É fato de que parte dos leitores de ficção – dos leitores brasileiros, esclareço – tende a pensar em literatura nacional como algo a) demasiado irritante ou tedioso ou b) de qualidade duvidosa, talvez não tão interessante quanto a enxurrada de histórias estrangeiras (aqui você pode pensar em algo majoritariamente norte-americano ou britânico). Mas a verdade é que muitas vezes nós não nos predispomos a redescobrir a literatura nacional, a nova onda de ficção pluralizada na qual vivemos imersos. Essa negação, esse preconceito nato impede o encontro do leitor com obras tão boas quanto as traduzidas e, caro leitor, te impediria justamente de ter contato com histórias fantásticas, a exemplo de Porém Bruxa.

“Somos as filhas de todas as bruxas que vocês não conseguiram queimar. Bem poderia ser verdade: a Inquisição nunca conseguiu queimar uma bruxa sequer, então a descendência das legítimas é extensa. Sei disso de fonte segura: sou uma delas, afinal.”

Arquivo pessoal – @liemderry_

Em Porém Bruxa, livro de estreia de Carol Chiovatto e lançado em 2019 pela editora Avec, o leitor será transportado para uma São Paulo contemporânea, tão viva e efervescente quanto a real. Nessa nova realidade, conheceremos Ísis Rossetti, uma bruxa responsável pela monitoria da metrópole contra crimes envolvendo o sobrenatural. Para a plena realização de seu trabalho, ela deve seguir uma regra absoluta: se não houver magia envolvida, ela não pode interferir.

Ísis é uma personagem bastante interessante. Como sentinela e bruxa investigadora, suas habilidades são notáveis: dotada de grande intimidade com os poderes da Terra, ela manifesta sua magia através da linguagem indígena atiaia. Não obstante, Ísis também é conhecedora de várias mitologias e de divindades e religiões diversas. Já como pessoa, nossa protagonista consegue exercer certo fascínio, seja por suas atitudes célebres e bastante empáticas, seja por seus discursos pontuais e seu modo de vida livre.

É justamente entre suas investigações que algo chama a atenção de Ísis: uma criança desapareceu em circunstâncias estranhas, que, graças a sensibilidade da jovem bruxa, alertam para uma situação mais perigosa. Entre se envolver com questões mundanas e realizar o seu trabalho, Ísis deverá cruzar barreiras frágeis que cercam duas sociedades distintas: a comunidade civil e a sobrenatural. Isso tudo sem citar o envolvimento com divindades que requerem o seu serviço e o olhar sempre atento do Corregedor, figura superior a Ísis.

A escrita de Carol Chiovatto é um ponto importante desta resenha e merece ser comentado. Se por um lado parte das grandes fantasias acaba se transformando em romances encorpados, de narrativas inchadas pelo excesso de descrição ou por seus capítulos longos, o livro de Chiovatto consegue romper com essa visão, ao entregar uma história mais refinada, com capítulos sob medida e dotada de uma fluidez narrativa que se banha confortavelmente de personagens interessantes e de um cenário familiar ao público leitor. É tudo muito bem encaixado.

O trabalho editorial da Avec em Porém Bruxa também colabora para o sucesso do livro, com diagramação bem feita, revisão certinha e capa e miolo muito agradáveis.

“Achar culpados externos para isso é uma ideia atraente pra quem perdeu o controle da própria vida.”

Arquivo pessoal – @liemderry_

Um dos pontos altos do livro é a forma como a autora consegue inserir temas do nosso cotidiano, de nossa cultura e sociedade tão bem. Na medida em que o leitor for avançando pela história de Ísis Rossetti, descobrirá novas abordagens e bons debates acerca de sexualidade e relacionamento; da religião como ferramenta de aliciação e alienação civil; a questão do papel da amizade para o desenvolvimento e manutenção do indivíduo; o respeito à liberdade de crença; o relacionamento tóxico e o machismo enfrentado pelas mulheres e a sua institucionalização no berço familiar; a violência e muito mais.

Porém Bruxa nasce como uma aposta certeira da editora Avec, e assegura a plenos pulmões a qualidade inquestionável do brasileiro em produzir ficção que promove um laço entre aquele que lê e o que é lido. Com uma protagonista independente e poderosa em todos os sentidos, Chiovatto entrega uma fantasia urbana cativante e merecedora de uma adaptação pela Netflix.

Indicado para quem gostou de: O livro e a espada, O auto da maga Josefa e O Capeta-Caolho contra a Besta-Fera.

Porém Bruxa Book Cover Porém Bruxa
Carol Chiovatto
Fantasia urbana nacional
Editora Avec
2019
256

Ísis Rossetti é uma bruxa. Seu trabalho é monitorar crimes envolvendo forças sobrenaturais na cidade de São Paulo. Apenas esses. As regras são claras: se não houver magia envolvida, ela não pode intervir. Mas em meio ao caos sufocante da cidade, a vida dos comuns está constantemente em perigo. Não há como não ajudar. Tudo se complica quando, em meio a duas investigações extraoficiais, Ísis recebe uma missão de uma divindade. Ela precisa então reviver questões pessoais que preferiria manter enterradas no passado, guardadas a sete chaves por seus amigos, enquanto tenta lidar com os vigilantes olhos do Corregedor.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.