Algumas leituras nós decidimos assim, de repente, sem pensar direito. É um movimento descabido, rápido, intranquilo e em direção à estante, que mal pensamos, muito menos entendemos. Segundos depois e lá está o livro na mão. Próxima parada? Não sei, mas vamos descobrir. Páginas que voam e vejam só: que leitura maravilhosa! La Dame Chevalier foi assim.

Este leitor que vos escreve, há uns bons anos olharia para as quase 128 páginas do romance de A. Z. Cordenonsi e pensaria que dificilmente haveria ali uma história instigante e bem desenvolvida em tão poucas páginas. Como poderia? Ah, se eu tivesse sido menos cabeça-dura, talvez descobrisse outros mundos, outras aventuras tão grandes, tão deliciosamente divertidas quanto as de Chevalier. Bem, tudo a seu tempo, eu acho…

“Onde é mais fácil esconder um grão de areia? Em um deserto. Onde você pode esconder o desaparecimento de centenas de pessoas? Em uma guerra.”

Acervo pessoal – @liemderry_

Para os leitores tão perdidos quanto eu estive, o universo das histórias de Chevalier é surpreendentemente extenso e diverso, variando entre contos disponíveis em e-book na Amazon, até série em quadrinhos e livros não muito longos, tais como La Dame Chevalier (2019) e Le Chevalier e a Exposição Universal (2014), lançados pela editora Avec.

Como eu citei um pouquinho mais acima, minha decisão de ler veio de átimo, não pensei muito bem, só peguei, deitei na cama e comecei a ler La Dame Chevalier. Talvez essa não tivesse sido a ideia mais acertada, pois esse livro é uma espécie de sequência – não tão direta assim – de Le Chevalier e a Exposição Universal. Embora possam ser lidos separadamente, pela ordem que o leitor desejar, La Dame Chevalier tem citações a personagens do passado, a casos que certamente agradarão mais quando apreendidos pelo leitor. Não são spoilers, veja bem, mas peças do quebra-cabeça que é p cargo de Chevalier.

A história se inicia em 1902, quando observamos um grupo estranho interrogando violentamente um homem, em busca daquilo que chamam de il tavolo. Os indivíduos – italianos, é claro – agem rapidamente, escondidos pelo manto de uma organização sombria. O interessante aqui, pelo menos ao leitor que se sente atraído por temas históricos, se trata da participação de um personagem emblemático, mas terrivelmente relevante para os acontecimentos da primeira metade do século XX. Façam suas apostas!

Os capítulos curtos nos guiam diretamente para uma Paris de 1927, diferente daquela que conhecemos estruturalmente nos livros de história. A diferença a que me refiro aqui é que o leitor se encontrará no coração do Império Francês, modernizado pelo uso de mecanismos a vapor, dirigíveis, dutos de ar, drozdes – animais mecânicos vinculados a uma pessoa, bastante versáteis no dia-a-dia e inteligentes. A França se ergue renovada, o epicentro de uma Europa guiada pelo ferro, fumaça e óleo; a Ciência está no auge.

Assim como cada país possui o seu serviço de inteligência e contraespionagem, o Império Francês também tem e se trata do Bureau, uma imponente organização governamental que detém uma imponente figura da espionagem francesa: Chevalier é um dos cargos mais relevantes da Coroa e, pela primeira vez na história, quem se investe desse é uma mulher.

Um soldado foi assassinado em um hospital militar no Marrocos, em meio a um conflito entre dissidentes locais e franceses. Como se não bastasse a circunstância, um estranho artefato desaparecido há centenas de anos parece ser o cerne da questão, ou ao menos a melhor pista. Guiada por seus instintos apurados e por sua sede em descobrir os eventos que remontam ao seu passado, La Dame Chevalier ruma para o centro do conflito, junto de sua protegida, Justine Carbonneau.

Embora não seja a melhor comparação, enquanto lia me senti revivendo as melhores sensações de quando lia muito os romances de Agatha Christie. Talvez seja pelo clima europeu, ou então pelos mistérios, a espionagem e a aventura rápida, ou ainda pela escrita agradável, desenvolta e muito bem traçada, mas ler La Dame Chevalier tornou minhas tardes definitivamente animadas.

“Não havia nada mais perigoso do que um ideal. Principalmente se este ideal fosse estúpido.”

Arte de capa da série em quadrinhos de Le Chevalier, do mesmo autor

É curioso como tudo funciona muito bem no livro de A. Z. Cordenonsi, desde as personagens principais, que estabelecem facilmente um vínculo de empatia com o leitor, por sua história amarrada e por suas ações objetivas, mas não isentas de emoção. Enquanto Chevalier é tem uma mente mais analítica, Justine é mais impulsiva, sendo bastante decidida nos rumos que quer tomar, além de entregar momentos divertidos ao público leitor. As personagens coadjuvantes também se relacionam bem na história, sem funcionar como penduricalhos desimportantes. Ressalto ainda o conhecimento histórico do autor, que insere fatos e momentos bem delineados na trama, dando um fundo mais firme ao livro.

Com La Dame Chevalieri, A. Z. Cordenonsi entrega uma obra fantástica, uma aventura que percorre as areias do deserto, apresentando mercenários, espiões, aparatos mecânicos curiosos, organizações misteriosas e muito mais. As páginas voaram e eu me vi apaixonado pela história dos Chevalier. Cordenonsi é um nome a ser notado, de fato!

Indicado para quem curte: Agatha Christie, Enéias Tavares, Sherlock Holmes e Auguste Dupin, de Poe.

La Dame Chevalier e a Mesa Perdida de Salomão Book Cover La Dame Chevalier e a Mesa Perdida de Salomão
La Dame Chevalier
A. Z. Cordenonsi
Steampunk
Avec
2019
Físico
128

O ano é 1927 e o assassinato de um soldado em um hospital militar em Marrocos dá início a uma corrida por um artefato valiosíssimo, desaparecido há mais de mil anos: A Mesa de Salomão, o Rei dos Reis, que concederia a seu possuidor a sabedoria de mil sábios. E quando a investigação realizada pelo Bureau aponta que a arma é a mesma utilizada no assassinato dos pais da atual La Dame Chevalier, a agente decide viajar para o norte da África em busca do artefato e de respostas. Acompanhada da jovem Justine Carbonneau, as duas seguem para o deserto em meio a uma guerra entre o império e os berberes, que lutam pela independência. Mas a Chevalier terá concorrência. Mercenários, liderados pela misteriosa organização Ostia Mithrae, também pretendem reivindicar o prêmio e estão dispostos a destruir qualquer um que se interpor em seu caminho.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.