Escondido nas profundezas de uma floresta no Maine, o Instituto se ergue silencioso, imponente e misterioso, tão desconhecido da população quanto se poderia imaginar. Embora persista nas sombras da ignorância humana, sua influência se estende longe e mortal. Entrar para o Instituto é como entrar para a máfia: uma vez lá, não se consegue mais sair.

“Sabe, Jamieson, essa vida que achamos que levamos não é real. Não passa de uma brincadeira de sombras e eu vou ficar bem feliz quando as luzes se apagarem. No escuro, todas as sombras desaparecem.”

Arte de Yuko Shimizu

Lançado em 2019, praticamente em simultâneo aos Estados Unidos, O Instituto é a obra mais recente de Stephen King, trazido em terras tupiniquins pela editora Suma, um braço da Companhia das Letras. Enquanto If we bleed, previsto para meados de 2020 – e ainda sem título no Brasil – não sai, comentemos um pouquinho sobre este romance que, já adianto, é muito bom. Bora lá?

Assim como Stephen King já fez anteriormente em IT, a Coisa e em O Talismã, por exemplo, O Instituto promoverá o encontro do público leitor com protagonistas crianças, e, se há algo que o autor faz muito bem – normalmente bem – é desenvolver crianças cativantes e tão complexas quanto seus personagens adultos.

Luke Ellis é um garoto de doze anos e bastante especial: além de ter uma inteligência extremamente elevada, de tal modo que é capaz de resolver testes universitários e se propor a concorrer a duas bolsas de graduação e estudá-las concomitantemente, ele também possui uma habilidade paranormal fraca, latente. E é justamente por este último detalhe que Luke se torna alvo do Instituto, uma organização científico-militar secreta e sinistra.

No Instituto, após ser sequestrado, Luke passará a conviver com outros jovens, mais novos e mais velhos na mesma situação de clausura que está. Ali, todos são recrutas, todos serão guardiões de sua nação, reunidos para um bem maior – pelo menos é isso que os funcionários querem que eles acreditem. No interior daquelas paredes, médicos executam experimentos cruéis com as crianças, aplicam substâncias desconhecidas, agridem e violentam quem age em desacordo. A punição é realizada com bons olhos e sorrisos no rosto dos cuidadores.

A leitura se torna dolorosa em alguns momentos. King transforma o Instituto e seus funcionários em vilões dignos de nota – e desafeto. No entanto, vale ressaltar que esses fatos não são usados em desarmonia com a construção das personagens, nem com o tom da história.

Avery Dixon é outro dos jovens raptados pelo Instituto. Mais novo que Luke, a situação em que se encontra o torna mais mimado e assustado de início. Mas o pequeno esconde uma habilidade telepática extremamente poderosa e, unido a Luke e sua mente, talvez exista algo que possam fazer para virar o jogo.

Pode parecer “chover no molhado”, mas não posso deixar de citar as personagens tão bem construídas e que fazem de O Instituto um livro tão delicioso de se ler. Boa parte da história ocorre no interior dessa organização, o que permite que investiguemos a vida daquelas crianças, criando um vínculo de empatia que se estende até o final da história. Enquanto as crianças dão um tom mais ameno e ágil à trama, as personagens adultas promovem o rebuliço, as reviravoltas revoltantes e angustiantes. Entre as crianças, vale manter o olho aberto para Kalisha, George e Nick, por exemplo.

Não poderia ser uma história de Stephen King se não tivesse uma trama dentro da trama, certo? É aqui que entra Tim Jamieson, um ex-policial que segue sem rumo certo, até aportar em DuPray, uma cidadezinha na Carolina do Sul. Lá, trabalhando como vigia noturno para o xerife John, o destino se mostrará para ele definitivamente. Às vezes estamos no lugar certo para na hora certa as coisas andem como devem andar.

Um ponto interessante para se comparar é a história de A Incendiária e O Instituto. Embora nada esteja confirmado, há quem sugira que a Oficina tenha ligação com o Instituto. Talvez sim, talvez não, mas a verdade é que ambas as instituições tem o seu interesse em crianças com habilidades incomuns.

“Ocorreu a ele de repente que era preciso ficar preso para entender de fato o que era liberdade.”

Jaeden Martell, o Bill Denbrough de IT, um bom Luke, talvez?

Outro ponto bacana de citar é como o autor encaixou bem as referências a vários livros. Em determinado momento, cita-se, por exemplo, As Crônicas de Gelo e Fogo. Há, é claro, referências ao kingverso – universo compartilhado das obras de Stephen King –, com lembretes a Salem.

Com um ritmo que aumenta gradativamente, O Instituto assegura mais uma vez ao leitor saudoso das obras dos anos 70 e 80 de Stephen King, tais como O Iluminado, IT e Salem, que King ainda tem boa mão para histórias eletrizantes, cheias de suspense e personagens complexos. Dos finais, que sempre dividem opiniões, em O Instituto o autor amarra bem a história, ressalta críticas políticas, mas deixa espaço para um saboroso – e se…?

O Instituto Book Cover O Instituto
Stephen King
Suspense
Suma
2019
Brochura
544

O novo livro de Stephen King, o Mestre do Terror, traz uma história inesquecível sobre um grupo de crianças com talentos especiais que precisam se unir para derrubar um grande mal.

No meio da noite, em uma casa no subúrbio de Minneapolis, um grupo de invasores assassina os pais de Luke e sequestra silenciosamente o menino de doze anos. A operação leva menos de dois minutos.
Quando Luke acorda, ele está no Instituto, em um quarto que parece muito o dele, exceto pelo fato de que não tem janela. E do lado de fora tem outras portas, e atrás delas, outras crianças com talentos especiais, que chegaram àquele lugar do mesmo jeito que Luke. O grupo formado por ele, Kalisha, Nick, George, Iris e o caçula, Avery Dixon, de apenas dez anos, está na Parte da Frente. Outros jovens, Luke descobre, foram levados para a Parte de Trás e nunca mais vistos.
Nessa instituição sinistra, a equipe se dedica impiedosamente a extrair dessas crianças toda a força de seus poderes paranormais. Não existem escrúpulos. Conforme cada nova vítima vai desaparecendo para a Parte de Trás, Luke fica mais e mais desesperado para escapar e procurar ajuda. Mas até hoje ninguém nunca conseguiu fugir do Instituto.
Tão aterrorizante quanto A incendiária e tão espetacular quando It: a Coisa, este novo livro de Stephen King mostra um mundo onde o bem nem sempre vence o mal.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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