Repentinamente, um cansaço desconfortável e incomum se abate sobre um deles. A necessidade de repousar, de se deitar e adormecer é imensa, quase insustentável, e pouco a pouco esse desejo se alastra, silencioso e invisível. Em um dia é apenas um. No seguinte, dois deles se sentem assim. Uma semana mais tarde, a conta passa das dezenas e avança até as centenas. O que está acontecendo ali?

Certas coincidências são estranhas demais para serem explicadas e a publicação de Os Sonhadores em plena pandemia de Covid-19 é uma delas. O motivo dessa estranheza coincidente? Assim como a quarentena que atualmente estamos vivendo, a pacata cidadezinha de Santa Lora, nos Estados Unidos também enfrentará a sua própria quarentena. Talvez por isso não seja o melhor livro para ser lido nesses dias, principalmente se você o seu período de isolamento estiver sendo dos mais complicados.

“Ninguém usa a palavra quarentena, mas Mei procura no dicionário. Do italiano, quaranta giorni, quarenta dias. Quarenta dias: o período que outrora os navios deviam esperar antes de entrar no porto de Veneza – tempo suficiente , era a esperança deles, para uma doença contagiosa se exaurir”.

Os Sonhadores – edição da TAG Inéditos

Em Os Sonhadores, Karen Thompson Walker leva os seus leitores ao sul da Califórnia, até a cidade universitária fictícia de Santa Lora, uma cidade batizada por uma incorporadora responsável por ter construído todo o centro no estilo “missão religiosa colonial”. Na medida em que o leitor avança pelas páginas, ele reconstrói essa inspiração, enquanto visita a região simplória e que basicamente se dá pela existência da universidade e do lago próximo às construções.

Com ares tecnológicos e de distopia, Os Sonhadores apresenta o início de uma epidemia que transforma a rotina de todos os cidadãos de Santa Lora. A doença misteriosa tem seu paciente zero na universidade, quando uma das jovens estudantes se deita e não acorda no dia seguinte: embora não esteja morta, ela apresenta um estado de sono intenso e profundo, sendo incapaz de acordar; é como se ela estivesse em estado vegetativo.

Aos poucos as pequenas personagens de Santa Lora recebem os curiosos, cientistas e jornalistas de todo o país. Seria algum tipo de transtorno coletivo, uma doença infecciosa nova ou fake news do Governo?

Os hospitais vão se enchendo de pacientes em sono profundo. Aparentemente, todos eles parecem adormecer com intensa atividade cerebral. Estariam todos sonhando? E quais sonhos seriam esses? Estariam vivendo em alguma realidade paralela, revivendo o passado ou sonhando com um futuro incerto?

A universidade, além de epicentro de toda a história de Os Sonhadores é também uma das personagens do romance de Walker. A sua importância para a cidade e a sua relação com as personagens é clara e recorrente, mantendo um elo que une cada ponto de vista a um ponto de observância ainda mais expressivo: o do narrador.

Quando falamos da narrativa de Os Sonhadores, creio ser um bom momento para comentarmos sobre as peculiaridades do caminho adotado pela autora ao construir seu enredo. Diferentemente da maioria das histórias, aqui o leitor acompanhará os acontecimentos por meio de um narrador onisciente, que já sabe como as coisas se desenrolam e evita se intrometer como personagem ativo da história.

Junto desse narrador, conhecemos uma série de outras personagens de Santa Lora, numa alternância frequente de capítulos curtos, e que devem lidar com a situação da epidemia e da quarentena – pois a cidade logo é fechada completamente pelo Governo – da melhor maneira que conseguirem. E é aqui que nós esbarramos em um grande problema: essa apresentação excessiva de personagens, vistos por um narrador que pouco nos importamos, atribui um caráter de narrativa periférica, na qual não temos um aprofundamento das personagens, não as acompanhamos em seu desenvolvimento, seus transtornos, medos e pensamentos. A maneira como Os Sonhadores é contado se assemelha a de um documentário de poucos minutos sobre uma curiosidade isolada de algum tema científico ou natural. Isso acaba gerando um desinteresse na leitura que vai e volta, infelizmente.

“Como a doença às vezes expõe o que de outra maneira está oculto. Com que desleixo a doença revela o eu privado de uma pessoa”.

Por dentro da edição de Os Sonhadores e revista da TAG Inéditos.

Outro ponto importante é como a própria doença misteriosa é subutilizada no desenrolar da trama. Se o leitor espera que a autora retrate as investigações, busca pelo tratamento e origens, ou ainda que apresente e desenvolva o ponto de vista da cientista/pesquisadora/médica, não encontrará muito disso no livro. Há muito mais de uma tentativa filosófica e metafórica no texto de Karen Thompson Walker.

Com um potencial grande para um livro com ares de distopia, Os Sonhadores acaba se sobressaindo mais por seus deslizes do que por seu sucesso narrativo, tornando-se um romance muito mais observativo que participativo. Se por um lado em Belas Adormecidas, de Stephen King e Owen King, as personagens – que também sofrem de um sono repentino e misterioso – logram complexidade e estabelecem laços com o leitor, Os Sonhadores, de Karen Thompson Walker permanecem desimportantes e dormindo. Uma pena.

Você também pode gostar de: Belas Adormecidas, de Stephen King & Owen King; A Dança da Morte, de Stephen King e Mestre das Chamas, de Joe Hill.

Os Sonhadores Book Cover Os Sonhadores
Karen Thompson Walker
Suspense
Tag Inéditos/Alfaguara
Abril/2020
Brochura
334

Uma pacta cidade nos Estados Unidos é transformada por uma misteriosa doença. Seus habitantes caem aos poucos em um sono profundo, perpétuo, e os que continuam despertos precisam aprender a seguir com a vida e a sobreviver - sem saber se irão acordar no dia seguinte. É um romance impactante, da autora do best-seller A idade dos milagres

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.