Ah, claro, ali não havia janelas, nem frestas, nada que lhe permitisse ter um vislumbre do exterior. A luz era artificial e a ventilação muito fraca. Embora não houvesse umidade ou qualquer sinal de decrepitude, todo aquele cenário, bem mobiliado, cheio de livros, quadros e perfumes não enganavam os olhos: não passava de uma jaula requintada. A sua liberdade fora raptada, sua voz era abafada e os sons que lhe escapavam vinham ora da vitrola ao lado, ora dos passos firmes lá de cima. Isso estava realmente acontecendo. Bem-vindo à coleção.

Tenho em mente que 2018 se desenrolou como um dos anos mais diversificados para lançamentos de livros no Brasil, com obras plurais, de vários gêneros e formatos, de autores novos e premiados, bem como de autores já consagrados, resgatados da geladeira dos ditos “esgotados há muitos anos”.

Seguindo esse argumento, a Darkside Books lançou (ou melhor, relançou) um verdadeiro clássico da literatura mundial, O Colecionador, de John Fowles, responsável por influenciar grandes nomes da ficção contemporânea, de Thomas Harris (O Silêncio dos Inocentes) a Stephen King (IT: a Coisa, A Dança da Morte, O Cemitério, A Incendiária e Outsider). Como se não bastasse somente isso, o livro recebeu uma adaptação cinematográfica em 1965, pelo diretor William Wyler (Ben-Hur, 1959, vencedor de 11 Oscar; indicado ao Oscar, 1966, Melhor Diretor, O Colecionador), contando com as interpretações de Terence Stamp (Cannes Film Festival, 1965, Melhor Ator) e Samatha Eggar (indicada ao Oscar, em 1966, e vencedora do Globo de Ouro, 1966), nos papeis principais. Um verdadeiro sucesso!

“Só porque você não consegue expressar seus sentimentos, não significa que eles não sejam profundos.”

Cena do filme homônimo (1965).

O Colecionador narra a história de Frederick Clegg — ou Ferdinand, ou ainda somente Caliban —, um funcionário público do anexo da prefeitura. Clegg é um homem aparentemente contido, discreto, mas que secretamente nutre uma fascinação enorme por Miranda Grey, uma jovem estudante que é frequentemente notada por Clegg, já que ela estuda próximo de onde ele trabalha. Diariamente, ele anota em seu diário certas observações, a princípio com um X, posteriormente com um M, quando descobre o nome da jovem.

A fascinação de Clegg por Miranda é tão expressiva que em alguns momentos ele se arrisca e entra em filas em que ela também está, ou a observa em seus trajetos, quase sempre acompanhada de rapazes, de amigas. É perceptível até mesmo certo ciúme, que frequentemente se mescla ao desejo. No entanto, Clegg, que é o narrador da primeira parte do livro, consegue manipular não apenas as palavras, mas as sensações que deseja transmitir ao recontar os fatos, enquanto assegura a si próprio a segurança, as razões do que sente e do que deseja. Não é difícil ao leitor se perder enquanto tenta compreender a figura de Frederick Clegg.

“Ele é sólido, imutável, determinado. Um dia, me mostrou o que chamou de jarro de insetos. Estou presa lá dentro. Batendo as asas contra o vidro. Mas como consigo ver através dele, ainda penso que conseguirei escapar.”

Arquivo pessoal

Clegg é complexo. Além de um hábil mentiroso, é possível, na medida em que se avança na leitura, sentir florescer algo perigoso em seu âmago, âmago esse que, particularmente, insiste em abrigar um grande buraco negro que suga as emoções do próprio personagem. Ele é apático, insosso, possessivo; uma verdadeira pedra lisa, que de perto ameaça ruir. Como já diria a pensadora: “não gosto de você, não sinto verdade em você, acho você sim incoerente; você está onde te convém, em todos seus jeitos, falas, andados, posicionamentos e etc. Acho você um falso. Acho você extremamente sem educação, extremamente grosso com as pessoas e extremamente soberbo” – pegaram a referência?

Miranda representa não apenas o desejo supremo de Clegg, mas também salta como a personificação da classe mais abastada e culta que Clegg tanto detesta. A vida de ambos muda completamente quando Miranda ganha uma bolsa para estudar Artes em Londres e, logo em seguida, quando Clegg ganha uma considerável fortuna nas loterias.

Visando não se afastar de sua amada secreta, Frederick Clegg acaba comprando um velho chalé em Sussex, perto de Lewes, onde reforma o porão, transformando-o em uma prisão — ou em sua linguagem Clegguiana, quarto de hóspedes. Tendo sua tia Annie e Mabel, sua prima, viajado para a Austrália, e tendo também comprado um furgão, Clegg aguarda a sua oportunidade de ouro: ele decide coletar Miranda.

O que é mais assustador nessa obra é a forma como o autor consegue guiar a sua narrativa, conduzindo a história para fatos e percepções que impressionam os sentidos dos leitores, seja pelo impacto da trama, seja pelas atitudes e pensamentos de Frederick, que pouco a pouco apresenta indícios de sociopatia. Enquanto Fred é frio, inerte e hipócrita, preso em um lapso de autopiedade, Miranda é forte, corajosa, inteligente e tenta, por maior que sejam as dificuldades, persistir, resistir.

O Colecionador é um romance de suspense que se mescla com o romance filosófico, sem que um perca a essência para o outro. Fowles consegue separar, distinguir com maestria as duas linhas de pensamento do livro, que seguem Frederick e Miranda, respectivamente. Ao optar por narrar a história duas vezes, a primeira sob a ótica de Clegg, em seguida em forma de diários de Miranda, John Fowles não apenas demonstra ousadia, mas permite ao seu público destrinchar a mente peculiar do sequestrador e a mente flagelada da sequestrada, colecionador e colecionado, respectivamente. Dessa forma, o autor traz à tona debates de classes sociais, economia, feminismo, artes, literatura, teatro e música, objetos extensamente citados durante a obra.

“Sou uma entre uma fileira de espécimes. É quando tento bater as asas que ele me odeia. Meu papel é estar morta, presa por um alfinete, sempre a mesma, sempre linda. Ele sabe que parte da minha beleza reside em estar viva, mas é morta que ele me quer. Ele me quer viva-porém-morta.”

Arquivo pessoal

Pouco a pouco o leitor desentrava os obstáculos e conhece a origem do fascínio de Clegg, que antes de tudo fora um colecionador de borboletas — um hobbie herdado de seu tio. Agora rico, os conceitos de hóspede e prisioneira se fundem em sua mente. Até onde ele seria capaz de ir para capturar o alvo do seu maior desejo?

O Colecionador, romance de estreia de John Fowles consegue mesmo após 55 anos de sua publicação permanecer atual, impactante aos leitores e revigorante aos escritores que procuram inspiração. Com um final poderoso, suas últimas 30 páginas instigam o público a devorar as páginas, e, por mais que o coração tenha pressentimentos acertados, nada os prepara à ruptura abrupta de Fowles, que rouba o fôlego e entrega um final que claramente tumultuará as suas emoções. Um clássico para coletar mente e coração.

Observação: este livro foi cedido em parceria com a editora.

O Colecionador Book Cover O Colecionador
John Fowles
Suspense
Darkside Books
2018
Capa Dura
256

O COLECIONADOR é a história de Frederick Clegg, um homem solitário, de origem humilde, menosprezado por uma sociedade esnobe, que encontra o grande amor de sua vida. Tudo o que ele deseja é passar um tempo a sós com ela, demonstrar seus nobres sentimentos e deixar claro que eles nasceram um para o outro.O COLECIONADOR também é a história de Miranda Gray, uma jovem estudante de artes sequestrada por um maníaco que acha que pode obrigá-la a se apaixonar por ele. Tudo o que ela deseja é escapar do cativeiro, e vai usar de toda sua inteligência para sobreviver ao inferno em que sua vida se transformou. O romance é narrado por dois personagens antagônicos: o sequestrador e sua vítima. Frederick e Miranda. Todos temos um pouco dos dois dentro de nós, concluímos ao final de suas páginas ― quem consegue se desgrudar delas? Essa obra-prima lançada em 1963 continua perigosamente atual. Best-seller internacional, e ainda um sucesso de venda nos sebos após décadas fora de catálogo no Brasil, o grande romance de estreia de John Fowles está de volta com uma edição digna de colecionador, e aquele padrão de qualidade psicopata que só a DarkSide® Books tem. Com direito a capa dura, introdução do mestre Stephen King ― inédita no Brasil ― e mais conteúdos exclusivos. O feminismo, a solidão, a luta de classes, a liberdade, o que pode ou não ser considerado arte e o que pode ou não ser considerado amor... estes são apenas alguns dos temas que o autor traz à tona. Numa época sem textão de redes sociais, era com literatura de qualidade que pensadores dissecavam o mundo à sua volta. Com O COLECIONADOR, a DarkSide® abre a janela para que Miranda consiga sair do cativeiro e que sua história volte a encantar novas gerações de leitores.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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