Desde o início de 2020 eu botei na cabeça que queria ter uma experiência literária diferente, uma dessas de clube literário. Como aqui onde eu moro não tem nenhum clube do livro presencial (e, sinceramente, desconheço leitores), acabei indo pesquisar os clubes de assinatura. Não sabia, mas têm vários! Fiquei entre assinar a TAG e o Intrínsecos, mas a proposta do segundo acabou me cativando – não que eu não tenha assinado também a TAG rs. Minha primeira caixinha foi a de março, nº 18, e o livro, segredo para ninguém, foi O Livro de Líbero, o primeiro nacional do clube.

“A vida é uma sequência de aleatoriedades frágeis, pequenas sincronicidades que ocorreram, mas que poderiam muito bem não ter ocorrido.”

Acervo pessoal – @liemderry_

Pausado é uma cidadezinha simplória, de gente ainda mais simples, situado em sabe-se-lá-onde, em uma época ainda menos exata, mas certamente antiga, quando isqueiro era novidade. De poucos habitantes, majoritariamente agrária, aquele era um lugar aconchegante, que facilmente transportará o leitor para as suas memórias de infância, das férias que passava com a avó, ou a tia, ou com outro parente tão afastado da cidade grande quanto se poderia.

Líbero Perim é tão protagonista quanto a própria cidade de Pausado. Menino baixinho, mirrado, mas veloz nas pernas e no pensamento, tão curioso que se torna capaz de devorar livros e mais livros em tempo recorde. Filho do Sr. Perim, jornalista-redator-editor-chefe e muito mais da Gazeta de Pausado, o pequeno se divide entre livros, o jornal e seus amigos.

O único problema de Perim é o seu futuro: todos querem decidir por ele o que é melhor. De continuar em Pausado a sair e estudar jornalismo. Das profissões mirabolantes ao medo de nunca mais crescer, de não ser amado e tantos medos mais que a infância nos traz. Líbero tem na curiosidade a dificuldade em não correr a frente, em tomar a decisão errada. Se tudo pudesse ser mais fácil, se a sua vida estivesse em livro…

Lourival Sibelius está levando o circo Bosendorf para Pausado. Entre tantos espetáculos diferentes e deslumbrantes, bem sabidos de todo circo, há uma tenda, e nesta tenda um homem especial. Nas suas maletas e estantes desmontáveis estão vários livros, tão incomuns quanto sua pessoa. Ali, naquele meio curioso, um livro chama a atenção: vermelho e robusto, na capa diz sem rodeios – O Livro de Líbero. O seu livro da vida.

Dos preparativos para receber o circo até a noite de espetáculo, tudo ferve e ganha mais vida em Pausado. A Gazeta, de Massimo Perim também tem planos para boas reportagens envolvendo o evento, e cabe a Líbero e Rúbio, que ajuda o Sr. Perim no jornal, conseguir os furos!

A escrita de Alfredo Nugent Setubal é muito interessante, tendo em vista o conjunto do livro, então vale comentarmos um pouquinho. Enquanto lia, foi curioso como a forma que a história era contada me lembrava os clássicos da literatura brasileiro, em uma fusão agradável dos livros do romantismo e do realismo. Talvez eu não seja tão preciso, mas definiria a escrita de Nugent como se Machado de Assis reescreve-se José de Alencar, ou vice-versa. Senti-me muito acalentado em Pausado, entre as personagens tão singulares, mas que sem que percebamos, nos marcam pouco a pouco.

A narrativa se alterna entre Baltazar – o dono dos livros da vida no circo –, que relê desesperadamente a história de Líbero, ciente de que o reencontro dos dois acontecerá em poucas horas. Neste ponto, podemos dizer que a história se divide em dois tempos e, portanto, em dois tomos, mais precisamente sobre o passado de Líbero e, em seguida, seu presente.

Nugent, em seu livro conversa muito com o coração do leitor. Frequentemente somos convidados a refletir sobre algumas ações, acontecimentos que certamente nos dividiriam, caso fôssemos os protagonistas. O que você faria se lhe fosse ofertada a chance de ler o seu livro da vida?

“Por um instante achou que tinha um quê de assustado nos olhos dela, e talvez tivesse mesmo, pois as coisas mais lindas do mundo também podem dar medo quando as vemos pela primeira vez.”

Acervo pessoal – @liemderry_

Embora o livro tenha os seus momentos delicados e acalentadores, O Livro de Líbero mexe com nossas emoções, estimula nossa empatia, nosso afeto e encerra com sabor agridoce. Com personagens surpreendentemente complexos, Nugent constrói uma verdadeira ode à nostalgia da infância e à simplicidade do coração humano. Terminar O Livro de Líbero é compreender que o futuro é feito de inúmeras escolhas, das quais vivemos algumas e deixamos de viver outras.

** livro lido na edição do Clube Intrínsecos**

O livro de Líbero Book Cover O livro de Líbero
Alfredo Nugent Setubal
Ficção
Intrínseca
Mar. 2020
Capa Dura - Intrínsecos 18
256

Quando o Circo Bosendorf chega a Pausado e se instala naquela que possivelmente é a menor cidade do mundo, toda sorte de eventos pode acontecer. Massimo Perim, com seu apurado faro jornalístico, logo envia ao local uma equipe da sua Gazeta de Pausado para descobrir quais serão as atrações da tão esperada noite. Seu filho Líbero – autointitulado “redator-repórter-editor-chefe-júnior” do jornal – e Rubio, o fiel escudeiro dos Perim, partem rumo à empreitada sem imaginar que algo fantástico e inexplicável espera por eles.

Embora tenha crescido imerso em aventuras literárias, naquela noite será oferecido ao menino um livro que ele nunca imaginaria ter nas mãos, um volume grosso, de capa vermelha, e, a cada página virada, a oportunidade de ler eventos do próprio futuro reescrito em diferentes versões. Aceitar levá-lo ou rejeitar a chance de saber o roteiro da própria vida são as alternativas que podem mudar para sempre o destino não apenas de Líbero, mas de todos aqueles que ama e da própria cidade.

Em seu livro de estreia, Alfredo Nugent Setubal leva o leitor para um passeio pelos caminhos da memória, investiga a natureza do tão familiar sentimento de “e se tivéssemos feito tudo diferente?” e nos mostra que o futuro talvez não passe de inúmeras versões do caleidoscópio do presente.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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