“Escrevo isso sob uma pressão mental considerável, já que, à noite, não mais existirei”. Poderia dizer que esta mesma obra me foi entregue pelo mesmo carteiro responsável pelas cartas de casa e que não havia pressentimento quanto à escuridão fervilhante de terrores cósmicos escondidos entre as páginas. Seria loucura demais? Receio que a curiosidade e a leitura cautelosa não tenha me afastado de presenciar os pavores ciclópicos e inomináveis à mente humana, nem muito menos da sensação pesadelar de algo terrivelmente ancestral. Há uma sombra à espreita. Eu sei disso. Vocês devem saber disso também. Apresso-me para terminar de lhes escrever, pois antes que os tentáculos da loucura me abracem, precisarão se decidir entre fugir eternamente ou atender ao Chamado e adentrar as Montanhas da Loucura.

A primeira frase dessa resenha não é minha, evidentemente, pois pertence ao conto Dagon, presente neste primeiro volume de uma antologia desenvolvida primorosamente pela editora Darkside. No entanto, ela, a frase, é a razão de eu ter, definitivamente, me apaixonado pela genialidade da mente insana e criativa de H. P. Lovecraft. Embora eu nunca tivesse me aventurado pelos textos do autor antes, me surpreende a rapidez com que me convenci de estar curtindo a antologia.

Neste primeiro volume da coleção Medo Clássico, de Lovecraft, temos a reunião de nove contos muito interessantes: Dagon, A Cidade Sem Nome, Herbert West: Reanimator, O Depoimento de Randolph Carter, O Cão de Caça, O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura, A Sombra Vinda do Tempo e A História do Necronomicon.

“Morto não está o que pode eternamente jazer, e com éons estranhos até a morte pode morrer”.

Dagon, from Pinterest

Considerado um mestre do horror cósmico, Lovecraft entrega aos seus leitores uma escrita consideravelmente mais rebuscada e recheada de adjetivações que não apenas encorpam mais os seus textos, mas também os tornam mais complicados de imergir completamente na trama sem se perder pelos caminhos obscuros de suas personagens. Justamente por isso, talvez alguns leitores considerem a sua narrativa um tanto quanto exaustiva, porém, não menos recompensadora. À medida que se acostuma com a maneira de escrever e de contar suas histórias, Lovecraft leva cada um de seus expectadores a um show fantástico de reflexão quanto à natureza humana e a sua relevância para o universo, enquanto resgata a realidade de sua época, construindo um cenário de loucura e horror tão elevados que ainda décadas após sua morte, inspira gerações.

Lovecraft, como grande admirador de Edgar Allan Poe, enxerga nos mistérios do universo a sua razão para escrever histórias carregadas de um terror que frequentemente leva suas personagens à loucura. Conhecimentos cósmicos que deveriam permanecer longe das mentes humanas; ciência alienígena; dominação e escravidão; a criação da vida, viagens no tempo e no espaço; cidades ocultas, submersas e enterradas há éons; artefatos ancestrais impregnados pelo mal; loucura e um horror inominável, cósmico; são temas recorrentes, habilidosamente escritos por Lovecraft, que também se utilizava dos conhecimentos científicos de astronomia e biologia que efervesciam na sua época, recurso este que enriquecia seus contos.

A respeito dos contos, citarei os três que mais me impressionaram durante a leitura:

O Chamado de Cthulhu: esta nada mais é do que a história mais famosa de H. P. Lovecraft, responsável por elevar o seu nome e também a criatura a que dá nome o título a uma das principais figuras do horror. Aqui, os leitores conhecerão a história de um narrador que recebera a herança de seu tio-avô, um professor emérito da Universidade Brown. Com a herança, ele recebe também diversos objetos e papéis que reúnem anotações das pesquisas de seu tio no mínimo estranhas. Desconfiado e curioso, ele deverá seguir os últimos passos do professor, atravessando eventos incomuns que vão de rituais ancestrais ao conhecimento de algo inominável. Trata-se de um conto excelente e que dá mais informações sobre a mitologia cósmica do autor.

“Era o pesadelo encarnado; e contemplá-lo significava a morte. Mas ele fazia com que os homens sonhassem, e assim eles sabiam o suficiente para se manter afastados”.

Art by Ivan Stan

Nas Montanhas da Loucura: mais uma das histórias mais famosas de Lovecraft, adaptada em diversas mídias, configurou como o meu conto favorito dessa edição. Embora a escrita do autor requeira mais atenção do que o usual, a leitura dessa obra me despertou sentimentos mesclados de angústia e medo. Aqui, a trama gira em torno de relatos sobre uma expedição científica ao deserto gelado da Antártida, onde cordilheiras imensas são descobertas. Lá, após vencer ventos violentos, parte da expedição encontra vestígios de uma cidade abandonada e, na base das montanhas brancas, fósseis congelados de uma estranha e inédita espécie milenar. Os relatos que seguem são continuamente tensos e valem absurdamente a leitura.

Art by Giovani Luengo

A Sombra Vinda do Tempo: mais um conto memorável de Lovecraft, que reúne ficção científica ao horror cósmico. Ainda que seja um pouco mais complexo, a leitura é recompensadora. Nesta história, o protagonista, também professor universitário, sofre uma amnésia que se estende por alguns anos. Quando ele começa a recuperar suas faculdades mentais, passa a sofrer sonhos assustadores que lhe sugerem ter a ver com parte do seu passado. A curiosidade e algumas descobertas vindouras o encorajam a procurar respostas no deserto australiano, terras abrasadoras que transformarão tudo o que antes ele conhecia como tempo e espaço. É um conto que aparentemente parece irracional, mas que na medida em que se avançam as páginas, atribuí toda a carga de tensão que explode em um dos melhores finais de Lovecraft. É algo que reverbera na mente, mesmo após a leitura.

Archivist of Yith

Além dos contos acima, devo citar também Cão de Caça, Herbert West: Reanimator e Dagon, textos que me impressionaram, seja pela habilidade do autor de escrever parágrafos iniciais fantásticos, seja pela história original ou ainda pelos finais emblemáticos. A edição da Darkside conta ainda com uma belíssima introdução de Ramon Mapa e mais alguns extras, inclusos rascunhos originais de Lovecraft.

“Incessantemente, ressoam em meus ouvidos torturados um guinchar e um farfalhar oriundos de algum pesadelo, e um ladrar débil e distante como o de um gigantesco cão de caça”.

A maneira que Lovecraft conduz o seu texto, quase sempre como um depoimento, um relato, uma confissão ou um alerta; em primeira pessoa, isento de falas, apenas uma narrativa extensa, porém sedutora, impressiona. Ainda que a vida do autor tenha sido polêmica, não há como negar que a sua escrita tem estilo próprio.

Uma última e não menos importante observação: aos leitores mais próximos dos grandes clássicos, talvez não seja surpresa ressaltar o caráter xenofóbico, racista e demasiadamente preconceituoso de H. P. Lovecraft, que exala em boa parte de seus mais famosos contos. O mais observador dos leitores certamente notará como funcionava a mente do autor, seja por sua forma de conduzir o pensamento de suas personagens, seja pela ausência de protagonistas femininos e estrangeiros não estereotipados. Lovecraft não foi a melhor das pessoas de sua época, ainda que fosse indiscutivelmente criativo.

Já escuto o som agudo, praticamente inominável se elevando atrás da porta. A tinta rascunha e a caneta grava sulcos no alerta deste papel. A sombra vem do tempo; o chamado, das profundezas do oceano e o som ancestral, das fendas de basalto negro enterradas nas areias. Leia por sua conta e risco e esteja pronto para abraçar a loucura. Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn.

Lovecraft Book Cover Lovecraft
Medo Clássico Vol. 1
H. P. Lovecraft
Horror Cósmico
Darkside Books
2017
Capa Dura
384

Stephen King, Neil Gaiman, Caitlín R. Kiernan, Ridley Scott, Sam Raimi, Alan Moore e muitos outros criadores seguem o mesmo líder. Se você também é um adorador do lado mais sombrio da literatura, junte-se ao culto a H.P. Lovecraft.Hoje em dia fica difícil imaginar a cultura pop sem a presença de Howard Phillips Lovecraft. Reconhecido como o legítimo sucessor de Edgar Allan Poe, Lovecraft passou a vida desenvolvendo seres e universos fantásticos. Assim como Tolkien, ele criou sua própria mitologia com deuses e entidades ancestrais.Seu terror cósmico, onde o bem e o mal independem de carma ou moralidade, influenciou muitos dos livros, filmes, bandas e games que a gente tanto ama. De Evil Dead a Re-Animator, de Alien aos zumbis de George Romero, das músicas do Metallica às capas do Iron Maiden, das partidas de Alone in the Dark ao Asilo Arkham de Batman... os exemplos de adaptações e inspirações são incontáveis, a ponto de “lovecraftiano” ser considerado um estilo.A primeira editora brasileira inteiramente dedicada ao terror e à fantasia não poderia comemorar cinco anos de estrada sem o mestre dos mestres em sua casa. H.P. LOVECRAFT: MEDO CLÁSSICO VOL. 1 é o livro que todo darksider sempre sonhou. Uma seleção especial de contos e novelas do autor que revolucionou o terror e a ficção científica no século XX, seguindo aquele padrão de qualidade quase psicopata como só a DarkSide® Books sabe fazer.Uma homenagem àquele que foi tão bem-sucedido na tarefa de pensar o impensável, a edição da DarkSide® é feita de fã para fã: da capa dura à nova tradução com notas comentadas de Ramon Mapa, grande estudioso da obra, dialogando com as ilustrações de Walter Pax, que parecem ter saído do próprio Necronomicon.A obra também conta com uma seleção de cartas e documentos coletados pelo historiador Clemente Penna na Brown University especialmente para esta edição, tudo feito com cuidado e carinho para que os verdadeiros adoradores do filho de Providence tenham em mãos a edição definitiva do mestre.LOVECRAFT EM DUAS EDIÇÕES“Lovecraft para todos.” Foi dessa frase que surgiu todo o conceito para as novas edições que vão perpetuar o legado do mestre. Leitores de várias gerações vão poder apreciar a magnitude de um autor que é clássico e pop, atual e revolucionário.Um escritor tão universal como Lovecraft não caberia numa única edição. Por isso, a DarkSide® Books atendeu ao chamado de Cthulhu e preparou duas opções em capa dura: MISKATONIC EDITION e COSMIC EDITION.O texto das duas edições de H.P. LOVECRAFT: MEDO CLÁSSICO VOL. 1 é o mesmo, mas cada uma delas reflete a personalidade de seus peculiares leitores. A MISKATONIC EDITION é uma obra-prima para sua biblioteca, inspirada na universidade que o escritor criou em seus contos.Leia a introdução e o primeiro conto, "Dagon":

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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