das protagonistas. Intragável, intragável e intragável.

Iniciando de maneira obscura, controversa, Antologia Macabra consegue estabilizar-se como um bom livro de contos, principalmente se compreendermos seus problemas e o discutirmos. A contribuição valorosa de autores como Ludqvist, Keene, Campbell, Quigley e Poe também são responsáveis pela boa avaliação. Todavia, a participação de alguma autora de terror e horror, tais como Seanan McGuire, Anne Rice ou até mesmo Octavia Butler enriqueceriam muito mais a antologia (e poderiam substituir os contos questionáveis).

Antologia Macabra Book Cover Antologia Macabra
HANS-ÅKE LILJA
Terror
Darkside Books
2020
Capa Dura
240

O sangue que corre nas veias da DarkSide® tem uma energia peculiar. Leitores que apostam no escuro já sabem que o DNA da Caveira é puro terror. Para honrar o pacto sangrento entre as duas marcas, a DarkSide® apresenta a Macabra, novo selo da DarkSide® Books que mostra a beleza da vida e do sangue em obras ainda mais assustadoras e transgressoras que vão conquistar um lugar especial no coração dos leitores mais macabros. Para homenagear os grandes mestres da literatura dark, a DarkSide® Books e a Macabra Filmes orgulhosamente apresentam a Antologia Macabra. Organizada por Hans-Åke Lilja ― editor do Lilja’s Library, um dos principais sites do mundo dedicados às obras de Stephen King, no ar desde 1996 ―, a coletânea reúne o medo e o horror de treze almas macabras selecionadas a dedo para exaltar o que há de mais sombrio na literatura. Entre histórias assombrosamente originais, os leitores encontrarão o raro “O compressor de ar azul”, do mestre Stephen King ― que nunca apareceu em nenhuma das antologias do autor e, antes da publicação desta coletânea, não era impressa em lugar algum desde 1981 ―, “O fim de tudo”, um momento de noir assustador de Brian Keene, “A dança do cemitério”, de Richard Chizmar, amigo e parceiro criativo de Stephen King, que mostra um homem caindo na loucura e obsessão, entre outros fragmentos tenebrosos. Banquete cheio para os leitores famintos por histórias arrepiantes, Antologia Macabra revela também mestres cultuados mundo afora, como Clive Barker, Jack Ketchum, Ben Vincent, Stewart O’Nan, Kevin Quigley, Ramsey Campbell, Brian James Freeman e John Ajvide Lindqvist ― autor do incrível romance Deixe Ela Entrar ―, e com ilustrações do francês Odilon Redon, um dos mais importantes do simbolismo, que transpôs em tela seus sonhos e pesadelos. O primeiro volume desta antologia chega pelo selo Macabra, resultado de um pacto de sangue entre a DarkSide® Books e a Macabra Filmes com o compromisso de trazer à vida livros e quadrinhos de horror, sempre com a qualidade já conhecida das edições da Caveira ― puro terror, 100% macabra. Chegou a hora da Colheita Macabra A Macabra Filmes e a DarkSide® Books selaram um pacto eterno na quarta-feira de cinzas de 2019, promovendo filmes e seus criadores, apresentando com curadoria e critério os novos nomes do cinema de terror nacional e internacional. A DarkSide® Books agora inaugura o selo Macabra dentro de sua casa editorial, trazendo livros e quadrinhos que vão deixar a sua estante mais trevosa. Para dar início à colheita, a DarkSide® apresenta três títulos: Antologia Macabra, com histórias de horror e mistério escritas por grandes mestres da literatura dark, como Stephen King e Clive Barker; Medicina Macabra, uma reunião de casos arrepiantes e constrangedores da medicina; e Vitorianas Macabras, uma antologia inédita de vozes femininas da Era Vitoriana em treze contos de gelar a espinha, perfeito para fãs de Lady Killers. A fazenda está pronta para cultivar o horror em todas as suas formas.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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